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Casos de pedofilia na Capital reacendem debate sobre proteção infantil

Juíza Katy Braun fala sobre prevenção, punição e falta de tratamento na rede pública

Juíza Katy Braun do Prado, titular da Vara da Infância, Adolescência e do Idoso de Campo Grande / TJMS

Dois casos recentes de pedofilia em Campo Grande chocaram a sociedade sul-mato-grossense e colocaram o tema da violência sexual contra crianças no centro das discussões públicas. A morte de uma menina de seis anos e a prisão de um jornalista acusado de abusar de um menino de 11 anos levantaram questionamentos sobre o papel da Justiça, as medidas de prevenção e a falta de tratamento adequado para pessoas com transtorno pedofílico.

Para compreender melhor o cenário, a juíza Katy Braun do Prado, titular da Vara da Infância, Adolescência e do Idoso de Campo Grande, concedeu entrevista ao TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul), explicando como o Judiciário trata esses casos e quais são os principais obstáculos enfrentados.

Justiça reconhece transtorno, mas responsabiliza criminalmente

“A Vara da Infância e Adolescência reconhece a existência do 'transtorno pedofílico', assim descrito no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que define a pedofilia como uma parafilia em que adultos ou adolescentes com 16 anos de idade ou mais apresentam impulsos sexuais intensos e recorrentes em relação a crianças”, afirma a magistrada.

Segundo ela, “os pedófilos, de modo geral, são imputáveis, ou seja, têm inteira capacidade de entender o caráter ilícito de seus atos e de determinar-se de acordo com esse entendimento, sendo, portanto, responsabilizados legalmente pelos crimes que praticam”.

Katy Braun também esclarece que “ser pedófilo não é crime, mas praticar a pedofilia, violando a dignidade sexual de uma criança, é”. A juíza acrescenta: “Isso significa que existem pedófilos que jamais cometerão um crime, enquanto outros serão punidos por suas condutas ilícitas.”

Diferença entre pedofilia e abuso

Ao abordar a distinção entre o transtorno e o crime, a magistrada destaca: “Nem todo abusador sexual é pedófilo. Os abusadores são classificados em abusadores pedófilos (preferenciais) e abusadores de oportunidade (situacionais). Os situacionais são pessoas sem transtorno psiquiátrico que, em razão das circunstâncias, têm dificuldades de controlar impulsos que, de outra forma, permaneceriam adormecidos.”

Atuação do Judiciário

Katy Braun explica que diferentes frentes da Justiça lidam com casos de violência sexual contra crianças e adolescentes:

“Três áreas da Justiça costumam lidar com pedófilos. Nas varas da infância protetiva, deparamo-nos com pedófilos que são membros da família e colocam crianças e adolescentes em situação de risco nesse convívio. Para essa hipótese, o Estatuto da Criança e do Adolescente autoriza o afastamento do pedófilo do lar, mas, se os familiares não assumirem uma conduta protetiva e permitirem o retorno do pedófilo à convivência familiar, é a criança que acaba sendo afastada por meio de acolhimento.”

“Na vara de atos infracionais, também há casos de adolescentes que abusam sexualmente de crianças menores. Por fim, nas varas criminais, encontramos os pedófilos adultos que violam os direitos das crianças. Nessas varas, além da aplicação de medidas socioeducativas ou de pena de reclusão, é possível impor tratamento a essas pessoas.”

Punição e tratamento

“Se os pedófilos forem apenas punidos, será uma questão de tempo até que reincidam. A abordagem terapêutica é indispensável, pois a psicoterapia e o uso de medicação podem auxiliar no controle dos impulsos pedofílicos.”

Falta de tratamento especializado no SUS

“O grande entrave é que o SUS não disponibiliza tratamento especializado para esse público. No Brasil, há iniciativas isoladas de tratamento de pedófilos, normalmente em hospitais universitários. Os resultados desses tratamentos demonstram redução na reiteração de abusos sexuais e, no momento, são a única ação preventiva de crimes que conheço.”

Legislação concentra esforços apenas na punição

A juíza afirma que não há projetos de lei voltados à criação de políticas públicas para tratamento especializado: “As iniciativas legislativas costumam se concentrar na tipificação de novos crimes, aumento das penas e criação de cadastros de pedófilos para conhecimento da comunidade. Desconheço projetos de lei voltados à criação de uma política pública de atendimento a pedófilos, e isso nos causa grande angústia, pois há pedófilos que desejam tratamento, há famílias dispostas a apoiar esse tratamento, mas não temos para onde encaminhar essas pessoas.”

“Somente aqueles em ótima situação financeira conseguem custear psicoterapia, consultas psiquiátricas e medicação, já que se trata de um tratamento que deve durar a vida toda”, conclui.

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