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Dia das Mulheres

Jandira Mendes Trindade, uma mulher de várias histórias

A aquidauanense foi imortalizada com uma cadeira pela Academia Feminina de Letras e Artes de Mato Grosso do Sul

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Crédito do vídeo: Ronald Regis e Helio Tinoco

Toda pessoa tem uma história para contar, mas algumas além de viver a sua memória, conseguem mais. Essas pessoas, além de viverem verdadeiramente suas páginas de vida, criam e escrevem momentos alheios, que mesmo sendo fábulas, às vezes parecem tão verdadeiras, que mexem com o imaginário de quem lê. 


A essas pessoas, capazes de construir enredos em páginas registradas por várias frases e parágrafos que; organizados com coesão e coerência, se transformam em textos em livros. A essas pessoas dá-se o nome de escritor ou de escritora. 
A cidade de Aquidauana, tem o luxo de habitar uma dessas pessoas, que além de possuir uma história de vida muito importante para a região, ainda escreve histórias, contos, crônicas, inspirada em outras vidas. A escritora Jandira Mendes Trindade, que por seu talento na arte de escrever, teve seu reconhecimento ao se imortalizar por meio de um assento na Academia Feminina de Letras e Artes de Mato Grosso do Sul.

Jandira foi imortalizada com uma cadeira pela Academia Feminina de Letras e Artes de Mato Grosso do Sul - Foto: Arquivo

 
Com uma narrativa real que teve início exatamente no dia 02/03/1933, Jandira é a mulher homenageada pelo O Pantaneiro, nesse dia 8 de março, internacional da mulher. Mas as homenagens a essa cronista merecem mais que apenas um dia.  

   
Essa escritora se chama Jandira Mendes Trindade ou Dona Jandira, mas para muitos que desfrutam da sua presença, essa mulher de 91 anos, é carinhosamente chamada de Tia Jandira, que de toda experiência de vida sabe a importância do papel da mulher e de sua história ao longo de quase um século de vida.

 
“Naquele tempo era muito difícil uma mulher ter mais cultura. Eu me lembro que a mulher para sair de casa para trabalhar, o que podia era ser professora. Sem isso ela não podia sair. Eu lembro quando a gente começou aqui, que raras trabalhavam fora, raras mesmo. Eu acho que o que era mais difícil era a cultura. As mulheres não tinham tanta cultura, não iam tanto à escola, não frequentavam, não liam. Agora, nós ocupamos o nosso lugar. Fomos devagarinho e estamos ocupando o nosso lugar. Eu fico feliz em ver uma mocinha ser doutora em engenharia, doutora em advocacia. Coisas que nunca aconteciam. Era raríssima uma mulher ser doutora. É uma maravilha que a mulher aos poucos foi tomando seu lugar. É muito bom”, observa Jandira.  

   
Nessa edição, ela será o centro e a personagem de uma história real. Jandira nasceu filha de Armando Figueiró Trindade e Hercília Mendes Trindade, antes do meados do século passado - está com 91 anos - teve duas irmãs, Aglay Trindade Nantes, Dóris Mendes Trindade e um irmão, Armando Mendes Trindade. 

Jandira Mendes Trindade - Foto: Arquivo

Filha do dono da casa comercial mais importante da região de Aquidauana (não havia o município de Anastácio), as margens do Rio que dá nome ao município, estudou até o antigo científico - hoje segundo grau - onde cursou o Normal e formou-se professora. 
Após essa titulação, conta Jandira, que ela passou a se dedicar a administrar o comércio da família, a casa Cândia, e assim seguiu por muito anos como ainda hoje acompanha o dia a dia desse estabelecimento situado na Travessa Ragalzi, 978, em Anastácio, onde está erguido desde o dia 01/02/1908 em plena atividade. Apesar de ter viajado muito e conhecido outras cidades, inclusive na Europa. Aquidauana é seu lugar, é onde a escritora tem suas raízes e de onde tem o “ar puro” para sua inspiração em escrever. 


“Conheci outros lugares, mas sempre esse luar (Aquidauana) para mim é primordial e onde sou feliz. A vida às vezes leva a gente para lugares que a gente não quer, mas pensando bem, eu acho que o lugar da gente é aqui. Eu nasci bem pertinho daqui, (da casa Cândia) meu pai e minha mãe, eram empregados aqui na casa Cândia e eu nasci aqui pertinho. É minha casa, é meu lar, é o lugar que eu sempre vivi e quero ficar”, reflete a escritora.

