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Homenagem

Jaiminho: o adeus ao amigo de Bonito

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Será  sepultado na tarde desta quarta-feira (24) em São Paulo, Jayme Augusto Paniza  Sanches, aos 60 anos. Paulista de Moema Jayme era um jovem apaixonado pela vida e pela natureza quando chegou em Bonito. O pai o trouxe para essas bandas, dono de um pesqueiro na barra dos rios Miranda e Formoso. Jaiminho – como todos os chamavam – era um empreendedor nato; foi ele quem socorreu a empresa da família numa das maiores crises econômicas da história recente do país. O pai e os tios eram proprietários da empresa Rochester, pioneira a na distribuição de peças para Veículos Diesel no Brasil.

Em Bonito, Jaiminho é figura muito querida da população e amigo de todos. Na década de 80, quando conheceu o pesqueiro do pai, a Fazenda da Barra, logo se apaixonou pela região e adquiriu mais tarde, o Rancho Tucano. Essas propriedades são Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN), uma área reservada pelo poder privado para proteger a natureza. Seu lema era: conservação x produção.

Jaiminho trouxe pra Bonito as primeiras discussões e debates sobre a questão. Por meio do seu "Projeto Vivo", levou crianças bonitenses a conhecer a belezas naturais de sua região. As palestras nas escolas da cidade  e aulas de educação ambiental na fazenda da Barra formou  uma geração de adolescentes e jovens na conscientização da conservação da natureza e em defesa do cerrado e das aguas cristalinas.

Segundo familiares, Jaiminho passou os últimos dois meses internado em um hospital em Fortaleza para se tratar de problemas cardiovasculares, vindo a falecer na última segunda feira. Seu corpo foi transladado para SP, onde será  sepultado na tarde de hoje no jazigo da família.

Vida... e muita história

Jaime Augusto Paniza Sanches dedicou a vida a sua família, empresa e a ecologia, deixando um legado imensurável para a cidade e região. Foi um dos responsáveis pela introdução do turismo sustentável em Bonito e teve reconhecido seu trabalho como ambientalista pela população.

Participou  ativamente  da criação de várias organizações da sociedade civil, sem fins lucrativos, dedicadas às lutas por um mundo melhor, mais ecológico, pacífico e democrático, entre as quais se destacam a Associação Brazil Bonito e a Fundação Neotrópica do Brasil. Foi em sua casa no BNH, a primeira sede da instituição  em 2000. Jaime arou a terra, semeou, regou e cuidou das primeiras sementes da conservação ambiental na região.

Tenho certeza que o Jaiminho continuará a nos inspirar e a motivar a seguir em frente. Sua partida precoce e sem aviso prévio nos faz responsáveis pelo seu amor a humanidade, a natureza e paz. Perder o amigo significou para nós – eu e Marcia – a perda de um companheiro de caminhada. Para Bonito e o movimento ambientalista é a perda de um militante de primeira hora, um nome que alcançou projeção regional e nacional mas nos deixa a lição e missão de que a sua luta nunca foi em vão e pressupõe perseverança e resiliência.

Sua morte, pegou a todos de surpresa, e aconteceu pouco antes de completar mais um ano de vida (ele faria 61 anos em 29 de dezembro). Em vida, todos reconheciam sua humanidade, honestidade, amizade e afeto, e na hora da sua partida não foi diferente.

Um caráter inquieto e incapaz de desviar o olhar de uma iniquidade, Jayme Augusto Paniza Sanches, ou simplesmente Jaiminho nunca guardou para si sua acurada visão da humanidade e do mundo.

Foi dele que eu e dona Marcia compramos a propriedade em que construímos o primeiro Hotel Fazenda de Bonito no Km 11 da Rodovia do Turismo, onde seu filho Florestan brincou e cresceu junto aos nossos. Temos histórias lindas com ele...

Lembro de meu pai e ele embaixo da sombra de um pé de cedro negociando aquele pedaço de chão e o Jaiminho antes de pegar o cheque dizendo: "seu Waldemar, estou vendendo para o senhor e o Bosco porque sei que, como eu, amam a natureza, senão não faria o negócio!".

