Educação
Concurso reuniu quase 900 trabalhos de escolas públicas e particulares
Em Aquidauana, o distrito de Piraputanga, acaba de ganhar novos guardiões da palavra e da arte. Três estudantes da Escola Municipal Antônio Santos Ribeiro transformaram em versos, narrativas e imagens a identidade de sua comunidade e foram premiados no 6º Concurso Artístico e Literário, que reuniu quase 900 trabalhos de escolas públicas e particulares.
Do 4º ano, Samuel Fonseca Lima da Silva mostrou sua sensibilidade em poesia e conquistou o 2º lugar, sob a orientação da professora Gislaine.
Já Hillary Souza Marotzki, do 6º ano, usou a lente para captar instantes e memórias de seu lugar, alcançando o 1º lugar em fotografia, com orientação do professor Zenildo Leandro.
E no 9º ano, Tharsillo Luz Neto mergulhou no universo das lendas pantaneiras e conquistou o 2º lugar com o conto "A onça e os últimos suspiros de João", orientado pela professora Andréa Lipú.
Na história de Tharsillo, João, um homem de Piraputanga, vive à beira do rio e carrega um segredo: todas as noites é visitado em sonho por uma onça. Entre o real e o fantástico, a narrativa leva o leitor a uma travessia de mistério, até que o personagem desaparece na mata e se transforma em lenda contada pelos moradores da região. O conto faz eco às tradições orais, às vozes do cerrado e às memórias que moldam a identidade local.
Leia na íntegra o conto premiado do aluno Tharsillo:
"A onça e os últimos suspiros de João"
Dizem que, em Aquidauana, onde o rio esconde suas histórias mais antigas e o
vento revela os segredos dos pássaros e animais que habitam o cerrado, viveu um homem
chamado João. Não era como os outros. Tinha um olhar que revelava a alegria de viver,
conversava com os seres da mata e dizia ter nascido nas águas do córrego das Antas, num
distrito chamado Piraputanga, no dia em que lavaram o santo da Igreja de São João
Batista. Seu nome era João porque nasceu no dia do santo.
João era conhecido por todos na pequena comunidade de Piraputanga. Ali, às
margens do Rio Aquidauana, vivia da pesca e, na época da piracema, fazia qualquer tipo
de serviço para não deixar faltar alimento à sua família. Caminhava ao entardecer em
direção ao rio, preparado para pescar. Era um homem de luta, acostumado ao trabalho da
roça, enfrentava o sol escaldante sempre com um sorriso no rosto. O que ninguém sabia
era que João guardava um segredo: todas as noites sonhava com uma onça.
Era sempre a mesma onça. Nos sonhos, ela se aproximava silenciosa, sem atacá
lo nem rugir — apenas o encarava com olhos profundos, cheios de solidão. Com o tempo,
João começou a ouvir uma voz desconhecida que repetia sempre a mesma frase:
— Não lhe resta muito tempo de vida, João.
Ele acordava tremendo, suado e com uma sensação de terror.
Até que, num dia qualquer, João levou sua pequena canoa até um trecho afastado
do rio, onde a mata era fechada e a água refletia o verde como um espelho. Desceu para
recolher armadilhas deixadas no dia anterior. Enquanto abria caminho entre os galhos,
sentiu uma sensação estranha. O vento balançou todas as árvores, e folhas começaram a
cair sem parar. Então, num silêncio súbito, a onça apareceu. Seu corpo se moveu num
único salto.
João ouviu o rugido da fera vindo em sua direção. Tentou recuar, erguer o facão,
gritar — mas já era tarde. As garras se cravaram em seu peito como ferro. A dor foi
imediata. Caiu para trás, e o facão começou a escorregar de sua mão. A onça avançou
novamente. João sentiu as mandíbulas se fecharem em seu ombro. Num último suspiro,
tentou agarrar uma pedra, mas não houve tempo... A onça o arrastou para sua toca,
escondida na mata, para devorar sua presa.
Dias depois, os vizinhos notaram sua ausência. Diziam que João tinha ido pescar;
outros juravam tê-lo visto entrando na mata com um colar feito de dentes. Mas ninguém
o viu voltar. Assustados, chamaram a polícia e relataram o desaparecimento. As buscas
começaram. Encontraram apenas a canoa vazia, armadilhas quebradas e rastros da pata
de um grande felino. Seguiram as pistas até o coração da mata, onde ela escondia seus
segredos. Lá, encontraram vestígios: pedaços de couro, ossos e uma bota afundada na
terra encharcada. A cena traumatizou todos os que estiveram lá.
Nunca encontraram o corpo inteiro. O desaparecimento virou lenda local: “João,
o homem que foi devorado pela onça”. Falaram dele por gerações — especialmente sua
família, que acredita que ele continua vivo, mas em outro corpo.
Desde então, nas noites de lua cheia, dizem que se ouve um rugido estranho vindo
do mato. Alguns caçadores afirmam ter visto uma criatura enorme, de pelagem negra
como carvão, com um colar feito de dentes, andando sobre duas patas.
E, se um dia você encontrar essa criatura, há apenas uma maneira de escapar dela:
coloque uma faca na boca, com a lâmina voltada para fora, e saia da mata sem olhar para
trás.
Foto premiada da aluna Hilary:

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