30 de outubro de 2020
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Memórias Pantaneiras

A ponte velha, Roldão de Oliveira

1 OUT 2020 - 09h14min
Da Redação / Paulo Corrêa de Oliveira
Tendo oportunidade de pesquisar os três primeiros livros de ata da Câmara Municipal de Aquidauana, deparamos com as peripécias que sucederam para a construção da Ponte Velha, hoje batizada de Roldão de Oliveira.
 
A primeira referencia a essa iniciativa, encontramos na ata do dia 11 de abril de 1918 que diz que nessa sessão “compareceu o farmacêutico Roldão de Oliveira, Intendente Geral do município que a convite do Sr. Presidente tomou assento e apresentou à mesa a planta que mandou confeccionar duma ponte sobre o rio Aquidauana, afim de servir de base à sua construção, o que foi unanimemente aceito”.
 
A ponte teria sua estrutura feita de madeira (aroeira) sobre pedestais de pedra rejuntada com cimento, com sete metros de largura.
 
O primeiro local, escolhido pelo Conselho Municipal, foi na embocadura da rua D. Aquino, em frente ao Porto Geral da Balsa, na margem esquerda do rio, hoje Anastácio.
 
Em 28 de junho de 1918, Roldão de Oliveira foi autorizado a contrair empréstimo, por meio de subscrição popular, até a quantia de “cento e cinquenta contos de réis” para a construção. Três construtores apresentaram propostas. Quem saiu vencedor foi o construto Manoel Gregório, apesar de sua proposta ser a mais alta. Porém, segundo o vereador Dr. Alfredo Aurélio de Castro, a mais vantajosa ao município.
 
O construtor, Manoel Gregório, apresentava recomendações da Estrada de Ferro Itapura Corumbá, hoje Noroeste, para quem havia realizado algumas obras, demonstrando sua idoneidade profissional de mestre de Obras. O vereador pedia também ao Intendente para “entrar em acordo com o contratante para que em vez de ser feita a ponte no local escolhido fosse pelo mesmo preço feito no centro da praça até apanhar terreno firme fronteiro.”
 
Pela Resolução nº 100, de março de 1919, muda-se o sistema estrutural da ponte de madeira para de ferro. “Fica o Intendente Geral autorizado a entrar em negocio com o governo do Estado de São Paulo para aquisição de uma ponte metálica que o mesmo governo prontificou-se a ceder ao governo municipal desta cidade pela quantia de cem contos de réis dando-a assentada e assoalhada pronta para o trânsito público.”
 
Em 23 de abril de 1919 é pedido o acompanhamento das obras dos pilares por um engenheiro fiscal “antes que mais progridam os trabalhos da construção.” Foi nomeado o engenheiro Manoel Soares de Gouvêa Horta “A Razão”, sobre sua competência. A Câmara solidariza-se com o engenheiro.
 
Em 2 de janeiro de 1920, vê-se na mensagem do Intendente Geral, Roldão de Oliveira, que o recurso público para a obra só conseguiu arrecadar 65.500 contos de réis, insuficientes para a obra. Conseguiu, então, dois empréstimos particulares do Sr. Cel. Estevão Alves Corrêa e Sr. Ignácio Derzi e mais um empréstimo com a Agência do Banco do Brasil com sede em Corumbá. Dá notícia de uma nova providência a ser tomada, devido as enchentes do rio em setembro do ano anterior , 1919: “demonstra a necessidade de serem mais elevados os encontros e o pilar, sob pena de ser a ponte atingida pelas águas, por ocasião das grandes enchentes.”
 
O engenheiro Dr. Ytrio Corrêa faz um estudo para as correções de pontilhões no aterro da margem esquerda para a garantia da estabilidade dos aterros. Nesse local, os terrenos eram baixos e alagadiços.
 
Ainda nesse ano de 1920, no dia 21 de dezembro, fala-se de um ofício, vindo de São Paulo, do Dr. Albano de Souza, contratante da armação da ponte metálica, reclamando um aumento de dez contos no preço estipulado no contrato. Posto que, até aquela data a base ainda não estava pronta para os seus serviços. A Câmara nega o aumento, alegando a demora da construção “devido as constantes enchentes do rio.”
 
O pior aconteceu: as enchentes torceram o pilar cujo desabamento era esperado a qualquer instante. Era necessária sua demolição. Manoel Gregório apresenta um terceiro orçamento: “o pilar do centro do rio será construído novamente”, dá um prazo de quatro meses, após o contrato assinado em 19 de maio de 1921. Entretanto, um ano depois, 25 de maio de 1922, pede rescisão do contrato e desiste da obra.
 
Tanto dinheiro e tempo gastos, e nada da ponte. Em 1924, é revogada a resolução nº 125 de apólices municipais do empréstimo para a construção da ponte e abre uma nova concorrência para o levantamento das alvenarias para a construção. “Os materiais retirados do pilar inutilizado poderá ser aproveitado nas obras a fazer-se.”
 
O Intendente Geral, agora Dr. Oscar Alves de Souza, celebra um contrato com o cidadão Francisco Luciano Seccomani, intitulado engenheiro construtor, para as obras de alvenaria, “reconstruir o muro da ala do encontro à margem esquerda, demolição do pilar tombado, construir um novo pilar”.
 
Como o pilar não era no centro da ponte, um vão com 40 metros e outro com 20 metros, optou-se pela inversão da estrutura. O novo pilar passou a ser construído mais próximo da margem direita, demolindo-se o da margem esquerda.
 
Finalmente, em setembro de 1924 “achando-se concluídas as obras de alvenaria e o pilar central” é mandado a São Paulo um telegrama de oficio ao contratante da montagem da ponte metálica, Dr. Albano de Souza, convocando-o.
 
Nosso dissabor. De São Paulo, não vem resposta nenhuma. A Câmara resolve acioná-lo judicialmente, sujeitando-o ao pagamento de multa contratual e indenização pelas perdas e danos. Recebe do engenheiro, então, a contra fé do protesto, apresentando de maneira bastante ferina: “quase cinco anos após o contrato, lembrou-se a prefeitura de por despacho de V. Ex. vir notificar o suplicante” que as obras de alvenarias já estão prontas e que, portanto, ele (ex-suplicante) as deve considerar  entregue s para o fim de ser contado o prazo de quatro meses para a execução das obras contratadas e o de sessenta dias para a entrega”. E ainda: “que a municipalidade possa a seu bel prazer quase cinco anos depois do contrato, obrigar o suplicante a aceitar só agora essas alvenarias e executar em 1924, obras ajustadas segundo os preços correntes em 1919”. Volta-se contra a prefeitura de Aquidauana: “na qual também se proteste pela rescisão judicial do contrato e suas consequências de direito, ou sejam perdas e danos e multa contratual”.
 
Infelizmente não foi encontrado, nos arquivos da Câmara, a sequencia do quarto livro de atas para conhecermos o resultado dessas ações. O que sabemos é que esse engenheiro não veio realmente montar a estrutura metálica e que o ferreiro, Cassemiro Bruno, termina a novela da ponte com a façanha de sua montagem.
 
Após tantos contratempos, a ponte de ferro tornou-se um dos monumentos mais representativos da cidade. O seu perfil é o próprio símbolo de Aquidauana, merecendo, portanto, um tombamento histórico.
 

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