Direitos humanos
Painel de Dados lançado pelo Ministério das Mulheres traz perfil das vítimas, agressores e contexto das agressões
De janeiro a julho de 2025, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 recebeu 86.025 denúncias de violência contra mulheres. O número representa o terceiro maior tipo de atendimento entre os mais de 594 mil registros feitos por cerca de 300 atendentes da central nesse período.
Coordenado pelo Ministério das Mulheres, o Ligue 180 é um serviço gratuito que acolhe, orienta e encaminha denúncias aos órgãos competentes nos estados, no Distrito Federal e nos municípios. Além disso, a central oferece informações sobre os direitos das mulheres, leis e serviços da rede de atendimento.
Nesta quinta-feira (7), o Ministério lançou o Painel de Dados do Ligue 180 — uma plataforma pública e interativa com informações detalhadas sobre os tipos de violência, perfil das vítimas e agressores, e contexto das ocorrências. O lançamento marca os 19 anos da Lei Maria da Penha e integra a campanha Agosto Lilás, que neste ano tem o tema: "Não deixe chegar ao fim da linha. Ligue 180."
Dados para mudar realidades
Durante evento com jornalistas, em Brasília, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, reforçou a importância de usar dados baseados em evidências para formular políticas públicas. “Seja nos feminicídios ou em qualquer tipo de violência, precisamos entender, estudar e agir com estratégias efetivas para mudar esse comportamento.”
A plataforma já estava em desenvolvimento desde o segundo semestre de 2024 e reúne dados de atendimentos feitos por diversos canais: telefone 180, e-mail (central180@mulheres.gov.br), WhatsApp ((61) 9610-0180) e videochamada em Libras.
A coordenadora-geral do Ligue 180, Ellen dos Santos Costa, destaca que os dados são inéditos e fundamentais para retratar a violência de gênero no país. “Nosso papel é oferecer uma base de dados robusta, que fortaleça as políticas públicas e permita o direcionamento mais eficaz de recursos.”
Perfil das vítimas e agressores
Entre janeiro e julho deste ano, a maior parte das vítimas que denunciaram violências à central são mulheres heterossexuais (57,7%) e negras (44,3%). Em quase metade dos casos (47,6%), o agressor era parceiro ou ex-parceiro. Também foram registradas violências cometidas por vizinhos (5,3%), outros tipos de relação (11,5%) e casos sem vínculo declarado (8,8%).
Do lado dos agressores, a maioria é composta por homens heterossexuais (49,2%) e negros (41,4%), seguidos por brancos (32%). Os dados apontam para o impacto da desigualdade racial nas dinâmicas de violência de gênero.
Entre os tipos de violência registrados, destacam-se:
Violência física: 35.665 casos (41,4%)
Violência psicológica: 24.021 (27,9%)
Violência sexual: 3.085 (3,6%)
Outros tipos de violência fora do contexto da Lei Maria da Penha: 14.432 casos
A maioria das agressões acontece dentro da residência da vítima (40,7%) ou em casas compartilhadas com o agressor (28,2%). Houve ainda registros de violência cometida na casa do suspeito (5,5%).
Outro dado preocupante: muitas mulheres convivem com a violência por longos períodos antes de buscar ajuda. Mais de 18 mil denúncias se referem a casos iniciados há mais de um ano. Em 9% dos relatos, a violência já durava mais de cinco anos; em 8,6%, há mais de uma década.
Fortalecer a rede de apoio
O Ministério das Mulheres também lançou o Painel da Rede de Atendimento à Mulher, com o mapeamento dos serviços públicos disponíveis em todo o país — como as Delegacias da Mulher (Deams), juizados, promotorias, abrigos e centros de acolhimento.
A ministra Márcia Lopes defende a criação de estruturas públicas dedicadas à proteção das mulheres em todos os níveis da administração pública. “Mesmo nos municípios menores, é preciso haver ao menos uma coordenação para articular as políticas de enfrentamento à violência. Sem esse olhar diário, não há como entender a realidade.”
Atualmente, apenas 14 estados assinaram o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, que visa organizar o fluxo de atendimento às vítimas e fortalecer as ações de enfrentamento à misoginia, à violência e à discriminação.
Como buscar ajuda
O Ligue 180 funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, com atendimento gratuito e sigiloso. A ligação pode ser feita de qualquer lugar do Brasil. No exterior, o contato pode ser feito via WhatsApp pelo número (61) 9610-0180. O atendimento está disponível em português, inglês, espanhol e Libras.
Em situações de emergência, a recomendação é acionar a Polícia Militar pelo número 190.
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