Os desafios começaram cedo na vida da jovem aquidauanense Aline Saraiva, 22 anos. Na época em que estudava no Instituto Educacional Falcão, precisava levantar cedo, por volta das 05 horas da manhã, já que morava em uma fazenda a 32 quilômetros da Princesa do Sul. Enquanto muitos amigos ainda dormiam, ela já estava na estrada, enfrentando uma rotina comum - embora bem menos extensa - aos acadêmicos de Aquidauana e Anastácio que estudam em outras cidades.
E aquela luta cansativa, que se cumpria de segunda a sexta-feira, acabou sendo recompensada logo no primeiro vestibular prestado pela jovem, que foi aprovada no curso de jornalismo da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Por sinal, comunicação social não era a sua primeira opção, mas o fato de conseguir uma das concorridas vagas da universidade a levou a seguir em frente.
Hoje, formada, Aline enfrenta um novo desafio em sua vida. Há quase dois meses, por uma oportunidade profissional não necessariamente ligada ao jornalismo, a aquidauanense mora em Bagdá, capital do Iraque. Além de viver longe da família e do namorado, acompanha a rotina de uma cidade conhecida pelas notícias de violência e atentados. Junho foi um dos meses com mais violência no Iraque desde que as tropas dos Estados Unidos deixaram o país no fim do ano passado, com ao menos 237 mortos e 603 feridos, a maioria em ataques a bombas, segundo levantamento da Reuters.
É pouco tempo morando na capital iraquiana, mas o suficiente para a jornalista confirmar que Bagdá vive, de fato, um período de reconstrução, com muitos destroços espalhados pelas ruas. Mas vieram algumas surpresas, também. Como a constatação de que muitos iraquianos, assim como os brasileiros, adoram tomar uma cervejinha para relaxar. Também gostam de futebol e acompanham a seleção local, treinada pelo brasileiro Zico. Mas a maior semelhança com o Brasil, segundo Aline, é o problema da desigualdade social.
Nesta entrevista exclusiva, a jovem conta tudo sobre como é sua rotina em Bagdá, fala sobre outras curiosidades relacionadas à capital do Iraque e explica como faz para superar a saudade da família.
O Pantaneiro - Qual o motivo que a levou a ir para o Iraque?
Aline Saraiva ? A vida de jornalista não anda fácil (risos). Então, surgiu essa oportunidade de trabalhar na empresa Harlow, com boas condições de emprego, bom salário, além de poder conhecer uma cultura diferente. Resolvi encarar e ver o resultado. Algumas pessoas me perguntaram se abandonei tudo. Mas abandonei o que? Não tinha carro, morava de aluguel. O único lado ruim é ficar longe da minha família e do meu namorido.
Onde você mora, e com quem?
Eu moro no alojamento da empresa. Eles oferecem comida, lavanderia, o salário é em dólar, livre de impostos e de qualquer gasto. Bagdá tem o que eles chamam de Zona Verde Internacional, onde ficam os prédios do governo, e os "check points", que são soldados que fazem uma revista minuciosa no carro e nas pessoas que entram na cidade.
Foi um processo difícil para entrar na cidade, então...
Mas isso faz com que a área seja considerada 99% segura. Aqui, só entramos com documentação e com algum iraquiano junto, já que os soldados não falam inglês e é preciso ter um cartão especial, que só os iraquianos possuem. Por exemplo, se quero ir a uma loja, tenho que sair da zona verde, ir com um motorista iraquiano e ter um segurança, porque fora da zona verde não é protegido. Se acontecer alguma coisa comigo, é um grande problema para a empresa. Sempre tenho que levar meu passaporte e meu cartão da empresa, e eles sempre checam tudo, abrem o porta-malas, olham com espelhos embaixo dos carros, cães farejadores procuram drogas e armas. O sistema é bem rigoroso.
Como é viver em um país com constantes notícias de atentados e conflitos?
Procuro não pensar muito nisso, porque senão você acaba vivendo de medo e entra em paranoia. Na maioria das vezes, eu não fico sabendo que estourou uma bomba ou coisas assim, evito até pensar nisso. Também penso que, se for para acontecer algo, vai acontecer, eu sabendo ou não. Ate esses dias, o chefe da segurança me encaminhou um relatório que ele recebe, que mostra os atentados, e disse que sou durona, difícil de deixar com medo. Mas o que posso fazer? Acredito que se ficar com medo é pior.
E a chamada zona vermelha?
