Giovani José da Silva
Publicado em 05/09/2022 às 01:55
Atualizado em 10/09/2026 às 14:04
Não, este artigo não será publicado na Folha de São Paulo, mas dialoga com algumas das ideias contidas em um, recentemente apresentado naquele jornal (Há um ‘historicídio’ em curso no Brasil. Objetiva-se falsificar a história ou até expurgá-la, Coluna Tendências/ Debates, 03/09/2022). Longe de contestar meus colegas de ofício (a quem respeito e jamais ousaria mandar-lhes indiretas ou algo do tipo), gostaria de colocar alguns pontos de vista dissonantes sobre certas questões colocadas pelos (ím)pares. Antes, preciso contar que a circulação do texto da Folha em redes sociais, acompanhada de comentários de professores de História “indignadíssimos” com a situação atual do componente curricular escolar, me fez lembrar que há sete anos vivíamos um intenso embate interno no Ministério da Educação sobre a publicação (ou não) da BNCC-História. Já tive a oportunidade de escrever sobre aquela triste (e incrível) experiência pelo menos duas vezes, sempre acompanhado pela professora Marinelma Costa Meireles, hoje no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA): em 2017, com um artigo científico publicado no periódico Crítica Histórica, da Universidade Federal de Alagoas; em 2019, em um capítulo de coletânea organizada por nós para a Editora Appris. Em ambas as produções, expressamos nossa indignação a respeito de como nós, que fizemos parte da equipe que elaborou a primeira versão do documento, fomos (mal) tratados pelos próprios colegas de profissão, pela nossa associação científica (que se omitiu em momentos cruciais e, em outros, fez intervenções desastrosas) e, pasmem, até por quem nunca se dedicou ao ofício de ensinar História, incluindo dois ex-ministros da Educação. Foi na construção da primeira versão da BNCC-História, entre 2015 e 2016, que se verificou um “duelo” sobre o “expurgo” (ou não) do estudo escolar da História. Graças às intensas movimentações da equipe, então capitaneadas pela professora Marisa Terezinha Rosa Valladares (in memoriam), da UFF, implodimos (a nefasta ideia) e impedimos que, já nos Anos Finais do Ensino Fundamental, História e Geografia fossem diluídas em uma espécie de “Estudos Sociais”. Além disso, construímos uma proposta para o Ensino Médio (sim, havia BNCC-História do Ensino Médio naquele momento histórico) que respeitava a autonomia das disciplinas ligadas às Ciências Humanas (e suas Tecnologias, seja lá o que isso signifique, de fato). Contudo... Bem, contudo, ao invés de nos concentrarmos em debater o que fora produzido, alimentando o diálogo necessário para se construir democraticamente uma base curricular, o que vimos foi um cenário de guerra (de narrativas) e (um show) de horror... Houve os que desdenharam de nosso trabalho, afirmando que uma Base Nacional Comum Curricular era desnecessária, pois desrespeitava as regionalidades e particularidades dos diferentes rincões de nosso imenso país. Não por acaso, as vozes que se levantavam contra a existência de um documento prescritivo/ normativo para todo o Brasil eram predominantemente do Centro-Sul e desconsideravam algumas questões (im)pertinentes: 1) já havia um currículo de História prescrito, pelo menos desde o século XIX, ditado contemporaneamente pelas editoras e seus livros didáticos eurocêntricos e distantes das realidades de crianças, adolescentes e jovens do Norte/ Nordeste, por exemplo; 2) ao mesmo tempo em que trabalhávamos em equipe (nomeados por portaria, alguns indicados por universidades, pelo Consed e pela Undime, além de convidados do MEC, que foi o meu caso), outra “base curricular” vinha sendo formulada por experts, convidados pela Secretaria de Assuntos Estratégicos, então sob o comando de Mangabeira Unger; 3) anteriormente a nós, outra equipe vinha formulando uma base, trabalho ao qual, infelizmente, não tivemos acesso naquele momento; 4) não me lembro de ter sido procurado por alguém disposto a conversar/ dialogar/ trocar ideias e sabíamos dos ataques ao nosso trabalho por meio da imprensa, como nas virulentas ofensivas de certo professor universitário em O Globo ou dos referidos ex-ministros para o “Estadão”, além de piadas e ilações feitas em eventos “científicos” sobre nossos currículos, origens acadêmicas ou mesmo “verdadeiras intenções”... Fomos alvos de chacotas, risos disfarçados no canto de bocas maledicentes, assunto de artigos e capítulos de livros que nos retrataram ora como mal-intencionados, ora como ingênuos ou, mesmo, como “vendidos” ao sistema (leia-se algumas “fundações” educacionais). Em meio a uma enorme fogueira de vaidades e do grande circo instalado em torno da BNCC-História perdemos todos o bonde (da história e outros) e agora, passados esses anos, fica relativamente cômodo (e, por que não dizer, fácil) apontar um futuro sombrio e ameaçado, sem História no Novo (Velho) Ensino Médio... Os cursos de formação de docentes do componente curricular para a Educação Básica, espalhados por todo o Brasil (especialmente os das instituições privadas, que ainda formam a maioria de nossos professores) precisam ser urgentemente questionados/ refletidos/ redimensionados/ atualizados, pensando-se nas gentes que entram e saem da Educação Básica e não sabem raciocinar historicamente (além de não saber ler, escrever, contar, interpretar textos etc.)... Como diria uma colega de profissão, tão “chão de escola” quanto eu, “precisamos de mais Krenak e menos cretense” nas nossas aulas de História! Que assim seja, algum dia!
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