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Turismo

Roteiro francês mostra paisagens que inspiraram artistas

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A história que corre entre os moradores de Les Baux de Provence, no ensolarado sudeste da França, é que o vale ao redor inspirou Dante a criar o "Inferno" de "A Divina Comédia". Quem sobe às ruínas do castelo no vilarejo tem uma ideia de por que eles dizem isso. O vento lá é tão forte que mal dá para ficar em pé sem se segurar no que restou da fortaleza. É mesmo infernal.


Lá de cima, dá para ver um naco verde de Provence, uma imensidão de campos de videiras e oliveiras. A vista também faz entender por qual motivo a região perto da fronteira da Itália atraiu tantos artistas na história. Separar arte e natureza ali parece impossível.


O sudeste francês é hoje mais conhecido pela badalação de Nice e pelo festival de cinema em Cannes. Mas há cenários tranquilos que parecem ter parado no tempo. É o caso de Les Baux, a vila encarapitada na montanha, e de Aix-en-Provence, a cidade natal do pintor Paul Cézanne. Turistas menos propensos à agitação também costumam passar em Antibes e Mougins, na Riviera Francesa.


No verão europeu, no meio do ano, os termômetros nesses locais chegam aos 40ºC enquanto o sol não se põe, o que não ocorre antes das 22h. Os dias ficam mais curtos no fim do ano, mas o clima se mantém ameno -o que, em outros tempos, atraiu autores como F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, em fuga do rigoroso inverno parisiense.


O centro histórico de Les Baux tem só 20 moradores, além de lojas de artigos provençais. Do castelo, não sobrou quase nada. Com sorte, dá para comparar suas ruínas com as placas ilustrativas que reconstituem a construção e tentar imaginar como ela era. Outra opção é deixar o passado para lá e curtir o panorama.


Ao pé da montanha, fica a catedral de Imagens, escavada na rocha, com paredes monumentais. O lugar recebe mostras virtuais, com projeções de luzes nos paredões -a atual, em cartaz até janeiro, é sobre Pablo Picasso. Não estranhe se, depois de meia hora lá dentro, achar que se passaram só cinco minutos. O tempo voa em meio às projeções, enquanto as caixas de som tocam de Beethoven a Gotan Project.


Picasso viveu seus últimos 15 anos entre Provence e a Riviera, e está tão presente que é possível seguir seus passos. Em Antibes, há o Museu Picasso, onde ele ficou nos anos 1940. A vizinha Vallauris tem uma "minicapela Sistina", para a qual fez o painel "A Guerra e a Paz". E os anos que viveu em Mougins são lembrados em um museu de fotos.


Uma anedota ilustra sua ligação com Provence. Admirador de Cézanne, ele disse a seu marchand, certa vez: "Comprei a Saint-Victoire". Sabendo que a referida montanha provençal inspirara várias obras do francês, o outro perguntou: "Qual delas?". E ouviu: "A original". O espanhol havia arrematado o castelo de Vauvenargues, cujo terreno inclui parte da montanha.


O castelo, onde estão os restos mortais de Picasso, foi aberto ao público pela primeira vez neste ano. As entradas, colocadas à venda em abril para visitas até setembro, esgotaram-se em horas. E não se fala mais em novas visitações.


Peixe grelhado e vinho rosé


A montanha de Saint-Victoire é a marca registrada de Aix-en-Provence. Chamada de "cidade das mil fontes", ela impressiona pela cor ocre de seus edifícios, nuance que Cézanne reproduziu em quadros. A tonalidade era natural de pedras locais, mas, após a pedreira se esgotar, reparos passaram a ser feitos com tinta. Os prédios ficaram parecendo construções remendadas.


Pelo chão, o turista encontra plaquinhas que traçam um roteiro da vida do pintor. Não se fie nelas para chegar ao endereço mais interessante. Fora do centro, em área arborizada distante da sinalização, é que fica o ateliê de Cézanne. Na ampla sala, daria até para tocar os pertences do pintor -mas, claro, recomenda-se não fazer isso.


Bem menor que Aix é Mougins, vila em forma de caracol a 15 minutos de Cannes. Um passeio a pé por suas ruelas não dura nem um par de horas, mas há uma razão extra para ficar lá. Só o centrinho tem cerca de 20 restaurantes, quatro deles estrelados no prestigioso guia "Michelin".


O mais famoso fica à beira da estrada. É o Moulin de Mougins, que, por duplo azar, perdeu neste ano as três estrelas que ostentou por 30 anos. Na França, um chef leva as estrelas ao deixar um restaurante, e o do Moulin saiu em janeiro. Seu substituto era estrelado no Japão, mas chegou à casa sem estrelas. Fora da França, elas ficam com o restaurante.


Estilo bem diferente tem Antibes, no caminho para Nice. A cidade, à beira-mar, é um local para comer um peixinho grelhado e tomar vinho rosé. Com gelo, se estiver calor.


Cercada por uma muralha no passado, ela hoje se estende para além dos paredões, mas as ruas mais bonitas são as antigas. Após conhecê-las, vale fazer um roteiro na orla, que mostra como Claude Monet, Eugène Boudin e outros as retrataram.


Lá também existem obras de Picasso que, em hipótese alguma, podem ser levadas a outros lugares. Ficam no Museu Picasso, castelo onde o artista se hospedou, em 1946. Quando lhe pediram um desenho, ele criou, nas paredes, painéis como "Ulysses e as Sereias". De fato, não dá para separar a arte da história no sudeste da França.


ONDE FICA
No sudeste da França, entre os Alpes e a costa do Mediterrâneo. Aix e Les Baux ficam em Provence, perto de Marselha. Antibes e Mougin fazem parte da Côte d'Azur, mais conhecida como Riviera Francesa


PARA QUEM
O roteiro de cidades medievais é ideal para quem quer curtir o sol na Europa, mas sem a agitação das badaladas Nice e Cannes


QUANDO IR
A alta temporada é no verão europeu, quando o sol se põe depois das 22h, até setembro. Durante o inverno, a temperatura cai bastante, mas as cidades ainda atraem turistas que querem evitar o rigoroso frio do Norte


DICA
Antes de chegar a Antibes, pare em Vallauris para ver a monumental "A Guerra e a Paz", de Pablo Picasso, pintada em dois painéis de madeira encaixados na abóbada de um pequeno templo, no Museu Nacional.

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