*Paulo Corrêa de Oliveira
Era o ano de 1992.
Recebi de Rubens Corrêa, o grande ator do teatro brasileiro, uma carta: ?Este ano Aquidauana vai comemorar seu centenário de fundação. Gostaria de homenagear minha cidade natal. Tenho duas opções, ou levar uma peça existente para apresentá-la aí, ou escrever um texto, contando minhas lembranças de infância?.
Imediatamente, respondi: ?Não tenho dúvidas, um texto escrito por você será de grande valor para essa homenagem?.
Ênio, irmão do Rubens, preocupado, veio me solicitar que lhe tirasse essa idéia. ?Que interesse poderia ter a vida dele, ainda criança, contada na festa do centenário??
Disse-lhe que confiava no talento do Rubens, e que ficasse tranquilo, pois haveria de ser um trabalho significativo. E, realmente foi.
Rubens criou um texto visceral de sua meninice, suas descobertas, seus encantamentos. Até que, aos onze anos, mudou-se com sua mãe para o Rio de Janeiro.
Seu texto foi apresentado no palco do Centro Universitário de Aquidauana, de uma forma talvez inusitada para um ator teatral, lendo os escritos, sem memorizá-los, e sentado. Utilizou, como único recurso cênico, a iluminação vertical vinda de cima de sua cabeça. Baseou sua comunicação na força do próprio texto, na sua inflexão de voz e no gestual, embora contido.
Foi um sucesso inenarrável. A plateia foi tomada pela emoção. E, no final, lágrimas corriam dos olhos da assistência.
É incrível que Rubens, relembrado sempre pelos seus papéis de personagens intensos, como o louco, o desvairado, o apaixonado, conseguiu criar um texto tão doce e singelo, e com um extremo poder de comunicação.
Rubens relata suas impressões de vida, e os acontecimentos que o conduziram a descobrir a arte teatral: o ritual, o cinema e o circo.
Por força de acompanhar sua mãe na Igreja Matriz da cidade, vai sendo tomado pelo fascínio do ritual religioso, a renovação diária da ornamentação dos altares, as devoções especiais, a coroação da imagem de Maria. Muito mais tarde, numa entrevista, Rubens compara o teatro como se fosse um ritual. O despojamento do ator, dando vida ao personagem, seria como um sacrifício ritual. O ator começa a se despir de sua carne, de sua pessoa, para incorporar outra. E esse ritual se renovaria todos os dias de sua vida, a partir da preparação do ator para entrar em cena.
O Cine Glória de Aquidauana, cuja inauguração é relatada por Rubens, lhe provoca emoções inusitadas. Os filmes, com as histórias, as paisagens, os personagens, tudo fazia sufocar sua respiração, pulsar diferente seu coração. Descobre em si uma potencialidade para se maravilhar. Foi o início de seu aprendizado artístico.
O circo mambembe lhe traz a revelação derradeira, só mais tarde percebida, da arte de contar uma história pela representação. Uma brincadeira fantástica, segundo ele. Descobre a sua fraternidade, a família universal de artistas, comediantes, músicos, acrobatas, palhaços, equilibristas... Seus irmãos!
?Roteiro de Lembranças Aquidauanenses de Rubens Corrêa? é um texto fundamental para se avaliar a grandeza e sensibilidade desse ator, e ser humano excepcional.
O texto, ou roteiro teatralizado, parte da pequena cidadezinha de Aquidauana dos anos trinta e quarenta, para a arte universal da comunicação e da emoção.
É um texto fabuloso, e inédito em palco, desde o momento em que Rubens o viveu na festa do centenário de Aquidauana.
Rubens Corrêa merece ser lembrado hoje, também por esse seu texto imortal.
(*Faremos a leitura pública deste texto no dia 7 de agosto de 2013, às 20 horas, no Centro Universitário de Aquidauana).