E o Jaiminho era assim mesmo, direto, sincero e verdadeiro. E tinha muita paixão pelo verde. Pois era verde até no time, como paulistano de boa cepa, era palmeirense "roxo". Eu brincava vez o outra, o chamando: "fala seu Palestra!".

Nunca esqueço uma passagem, numa visita minha e de Marcia para ele e Marcêuda, em São Paulo, quando me "intimou" a ir com ele e mais um amigo palmeirense assistir, no Pacaembu, seu Palmeiras derrotar – pra sua enorme felicidade – o Corinthians. Mas antes do convite, fez uma advertência "cruel" para o santista nato que vos fala: "Boscão, você vai ter que torcer pro Palmeiras, senão..."

Foram anos dourados de uma bela amizade, rompida abruptamente por uma cruel fatalidade, quando seu filho, Florestan, o menino luz se foi para sempre. Depois daquele dia, Jaime nunca mais foi o mesmo. Tornou-se ainda mais retraído, tímido e se voltou ainda mais para a os filhos Thais e André.

Dali pra frente, aos poucos foi se apartando de seu pedaço de chão e do rincão Bonito, indo posar com seus filhos, em paragens nordestinas.

Carta assinada por Jaiminho fazendo agradecimentos ao funcionário, que hoje se tornou empresário na região.

Ninguém melhor para falar sobre a vida do ser humano, Jaiminho do que as pessoas que trabalharam com ele. Numa das despedidas  um ex-colaborador de sua empresa relata que ao ser demitido recebe uma carta assinada por ele: "recebi essa carta de suas mãos sr. Jayme Augusto Paniza Sanches, por uma pequena atitude que tomei, a carta ficou guardada por esse tempo e ficará guardada até ti encontrar novamente. Obrigado pelo carinho, aprendizado e exemplos de respeito ao próximo. O mundo perde uma pessoa sensacional, vá em paz meu amigo, que Deus conforte o coração dos familiares", escreveu Fabio Sandro, ex-funcionário e proprietário na empresa Marcenaria Stefanutto & Silva/SP.

E as rede sociais amanheceram abarrotadas de homenagens em Bonito, São Paulo, Fortaleza e Brasil afora a esse capricorniano que forma com o signo de Touro (o qual também é meu signo) e Virgem, a triplicidade do zodíaco da terra: "meu primo irmão, o capricorniano mais doce que alguém poderia conhecer. Sempre com um abraço afetuoso e um sorriso largo, lindo e maroto. Queria saber quem disse que somos insubstituíveis, porque você não é e nunca será! Descanse em paz na presença de Jesus, primo amado. Essa vai ser duro superarmos; mas por amor a você, nos esforçaremos e por fé em Deus tentaremos ser resilientes. Te amaremos para sempre", assinaram suas primas Paula e Claudia, além dos tios Walter e Marlene,

Marcia chora por sua partida:

"Não nos falávamos mais com tanta frequência. O tempo passou e aquela imagem de jovens esperançosos, corajosos, que não temiam nada e ninguém, ficou para trás. Os acontecidos das nossas vidas transformaram nossos corações e nossas almas... eu bem sei o quanto você sofria a dor do irmão, daquele que você conheceu e dos que você sabia da existência. Quando precisamos um do ombro do outro falávamos por hora no telefone – também briguei muito com você quando sumia de nós. Aqui neste mundinho não tem só lugar para dor, nem tristeza, nem solidão, nem amor... estou de coração partido como muitos dos amigos. Não quero uma palavra de consolo pra família, quero um abraço desse ser de luz que passou por nossas vidas! Segue na luz e que o nosso menino luz esteja te recebendo, meu amigo e meu irmão!"

A Thais sua afilhada, também presta homenagem: "Jaiminho, que legado que tu deixastes por aqui. Passa um filme na minha cabeça de tudo que você me ensinou. Quando mais precisei, me estendia a mão. Foi uma honra caminhar durante anos com você. Por isso me é o padrinho mais precioso que tenho. Hoje estamos de luto, mas sei que aí em cima tem uma pessoinha muito especial para te receber! Cumpriu seu papel como ser humano, quantas pessoas você ajudou, ensinou, que coração mais precioso. Me despeço com o coração partido, porém muito feliz por fazer parte de sua história. Que estrela mais linda. Mainha, Thata e Deco meus sentimentos, contem comigo sempre, amamos vocês".