Eles não gostam muito quando vou até a zona vermelha (fora da zona verde), porque chamo muito a atenção. As pessoas falam que tenho cara de árabe, mas, mesmo assim, quando entro na multidão, acho que eles percebem que não sou daqui, então fica mais perigoso, caso alguém queira planejar algum sequestro ou coisa do tipo. Mas o bom é que nunca vou sozinha.
Então, conheceu o lugar de perto?
Já fui varias vezes na zona vermelha, e não achei perigoso, é até gostoso, porque lá você consegue sentir os iraquianos de verdade. Mas não é sempre que podemos ir, porque o pessoal da segurança é bem rígido quanto a isso. Todos os dias têm atentados na região, o que às vezes nos deixa presos dentro da empresa.
Existem funcionários de várias nacionalidades trabalhando na empresa?
Índia, Nepal, Bangladesh, Reino Unido, Filipinas, Coreia. Pessoas de quase todos os lugares do mundo, menos das Américas. Sou filha única (risos). Então, é uma mistura de gente, costumes, idiomas. Mas tenho um carinho especial pelos indianos, eles são muito receptivos, alegres, carismáticos. Bem diferentes dos iraquianos, que são pessoas mais frias, fechadas. Acredito que, por causa da guerra, eles se tornaram muito desconfiados.
Você disse que é a única brasileira. Como está sendo o seu processo de adaptação ao país? Quem ajuda?
(Risos) Quem me ajuda é Deus! A primeira coisa estranha é o fuso horário, pois são sete horas a mais que no Mato Grosso do Sul. Nos primeiros dias, eu sentia muita dor de cabeça e muito sono. Algo que até hoje não me acostumei foi a comida, não que eu seja enjoada para isso, mas o tempero deles é diferente. Bagdá tem arroz, feijão, mas é um feijão diferente, branco, que eles fazem com um molho de tomate. Até hoje não experimentei. Com relação à ajuda, você vai conversando com um e com outro, está todo mundo na mesma situação, sozinho, longe de casa, um ajuda o outro.
De modo geral, as notícias que vêm de Bagdá são relacionadas à violência. Tem como citar os aspectos positivos?
Olha, isso acontece porque Bagdá é uma cidade que realmente foi muito destruída, é possível ver destroços por todos os lados, pichações, casas abandonadas, construções. Até a empresa onde trabalho está iniciando um projeto, junto com o governo, de reconstrução da cidade. A Harlow, a Hanwha (empresa coreana sócia) e o governo do Iraque começam, no mês que vem, o projeto Bismayah New City, que deve durar de sete a dez anos e vai transformar a cidade. De ponto positivo, posso citar as compras, as mercadorias são bem baratas, como as roupas e os aparelhos eletrônicos, por exemplo. Você consegue comprar um notebook Dell, de boa qualidade, com 450 dólares, roupas também de boa qualidade. Se tiver o dinar iraquiano é melhor ainda, pois sai mais barato. Outro aspecto positivo é a decoração dos lugares, das casas, tudo muito bonito, colorido, realmente um encanto para os olhos.
Como é a rotina das pessoas em Bagdá?
O trabalho é de seis dias por semana, e o final de semana é na sexta-feira, porque é o dia que eles vão a mesquita. Nunca fui a uma, mas consigo ouvir a "reza" deles nas sextas. Aqui, não tem esse negocio do chefe ficar controlando seus horários, cada um sabe do seu serviço e o faz. Como lazer, eles vão para as praças, sorveterias, restaurantes. E as pessoas, inclusive, ingerem bebida alcoólica. Nem todos, mas a maioria gosta. Bagdá não tem Skol ou Brahma, mas existem as cervejas Heineken e Corona, além do velho conhecido Johnny Walker.
Qual foi sua experiência mais marcante na cidade?
O que mais marcou foi a primeira vez em que saí de carro, ver os soldados passando com armas apontadas para todos os lados. Não é um, ou dois, são dez soldados. E ao menos cinco carros juntos. Eles andam, de um lado pro outro, em caminhonetes a mil por hora, com armas enormes. Na primeira vez que vi, fiquei bem assustada, agora já me acostumei. Outra experiência marcante foi sentir muito calor, olhar o termômetro e vê-lo marcar 48 graus, com sensação térmica de 55 graus.
E as vestimentas tradicionais?
