Abalados pelos últimos atentados sofridos pelos vitrais da Igreja Matriz por um rapaz insano, resolvemos expressar nossa indignação e também ressaltar o tesouro artístico que representam os ditos vitrais para nosso patrimônio arquitetônico aquidauanense, e a fragilidade de sua segurança.
Nossa Igreja Matriz, inaugurada em 1930, com a chegada dos Padres Redentoristas, possui várias inspirações construtivas num estilo que floresceu, sobretudo na França, no final da Idade Média (Séculos XII, XIII e XIV): o gótico.
Dentre as inúmeras características desse estilo, o vitral figura como um elemento essencial. As igrejas construídas anteriormente eram sombrias no seu interior, com pequenos espaços abertos para a iluminação.
As catedrais góticas revolucionaram com as grandes aberturas dedicadas à iluminação natural. As paredes quase que são inteiramente substituídas pelos vidros coloridos que dão ao interior um aspecto mágico.
Os vitrais da catedral de Notre-Dame tiveram que ser praticamente refeitos após os bombardeios de Paris, durante a segunda guerra mundial. Outra catedral gótica francesa, Notre-Dame de Chartres, é uma referência na arte dos vitrais. Possui 8.000 m2 de vitrais em suas paredes, há quase 800 anos. Cerca de 90% dos mesmos são originais da sua construção. Chartres é uma das catedrais monumentais do estilo gótico. Possui 14m de largura, 130m de comprimento e, espantosamente, 37m de altura do piso ao teto.
Os vitrais eram feitos com pedaços de vidros coloridos, numa estrutura de ferro e cordões de chumbo derretidos que uniam as inúmeras peças. Os vidros eram pintados com linhas de adorno ou representando normalmente figuras bíblicas. Essas pinturas, levadas ao forno para fixação, se incorporavam definitivamente ao vidro.
Interessante percebermos que essa técnica medieval construtiva é observada nos vitrais de nossa Igreja Matriz, inclusive com os cordões de chumbo.
Os vitrais, além de tocarem nossa sensibilidade com as múltiplas cores que coam a luz solar para o interior, têm a intenção de serem informativos e uma fonte de ensinamentos, verdadeiras aulas de catecismo. Os de Chartres, nossa referência arquitetônica, ilustram trechos da bíblia como a História de Noé, Parábola do Filho Pródigo, A Vida de Jesus, História da Virgem Maria, e também, a figura dos santos, como São Paulo, São José, Santo Estevão, etc.
Os da nossa Igreja Matriz, ao lado de Jesus, Maria e José, reverenciam principalmente os santos, tais como: Santa Terezinha, São Sebastião, Santo Antônio, etc. Um dos vitrais mais danificados no último atentado é o de São João Batista, que fica no antigo batistério, hoje Sala do Dìzimo.
Em 1998, era pároco em Aquidauana, Padre Karlos Esker. Pensou-se na época em proteger os vitrais com uma armação externa de ferro e uma tela fina que impedisse qualquer louco, ou pessoa mal formada, de destruí-los. Criou-se um grupo chamado ?Amigos da Matriz? que tinha por finalidade colaborar com o pároco nos melhoramentos da Igreja. Pensava-se, inclusive, em recuperar os estragos existentes em alguns vitrais. Feito o orçamento, por uma firma de São Paulo, os vitrais deveriam ser tirados e enviados para lá, dois a dois. O custo assustou a todos.
Nesse mesmo tempo outras prioridades apareceram: goteiras no telhado da igreja, cupins ameaçando o madeiramento, o local das promoções das festas necessitando reformas, tudo isso fez com que o objetivo inicial do grupo fosse postergado.
Em 2009, já como pároco em Aquidauana Padre Reginaldo Padilha, foi feita nova tentativa para restauração dos vitrais. Foi contatada a firma especialista Geukas Vitrais, de Vinhedo, Estado de São Paulo. O orçamento importou em R$ 50.000,00, com a inclusão de um vidro protetor de 3mm enquanto os vitrais não fossem repostos.
Procurou-se um patrocínio para a restauração, infelizmente sem sucesso.
Hoje vemos que há uma necessidade imperiosa de, pelo menos, existir aquela tela protetora para que novos danos não aconteçam.
É urgente essa iniciativa, se quisermos preservar esse patrimônio para as novas gerações. Esperamos, também, que um dia esses vitrais avariados possam ser restaurados.
Faz-se necessário o apoio de toda a comunidade para essa iniciativa, não só a comunidade religiosa, mas, o apoio de todos aquidauanenses para que esse patrimônio cultural arquitetônico seja preservado.
*Paulo Corrêa de Oliveira