Giovani José da Silva
Publicado em 26/08/2022 às 12:55
Atualizado em 10/09/2026 às 14:04
Há 30 anos (!) o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional (aquele que foi consumido pelas chamas, em setembro de 2018, e praticamente esquecido, apesar da comoção gerada na época do incêndio), publicou na Revista de Antropologia da USP um instigante, e hoje clássico, texto sobre a inconstância da alma selvagem. Nele, recuperando o Sermão do Espírito Santo (1657) do padre Antônio Vieira, Viveiros de Castro procurou determinar tal “inconstância”. Inicia, pois, o artigo com as seguintes palavras do jesuíta português: “Os que andastes pelo mundo, e entrastes em casas de prazer de príncipes, veríeis naqueles quadros e naquelas ruas dos jardins dois gêneros de estátuas muito diferentes, umas de mármore, outras de murta”. As de mármore são custosas de serem feitas, uma vez que a matéria-prima é dura e resistente. As de murta (Murraya paniculata), ao contrário, são mais fáceis de formar, “pela facilidade com que se dobram os ramos”. Ocorre que as estátuas de mármore, uma vez feitas, “não é necessário que lhe ponham mais a mão”, sempre conservando a mesma figura (salvo algum incidente que lhes tirem a forma dada); já as estátuas de murta, se não são assistidas por um jardineiro, rapidamente perdem a forma original “e o que pouco antes era homem, já é uma confusão verde de murtas”. Por que essa conversa sobre mármore, murta e a inconstância da alma selvagem em nossa coluna de hoje? Ora, caros leitores, é muito possível que vocês, assim como eu, conheçam pessoas que se comportam como estátuas de mármore, ou seja, que são “modeladas” por sentimentos-pensamentos (que parecem) imutáveis... Assim, por exemplo, se apresentam os que idolatram certas figuras públicas, defendendo-as de quaisquer “máculas”, mantendo-se irredutíveis e pouco (ou nada) afeitos ao diálogo enriquecedor e esclarecedor, tão necessário em tempos obscuros como os que vivemos. Contudo, há os que se permitem, como os Tupinambá do século XVI, receberem “[...] tudo o que lhes ensinam com grande docilidade e facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir; mas são estátuas de murta que, em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo perdem a nova figura, e tornam à bruteza antiga e natural, e a ser mato como dantes eram”. Entre “os de mármore” e “os de murta”, há, ainda, uma categoria de gentes que deveriam existir no século XVI, mas que, salvo engano, não foram registradas por Vieira: “os que se fingem de mortos”... Para esses, não há incômodo algum em se comportar de acordo com a conveniência e as circunstâncias, conforme os próprios interesses (muitas vezes escusos). Desde que não se sintam prejudicados, pouco preocupados estão em servir ao tirano de plantão, seja um prefeito, um governador, presidente ou qualquer um destes a ocupar cargo de “principal”. “Os que se fingem de mortos” ora se comportam como rígidas estátuas gregas, ora como indomáveis esculturas em plantas de jardim. Aproveitando-se da “inconstância da alma selvagem” brasileira, os fingidores estão sempre à sombra de quem está no poder, não importando a coloração partidária, as ideologias envolvidas ou mesmo planos para o futuro. Por falar em tempos vindouros, enquanto “os de mármore” não imaginam ter outras ideias/ sentimentos/ pensamentos que não os desde sempre, “os de murta” seguem aparentemente “passivos” e “inofensivos” a música tocada pela orquestra, aguardando pacientemente o momento de mudanças, inclusive de maestro, elaborando estratégias internas de sobrevivência a toda sorte de mazelas, “dando o seu jeito”. Já os “que se fingem de mortos”, ah, esses estarão, com certeza, à espreita de uma “boquinha”, de um assento vago na “janelinha”, prontos para darem um “jeitinho” e se darem bem, uma vez mais. Quem vai de mal a pior, com tudo isso, é esse país “inconstante”, “selvagem” e tão maltratado há séculos e que bem poderia voltar à “[...] bruteza antiga e natural, e a ser mato como dantes era[...]”.
Giovani José da Silva
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