27 de setembro de 2021
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Transplante de rim passa a ser opção para soropositivos

30 JAN 2009 - 10h55min
Folha Online

Pacientes soropositivos que estão em hemodiálise por causa de falência renal já podem entrar para a lista de candidatos a receber um transplante de rim. Tradicionalmente essas pessoas eram excluídas da fila de transplantes porque se acreditava que a sobrevida após a cirurgia seria muito baixa --o que não justificaria o risco.

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Até então, os especialistas não sabiam como o organismo do paciente reagiria à interação entre os antirretrovirais e os imunossupressores (usados na recuperação após o transplante).


Essa realidade começou a mudar no Brasil nos últimos dois anos, especialmente por causa da evolução dos medicamentos usados no tratamento da Aids --que aumentaram significativamente a sobrevida desses pacientes.


Nesse período, o país realizou ao menos sete transplantes de rim em pessoas com HIV --seis tiveram resultados satisfatórios e uma rejeitou o enxerto. O primeiro transplante do tipo no mundo foi realizado em 2000.


Dos sete transplantes realizados, quatro foram feitos no Hospital do Rim e Hipertensão da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Segundo o nefrologista José Medina Pestana, diretor do hospital e chefe da central de transplantes do Hospital São Paulo, a partir do momento em que a Aids passou a ser uma doença controlável, não existe mais razão para não indicar esses pacientes para o transplante. "Antes não sabíamos como esses pacientes iriam evoluir, mas hoje sabemos que as chances são boas."


Sobrevida similar


Para avaliar se, de fato, o transplante seria uma boa opção para pacientes soropositivos, pesquisadores da Escola de Medicina da Johns Hopkins University (EUA) compararam, um ano após a cirurgia, os resultados de transplantes feitos em 36.492 pacientes com os de cem pessoas com HIV. Os dados foram retirados do registro americano de transplante.


Eles constataram que a sobrevida é similar nos dois grupos, o que aumenta a esperança de quem está com os rins paralisados: pacientes sem HIV tiveram uma taxa de sobrevivência de 94,6%, contra 87,9% nas pessoas com o vírus. Os resultados foram publicados na revista "Archives of Surgery".


Acompanhamento


O pesquisador Jayme Locke, autor do estudo, disse à Folha que os resultados mostram que é possível fazer o transplante nesses pacientes, desde que o acompanhamento seja adequado. "Nossos resultados demonstram que, se você identifica os fatores de risco, seleciona um bom doador e acompanha a interação dos medicamentos, as chances de dar certo são enormes."


Locke ressaltou, porém, que nem todos os pacientes com Aids e problemas renais têm indicação para o transplante. "O fato de ser soropositivo sozinho não é fator determinante para ser um candidato a um transplante. Antes é preciso passar por uma extensa análise com avaliação médica e psicológica", afirmou.


Para o nefrologista Emmanuel de Almeida Burdmann, presidente da SBN (Sociedade Brasileira de Nefrologia) e professor da Famerp (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto), o grande avanço é que o fato de um paciente ser HIV positivo não é mais uma contraindicação absoluta para o transplante. "A Aids deixou de ser considerada uma doença grave e passou a ser vista como uma doença crônica", afirmou.


A nefrologista Irene Noronha, professora e responsável pelo Laboratório de Nefrologia Celular e Molecular da Faculdade de Medicina da USP, publicou recentemente um relato de caso de um paciente soropositivo, de 61 anos, que passou por um transplante de rim.


"Tivemos alguns problemas no começo por causa da interação entre os medicamentos antirretrovirais e os imunossupressores, mas conseguimos superar e hoje o paciente está muito bem", diz Noronha.


Os critérios para que o paciente soropositivo seja incluído em uma fila de espera de transplante, entretanto, não são tão simples. "Os requisitos mínimos para ter indicação é estar com a carga viral negativa [sem vírus circulante] há mais de um ano e ter a contagem de CD4 [linfócitos responsáveis pela defesa do organismo] maior que 200", explica Noronha, acrescentando que o paciente também não pode ter outra infecção ativa e tem que estar bem de saúde.


Para Noronha, os resultados americanos comprovam que o transplante de rim é uma alternativa possível de tratamento. "Temos que abrir outras portas em busca de novas possibilidades. Esses pacientes estão vivos e têm o direito de ter uma qualidade de vida melhor", diz.

 

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