O ministro da presidência (o equivalente à Casa Civil), Juan Ramón Quintana, disse nesta segunda-feira que o senador Roger Pinto Molina, 53, deixou o paÃs como um "criminoso comum", já que tem ordem de prisão decretada e uma sentença condenatória de um ano por causar prejuÃzos econômicos ao Estado boliviano. De acordo com Quintana, o governo brasileiro terá de explicar as circunstâncias de entrada do boliviano no PaÃs .
No domingo, a chancelaria boliviana declarou o polÃtico fugitivo da Justiça e acionou a Interpol. "A fuga converte o senhor Pinto em fugitivo da Justiça boliviana. Por isso, serão ativadas todas as ações legais correspondentes ao caso no direito internacional e em convênios bilaterais", afirmou o Ministério das Relações Exteriores da BolÃvia.
"Por meio da polÃcia boliviana, o governo acionou a Interpol, não só porque há um pedido de prisão contra ele, mas porque não há registro de saÃda da BolÃvia", acrescentou a nota. Segundo o ministro de Interior boliviano, Carlos Romero, o status de fugitivo da Justiça foi dado porque o senador saiu do paÃs sem passar por um posto de controle migratório.
Molina, que liderou a oposição ao governo de Evo Morales, ficou quase 15 meses abrigado na Embaixada do Brasil em La Paz desde que pediu asilo polÃtico ao Brasil , alegando perseguição polÃtica. O salvo-conduto era negado pelas autoridades bolivianas, que alegavam que o parlamentar responde a processos judiciais no paÃs.
O senador foi trazido ao Brasil pelo encarregado de negócios da embaixada em La Paz , Eduardo Sabóia, que estava no comando da embaixada desde o inÃcio de julho. O diplomata foi chamado no domingo de volta a BrasÃlia pelo Itamaraty, que, aparentemente, não tinha conhecimento da operação.
O Ministério das Relações Exteriores informou que abrirá um inquérito para apurar as circunstâncias da entrada do senador Molina no paÃs. Pinto Molina chegou ao Brasil no sábado pela cidade de Corumbá (MS), onde se encontrou com o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Ricardo Ferraço (PMDB-ES).
O fiscal-geral interino do Ministério Público da BolÃvia, o equivalente ao procurador-geral em exercÃcio da BolÃvia, Roberto RamÃrez, também sinalizou que a instituição pode engrossar a lista de autoridades que querem explicações do governo do Brasil sobre a saÃda do parlamentar de oposição do território boliviano. Ele explicou que representantes do órgão analisam o caso para identificar quais as providências podem ser adotadas.
Mesmo diante das cobranças ao Brasil, o ministro da presidência da BolÃvia reforçou o discurso de outros representantes do governo boliviano, de que a entrada do senador boliviano Roger Pinto Molina no Brasil não afetará a relação bilateral dos paÃses . Anteriormente, a ministra da Comunicação boliviana, Amanda Dávila, disse que as relações entre a BolÃvia e o Brasil serão mantidas em situação de absoluta cordialidade e respeito.
O senador boliviano deverá conceder entrevista no inÃcio da tarde de terça-feira no Senado. A agenda foi divulgada pelo presidente da Comissão de Relações Exteriores. No domingo, Molina conversou com exclusividade com a Agência Brasil e agradeceu o apoio da presidente Dilma Rousseff e da sociedade brasileira.
Jornada até o Brasil
De acordo com Ferraço (PMDB-ES), Pinto viajou em uma comitiva de dois carros da embaixada, com placas consulares, e acompanhado de Sabóia e de dois fuzileiros navais que fazem a segurança da embaixada. Nas missões no exterior, os militares respondem não ao Ministério da Defesa, mas ao chefe da representação consular - no caso, Sabóia.
Ao fim de uma viagem de 22 horas de carro, onde passaram por cinco controles militares, incluindo os da fronteira, o diplomata teria ligado para Ferraço. "Ele me ligou e disse que estava com o senador em Corumbá, mas não tinha como levá-lo até BrasÃlia. Tentei falar com o presidente do Senado (Renan Calheiros) e outras autoridades, sem sucesso. Então, consegui um avião. Fui buscá-lo para levá-lo para BrasÃlia", contou Ferraço.
Pinto Molina está desde a madrugada de sábado na casa do senador brasileiro. Ferraço afirma que Sabóia contou a ele que vinha conversando havia algum tempo com o Itamaraty sobre a situação do senador boliviano.
"Ele me disse que a situação estava se tornando inadministrável. O senador estava com depressão, sua saúde se deteriorava", disse. "Ele se sentia frustrado com a falta de uma solução e disse que, se tivesse uma oportunidade, resolveria. Não sei se o governo acreditou." Conforme o relato de Ferraço, a iniciativa do diplomata foi "ousada e corajosa".
Na quinta-feira, em audiência na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, o chanceler Antonio Patriota - que cancelou no domingo uma viagem para a Finlândia em razão da fuga do boliviano - afirmou que a libertação do senador era "negociada no mais alto nÃvel", mas que o governo brasileiro se recusava a tirá-lo da embaixada sem garantir sua segurança. No inÃcio de junho, o Itamaraty informava nos bastidores que negociava uma "saÃda discreta" para o caso. (*Com Agência Brasil e Agência Estado)