Outro afilhado, Sérgio Felga filho postou: "padrinho Jayme Augusto Paniza Sanches exemplo de humildade, um dos responsáveis por trazer o turismo sustentável para Bonito. Fez grandes trabalhos de conscientização ambiental com as crianças. Sem falar no tanto de família que ajudava. Deixou um legado muito grande, iluminado, com as melhores qualidades".

Jaiminho ao lado de ambientalistas em Bonito; registro foi realizado em meados da virada do milênio.

O amigo Marcelo Real escreveu: "meu amigo do peito, Jayme Augusto Paniza Sanches, não está mais entre nós – a dor é grande demais. Jaiminho... eu tive a honra de conviver com ele por mais de 38 anos momentos muito próximos e outros menos, mas sempre que nos falávamos era exuberante as conversas e o pensamento. Acreditava demais no ser humano! Lembro como se fosse hoje do dia em que pela primeira vez tu apareceu lá na Bourgelat, em 1984, procurando saber mais como seria aplicar a homeopatia veterinaria nos animais da sua propriedade. Fomos longe! A pecuária da Barra cresceu de forma sustentável com muita gente boa, Coelho, Ademir, Mane, depois veio o Projeto Vivo, a primeira RPPM do MS, Chico construtor, o Sérgio Felga. Enfim, a paixão pelo certo, pelo novo, quantas e quantas conversas no Rancho do Tucano com a companhia da querida Marcêuda. Tive a felicidade de conhecer ainda bem novinho o bebê de colo Florestan, com que neste momento tu já estás junto. Depois vieram Gisele, Giba, Sandra e a linda Thaís – Andre e os meus filhos que tu logo ensinou a paixão pelo verdão. Jaymão, a hora da despedida é terrível, dolorosa para todos, mas vamos sempre lembrar do teu sorriso grande largo, o teu jeito afetuoso de estimular as pessoas a buscarem os seus sonhos. Um dia a gente se encontra aí no céu, nos braços do nosso Pai! Obrigado por tudo meu grande irmão!".

A Carla Cardoso, cujo pai trabalhou com Jayme, envia seu adeus: "hoje Deus levou para morar junto dele você, Jaiminho. Uma das pssoas mais boas que nossa família teve o prazer de conhecer e poder chamá-lo de amigo e depois patrão. Porque era o amigão de meu pai e de todos que de ti se aproximava. Alguém que por onde passava deixava sua alegria e um legado de humildade como poucos nesse mundo. Sempre pensando no próximo e um dos amantes da natureza de bonito assim como suas lembranças estão espalhadas no projeto vivo e rancho do tucano por onde você era apaixonado. Com toda a certeza seu lugar está reservado no mais lindo dos céus e sua estrelinha estará lá no infinito brilhando e nos iluminando. Que Jesus na sua infinita bondade te receba de braços abertos".

Na morte de meu pai, procurei buscar melhor essa passagem da vida da qual nenhum de nós deixara viver. Busquei na leitura de "A Morte é um dia que vale a pena viver", livro de uma jovem médica, um pouco de reflexão para amenizar a perda, a mesma que sinto agora. A autora nos lembra:

"...que o tempo passa no tempo dele, indiferente a torcida para apressar ou retardar sua velocidade. A vida é o intervalo que fazemos entre o espaço de nascer e morrer. O tempo corre em ritmo constante e poucas vezes nos damos conta disso: a compreensão do processo de morrer. Nos preparar para a morte não ajuda a evitar esse encontro, mas ajuda a evitar o temor dele e a transformá-lo em respeito. Muitas vezes, é só com a consciência da morte que nos apressamos em construir o ser humano que deveríamos ser e não esperar até que nos deparamos em nossa caminhada com um grande muro que diga aqui é o final".

Amigo, você foi um ser humano especial o tempo todo, cuja vida e história, jamais colocará um final. Bonito e sua gente serão eternamente gratos por seu legado. Vai com Deus, meu irmão!

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