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Para que serve a escola?

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Fico imaginando que deveríamos nos perguntar frequentemente para que serve a escola (da pré-escola a universidade). Certamente surpreender-nos-íamos com nossas próprias respostas. Acostumamo-nos a encarar a escola como algo natural, cotidiano, uma necessidade (ou obrigação) tão estabelecida, que perdemos a curiosidade de nos questionar sobre seu propósito.
Tenho refletido sobre a função da educação escolar ultimamente. Olho para trás e tento relembrar os pais e as mães que já conversaram comigo em mais de 25 anos trabalhando em educação, expressando o porquê queriam que seus filhos estudassem. Tento me lembrar dos incontáveis professores, diretores, orientadores com os quais tive contato e de como eles viam a escola; na verdade, pergunto até hoje aos professores que trabalham comigo, para que serve a educação escolar. Procuro me lembrar dos muitos alunos que conheci, e de suas visões do porquê frequentaram escola (de novo, da pré-escola a universidade). Fico fascinado com esse exercício! É apaixonante tentar conciliar as diferentes perspectivas e perceber o quanto elas são ao mesmo tempo convergentes e divergentes em alguns aspectos.
Acredito que a escola tem duplo propósito: preparar para a vida produtiva, e desenvolver a dimensão intelectual da pessoa. Parece simples mas na verdade é exatamente aí, na harmonia (ou na desarmonia) entre esses dois componentes, que começa (e termina) o imbróglio que vivemos na educação escolar. Preparar para a vida produtiva significa formar profissionais para o trabalho. Isso mesmo, sem pecado: formar profissionais para otrabalho. Afinal, para que estudamos, na prática? Para obter ascensão social, melhorar nossa condição de vida, ganhar mais dinheiro, compreender melhor as coisas, ser mais feliz. O problema está aí. Formar profissionais competentemente preparados para o trabalho, apesar de muito importante, por si só não é suficiente. Apenas habilidades profissionais não bastam. É necessário estabelecersólidos valores éticos e morais, o que só é possível por meio de exemplos e do cultivo do gosto pelo conhecimento ? daí a necessidade de uma educação escolar que faça as duas coisas ao mesmo tempo, harmonicamente, desde a pré-escola: preparar para a vida produtiva e desenvolver o intelecto, permeado por sólidos valores éticos e morais. Tarefa das mais complexas.
Temos assistido no Brasil nos últimos 20 anos (pelo menos) um embate negativo entre duas correntes de pensamento que apresentam o duplo propósito da educação escolarde maneira dicotômica, como se fossem mutuamente excludentes: ou um ou outro, ou na melhor das hipóteses um predominando sobre o outro. Por um lado, uma visão econométrica que insiste em ?medir? a educação exclusivamente na perspectiva do PIB, da ?agregação de valor econômico? ao indivíduo ? visão simplista. Em contraposição, uma visão ideológica reducionista que banaliza o propósito da educação e não admite que a escolapossa preparar para o trabalho pois estaria ?a serviço do capital?; tal visão é baseada em teorias arcaicas de uma esquerda ultrapassada entrincheirada em muitas faculdades de educação (justamente as responsáveis por formar nossos professores) pelo país afora. Em qualquer das duas correntes (a econométrica e a ideológica), tem-se a falsa impressão de que vida produtiva, conhecimento e valores são coisas completamente separadas, irreconciliáveis.
Esse embate só tem perdedores. Principalmente quando tira a oportunidade de termos melhores professores. Perdemos quando vemos nossas crianças e jovens, especialmente aqueles em desvantagem econômica,terminar o ensino fundamental e/ouensino médio (quando chegam lá) sem o necessário domínio dos fundamentos da matemática, sem saber escrever corretamente a língua formal, sem reconhecera importância e a aplicabilidade da ciência na vida cotidiana, sem apreciar o valor da nossa história, sem saber relacionar o espaço geográfico com as sociedades que neles vivem,sem saber interpretar a informação e transformá-la em conhecimento, sem desenvolver a criatividade natural e a capacidade de aplicar conhecimentos na solução de problemas,e por aí afora. Perdemos quando vemos jovensmatriculando-se em cursos de pedagogia e em licenciaturas sem a real intenção deserem professores, mas que muitas vezes acabam parando em salas de aula por falta de outra opção profissional.Perdemos quando vemos em algumas de nossas faculdades de educação, os ?professores doutores? e ?professores mestres?