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O Pantaneiro

Incrustada no extenso batente, sete portas de madeiras, acinzentadas, com duas folhas cada porta, e três degraus compunham a fachada.

Nas extremidades, uma janela alta, era o escritório e, na outra ponta, o largo portão dava acesso ao depósito.

Do lado de dentro, ao fundo, um enorme balcão de madeira na extensão do prédio, com um portãozinho, no canto esquerdo da entrada, na mesma altura do balcão, com um ferrolho, para que os clientes tivessem acesso ao departamento de móveis e utensílios domésticos.

No vão de entrada, no recuo do balcão, três vitrines de madeira, enormes, altas, perfiladas com madeira e vidros abobadados encantavam nossos olhares com canetas tinteiros, baixelas em prata e em inox, aparelhos de jantar, pratinhos de bebê com colherinhas tortas, máquinas de escrever, enceradeiras, rádios, vitrolas, chaleiras esmaltadas, frasqueiras, valises, jogos de malas, faqueiros, cinzeiros, jogos de baralhos, dominós, aparelhos de chá, dentre tantas outras belezuras que namorávamos nessas vitrines.

Atrás do balcão, uma prateleira gigante abrigava materiais escolares, mantimentos, colônias, talcos, ferramentas, apetrechos de toda ordem e, ali, o emblemático e inesquecível balconista Waldery, com seus pares, atendiam a todos com extremada cordialidade e profissionalismo.

Todas as pessoas, todas, de “mamando a caducando”, adoravam chamar o Waldery para atende-las, ele vinha sorrindo, com seu topete de brilhantina, seu olhar terno e seu sorriso manso. Eram doces e cordiais todos os funcionários.

Seo Chico passava o dia no vai e vem danado, entre o balcão, o depósito e demais dependências da Casa, sorrindo e brincando com todos, indistintamente, com um lápis atrás d’orelha.

Julieta e Seo Mário ficavam no escritório, saindo algumas vezes para cumprimentar a todos, igualmente cordiais, educadíssimos e afáveis.

Uma porta larga dava acesso a um grandioso salão com móveis: baús, penteadeiras, cadeiras de balanço, carrinhos de bebê, berços, guarda-roupas, camas, poltronas, sofás, bicicletas, carriolas, carrinhos de mão, roupas de cama, mesa e banho, tudo o que pudéssemos imaginar e sonhar, estavam ali. Podíamos correr, brincar nesse salão, balançar gratuitamente numa cadeira, pular num colchão de molas, rapidamente, antes que a mãe ou o Seo Chico nos passassem um bom pito.

Dona Dalila, doce, meiga, cuidadosa, passava pelo portão lateral do acesso à sua casa, como um relâmpago, com seus vestidinhos chemisier para o preparo diário de deliciosos quitutes, o mesmo fazia Dona Madalena, mas com seus passos lentos e largo sorriso, felicitando todas as pessoas.

Tudo anotado em cadernetas, fiado, pago à vista ou a prazo.

Todas as pessoas da cidade, passaram por esse local, na rua Nelson Felício dos Santos, de paralelepípedos, a pé, a cavalo, de carroça, charrete, carro, bicicleta.

Entraram, namoraram cada item, ainda que comprassem só um Mirabel, uma tubaína, umas pilhas, ou “apressassem” o preço de um item mais caro.

Na volta do Feminino, muitas vezes, enganchávamos nas escadarias da Casa Bom Gosto para mais um amasso, um namoro escondido, com medo de sermos vigiados.

Construída na década de 1940, a Casa Bom Gosto atendeu várias gerações, nossos bisavós, nossos avós, nossos pais, fazendeiros locais, gente simples, cidadãos comuns, gente abastada, uma região inteira.

Tive o privilégio de passar adoráveis momentos dentro da Casa Bom Gosto, observando a dinâmica comercial, escutando prosas, mexendo, futricando, bisbilhotando, enchendo o saco, pedindo coisas…

Lembro-me das bobinas de papel de embalagens, afixadas nos suportes de ferro e madeira. As compras eram embaladas e amarradas com barbantes ou com fitas adesivas (durex) acopladas nos porta durex, de ferro.

As compras grandes eram entregues pelo carroceiro, numa linda carrocinha de madeira, pintada, com o nome: Casa Bom Gosto. A gente ficava no portão, aguardando chegar as compras, era lindo ver o carroceiro “manobrar” a carrocinha, para entrar de ré no nosso portão e descer as compras. Foi assim que vi chegar a cômoda/camiseiro que a mãe comprou em 1971, para abrigar o enxovalzinho do Bié, meu irmãozinho que ia chegar, fiquei com medo de despencar o móvel, porque eu estava doidinha pra ajudar arrumas as gavetas com aquelas roupinhas bordadas pela avó, tinha até uma capinha pro batizado, todinha bordada com o contorno em festonê. Eu fiquei torcendo pelo cavalinho, pra ele conseguir entrar certinho, até o fundo de casa, devagarinho…

Tive ainda o privilégio de ser a grande amiga da Marcia Rita Trindade Leite, a neta do Seo Chico e Dona Dalila, grandes amigos, pessoas lindas, acolhedoras, ficávamos ali, na varanda da casa, ao lado da loja, sapeando quem entrava e quem saia.

Eu escreveria um livro, com gosto. Viva nossas doces lembranças, viva a Casa Bom Gosto. Saudades!

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