Jandira concedeu uma entrevista ao Jornal O Pantaneiro - Foto: Ronald Regis

  Jandira foi crescendo e paralelo à administração do comércio, que passou a pertencer aos seus pais, sentia que podia mais e esse sentimento era o de escrever. Tinha algo que ela queria desenvolver, descobrir e apresentar aos outros. Começou, então, a redigir crônicas e nunca mais parou de escrever, caneta e papel são seus aliados até presentemente. Seu texto mais recente será apresentado durante a homenagem ao dia Internacional da Mulher, pela Academia de Artes e Letras do MS.  


“Sempre temos uma coisa a aprender. Por mais difícil que seja, a gente tem que aprender e ir sabendo devagar. O mundo mudou. O mundo era tão difícil. Só de pensar que para se comunicar antes do telefone, como que era? Era grito? Agora é muito mais fácil você poder falar com outras pessoas. É só pegar o telefone se não estiver fora da internet (risos). E vamos tocando a vida assim. Ir aprendendo devagar, que a gente chega lá. Chega sim! Enfrentando sempre a gente chega lá”, aconselha Tia Jandira. 
Sobre aprender pacientemente dona Jandira conta que teve um tempo em que ela tinha resistência ao celular ainda no advento do aparelho, a escritora revelou que dizia que jamais teria um. Certo dia, percebeu que iria necessitar de um aparelho e hoje ela passa o dia acompanhando o movimento na casa Cândia com seu celular do lado. Ela mesma atende e responde às conversas com total domínio, revelando que; aprender requer paciência e tempo. Mas para escrever seus textos e contos, a escritora não abandonou sua fiel caneta e a folha de papel ofício.  


Entre suas obras de Jandira Mendes Trindade está uma coletânea de crônicas e a mais recente intitulada; “Casa Cândia” Tesouros do Passado, Inspiração para o Futuro – um relato envolvente da loja que marcou o início do comércio em Aquidauana. 
Com a empolgação de um criador de histórias e a memória de um ávido leitor, Jandira Mendes Trindade, Tia Jandira, conversa citando fatos, com uma fluidez que leva a pessoa que está a lhe ouvir, a viajar entre os fatos desse centenário de casa Cândia e quase também o da escritora. Sua memória revisita cada fato, cada momento e se fechar os olhos e imaginar, é como se estivesse a ouvir grande calendário a falar. 

Casa Cândia completa 116 anos em 2024 - Foto: Ronald Regis


Jandira não conta apenas fatos de seu comércio e sua família. Há passagens históricas da construção da cidade e de sua sociedade como, o colégio de freiras, as festas dos jovens nas ruas de Aquidauana, o cinema, a faculdade que precisava ser cursada na então capital Cuiabá, uma vez que o estado ainda não era dividido. 


Topa sabedoria é demonstrada numa conversa leva com informações precisas e de uma propriedade de quem viveu todo essa passagem e a transformação do mundo. Tia Jandira carrega ainda uma grande disposição para se somar às mulheres e encorajá-las na atualidade.  


“Gente, vamos juntas, vamos trabalhar juntas. Vamos continuar a vida para que a vida seja mais feliz, mais fácil. Aprendendo sempre. Sempre tem alguma coisa a aprender e ensinar aos que não sabem o que foi a vida. A vida sempre tem alguma coisa a nos dizer. Cada uma sabe o lugar que quer chegar e todas elas vão conseguir o lugar que elas querem. Coragem Meninas, vamos em frente, vamos em frente que chegamos lá.  Levanta, sacode a poeira e vamos para cima”, encerra Jandira Mendes Trindade encorajando as mulheres que ainda temem os desafios da vida. 

Em Novembro de 2023, Jandira lançou um livro que conta a história da Casa Cândia - Foto: Ronald Regis


Todos os dias, sentada a uma mesa dentro da casa Cândia, tia Jandira recebe clientes familiares de antigos fregueses de seu pai e sua mãe, ali no comércio. Todos chegam e contam passagens que viveram, história de vida, que ela bem conhece por vivência e que estão registradas no seu mais recente livro. 


Tia Jandira nos conta que certo dia um homem entrou na casa Cândia, se aproximou e começou a conversar sobre essas histórias, lembrando dos tempos em que ele ainda era criança e carinhosamente lhe disse: “Tia Jandira eu ainda sinto no bolso o peso das balas que a senhora me dava quando menino”. Como se poder perceber, todo mundo tem uma história a contar, até mesmo os escritores donos de tantas histórias também são célebres personagens de suas páginas de vida.

Veja o vídeo:

 

 

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