(expressões arrogantes por natureza) profundamente engajados em discussões filosófico-ideológicas improdutivas sem perceber que a dose excessiva de filosofia e ideologia restringe as oportunidades de formar professores melhor preparados para cumprir a missão de harmonizar a formação para a vida produtiva e para o desenvolvimento intelectual de nossas crianças e jovens. Perdemos quando vemos ?econometristas? apontarem o dedo para variáveis econômicas quantitativas e responsabilizarem simplisticamente a educação escolar como uma panaceia para a solução dos nossos fracassos. Perdemos quando assistimos alguns sindicatos (tanto de trabalhadores como patronais) defender o corporativismo classista e a mediocridade educacional em detrimento da eficácia do aprendizado de conteúdos e valores nas salas de aula; em boa parte desses casos, o que se apresenta comocondição, deveria ser consequência. 
Só teríamos a ganhar se buscássemos o equilíbrio entre os dois componentes que definem o propósito da escola. A ponta do fio da meada? A formação dos nossos professores. Enquanto não revisitarmos seriamente a estrutura e o funcionamento dos nossos cursos de pedagogia e demais licenciaturas (em especial seus currículos) estaremos fadados a continuar alimentando o imbróglio do nosso próprio fracasso educacional. O que advogo aqui é afastarmo-nos do excesso de interferência ideológica (diria mesmo guerra ideológica) na formação dos nossos professores em prol de uma maior e melhor conexão entreteoria e prática que harmonize o ?porquê?, com ?o quê? e ?como? ensinar ? o propósito da escola. É nítida a característica fragmentária dos currículos de nossos cursos de pedagogia e licenciaturas com predominância de referenciais teóricos (?porquê? ensinar) em detrimento de conteúdos e práticas educacionais (?o quê? e ?como? ensinar). O resultado desse desequilíbrio afeta a todos.
Um estudo detalhado dos professores brasileiros (293 páginas) publicado em 2009 pela UNESCO, é contundente em suas conclusões. Analisando em profundidade a estrutura curricular e as ementas de 165 cursos presenciais de formação de professores (71 cursos de pedagogia e 94 licenciaturas), o estudo ressalta que o ?como? ensinar (metodologias e prática de ensino) representa apenas 20,7% do total das disciplinas oferecidas nos cursos de pedagogia, e ?o quê? ensinar (os conteúdos) representam somente inacreditáveis 7,5% do conjunto! Fácil de entender porque nossos alunos das séries iniciais passam anos na escola e não dominam os conteúdos. Em contrapartida, o ?porquê? ensinar (os fundamentos teóricos, ideológicos, e administrativos dos sistemas) representa 43.4% das disciplinas do currículo. Impossível não perguntar de que vale saber ?porquê? ensinar se não se sabe ?o quê? e ?como? ensinar. E os maiores prejudicados são as crianças do primeiro ao quinto ano, cujos professores (com formação em pedagogia) deveriam cuidar para que a base de conteúdos fosse realmente sólida.
O estudo é implacável ao concluir que a escola é um objeto quase ausente nas ementas dos cursos de pedagogia (presente em apenas 8% delas, pasmem!), o que se traduz numa formação docente de caráter abstrato, sem o menor equilíbrio na relação teoria-prática, completamente desconectado do contexto e da realidade onde o professor vai atuar. Vai mais além: os estágios supervisionados, com pouquíssimas exceções, são vagos, e limitados a atividades de observação não se constituindo em práticas efetivas nas escolas.
Enfim, penso que a escola deve representar um local onde ?o porquê?, ?o quê?, e ?o como? ensinar e aprender estejam harmonicamente presentes para que ela possa preparar para a vida produtiva, com sólidos valores éticos e morais, e desenvolver o intelecto para a realização pessoal e a felicidade, que irradia-se para a sociedade. Para tanto, acredito firmemente que precisamos encarar com seriedade o processo de formação de nossos professores como ponto de partida. Menos ideologia e mais pragmatismo. Vou um pouco além ao sugerir uma revisão na estrutura e funcionamento de nossos programas de formação de professores baseada em três princípios essenciaisde forma a criar as condições para que a escola cumpra seu propósito: conexão harmônica entre teoria e prática; trabalho articulado e conjunto entre instituições de ensino superior e escolas; coerência programática no sentido de que o que ocorre na escola seja refletido nos currículos e programas de formação de professores, e vice-versa. O trabalho é monstruosamente difícil. Mas é preciso começar.

Francisco T. Leite, Ph.D. 
 
O autor é PhD em Educação pela Pennsylvania State University (Doutor em Educaçãopela USP). Reside atualmenteem San Francisco, CA-USA onde é Presidente e CEO do ?Lifelong Education Institute?, instituição de ensino superior dedicadaaeducação de adultos. Contato: francicl@yahoo.com

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