Não preciso usar a burca ou tampar todo o meu corpo. Quem usa a burca ou cobre os cabelos são as mulheres que seguem à risca o islamismo. Algumas iraquianas mais jovens não cobrem os cabelos. O que não posso é usar shorts ou blusas decotadas, tenho sempre que usar calça comprida e blusas que tampam meus ombros e meu colo. Mas nada tão rigoroso assim.
Diante de tudo o que você falou, é possível encontrar algo que lembre o Brasil?
A grande diferença social. A guerra devastou o Iraque, muitas pessoas perambulam pelas ruas, maltrapilhas, crianças pedem dinheiro nos semáforos, enquanto os ricos e poderosos estão dentro de suas casas luxuosas, no ar-condicionado, esbanjando e comprando ouro.
E qual a reação das pessoas quando você fala que é brasileira? Inclusive, o Zico treina a seleção de futebol do Iraque.
A primeira pergunta que me fazem é o que estou fazendo aqui (risos). A segunda e a terceira, e não necessariamente nessa ordem, é falar de Pelé e Ronaldo. Ou, então, Rio de Janeiro. As pessoas ficam espantadas quando falam que não sou do Rio de Janeiro. Para eles, o Brasil se resume a Rio, São Paulo e futebol. Já chegaram a me perguntar, varias vezes, se o Messi era brasileiro, e eu digo que não, que ele é argentino. Eles não sabem muita coisa do Brasil, a realidade de Bagdá, e do Iraque de modo geral, é outra. A mídia noticia mais sobre a Europa e o Oriente Médio. Sobre o Zico, por exemplo, são poucos que comentam, acho que nem todos sabem que ele é brasileiro. Mas vale destacar que, sempre quando mostro alguma foto ou vídeo, as pessoas logo se interessam em conhecer o Brasil.
Com relação ao dialeto árabe, já conseguiu aprender alguma coisa? Ou é muito complicado?
O árabe é uma língua bem difícil de aprender, principalmente porque não é por letras e, sim, por sons, e pelo fato de ser escrito da direita para a esquerda. Mas coisas simples, como bom dia, boa tarde e obrigado, você acaba aprendendo, mesmo sem querer. É sempre bom tentar aprender, principalmente porque eles caem na risada quando tento imitar. Mas nós conversamos mais em inglês.
A saudade da família é inevitável. Como vocês mantêm contato?
Não tem jeito, a saudade vem. Meus pais moram na fazenda, e lá não tem internet. Eu consegui encontrar um programa de computador que faz ligações para telefones, bem baratinho. No programa, eu pago 18 centavos de dólar por minuto, enquanto que de celular para celular, com dez reais de crédito, você não consegue falar dois minutos. Com meu namorido eu falo todos os dias, já que ele trabalha e levanta todos os dias às 05 da manhã, para poder bater com meu horário de almoço.
A ligação com a família é tanta que você, inclusive, tem uma tatuagem da sua irmã.
Sim, e ela está aceitando essa situação melhor do que os outros. Minha mãe me contou que, um dia depois que me deixou no aeroporto, não conseguia levantar da cama, meu pai também chorou. Falei com eles duas vezes, por Skype, desde que cheguei a Bagdá. Minha irmã, pelo contrário, está aguentando firme, conversa bastante. Expliquei para ela que teria que ficar longe, e iria voltar. Quando me perguntava por que iria para Bagdá, eu respondia que era pra conseguir bastante dinheiro e comprar presentes para ela. Apesar de ser uma situação difícil, minha família apoiou, pois sabe que este sacrifício é válido.
Previsão de voltar ao Brasil?
A cada seis meses trabalhados, tenho vinte dias de férias, pagas pela empresa, para qualquer lugar do mundo. Claro que vou pra casa, pelo menos nas primeiras oportunidades (risos). Pedi minhas férias para dezembro, porque poderei passar as festas de final de ano com a minha família.
Para terminar, o que você tira da experiência de morar no Iraque?
Posso dizer que a cada dia aprendo coisas novas. O povo daqui é muito ligado ao dinheiro, a bens materiais, para eles pessoa boa é pessoa rica, marido bom é marido rico, e fazem tudo por dinheiro. Sinto saudade de coisas pequenas, como cozinhar, dos pertences que precisei vender, de conversar em português, dos abraços. Deixei muitas pessoas no Brasil, mas isso não significa que não as amo, pelo contrário, a saudade me faz amá-las cada vez mais. Estou aprendendo aqui como ser uma pessoa melhor, além de construir um futuro melhor para mim.