*Mônica Alves Corrêa
Esperança: somos amigas quase intimas. Eu a conheço muito, mas não completamente. Eu para ela sou uma bananeira que já deu cacho; ela me acompanha desde o meu nascimento, e já viu minhas cachaças e meus tombos, e não tem nenhuma ilusão a meu respeito.
Tenho por ela uma ligação reverencial. Muito além da comercial. Ela foi lugar de verdadeira morada de meus pais por mais de 40 anos. Lá me criei com meus irmãos e para lá voltei após cumprir minha formação acadêmica. Lá imaginei ver os pés gorduchos de meus netos se arrastando pela varanda, assim como aconteceu com meus filhos.
Conheço suas estradas e algumas de suas trilhas, seus encantos e também seus defeitos. Mas confesso que não a conheço completamente porque ela, a Senhora Esperança, mantém consigo alguns segredos. Ela é caprichosa e difícil de lidar, se não lhe der atenção pode ser até perigosa.
Normal, não é mesmo? Tem coisa mais sem graça do que o conhecimento e o controle completo do objeto amado? Tenho agora comigo o sentimento de haver abandonado minha amiga à sanha destruidora e inconsequente de seus invasores.
Fomos obrigados a sair da Esperança no dia 1º de junho. Somente conseguimos retornar a ela em 12 de julho. Fomos ?autorizados? a entrar apenas para retirar nossos pertences e o gado; aceitamos esta ?oferta? dos invasores, pois tínhamos frequentes notícias de que depois apenas encontraríamos a terra arrasada, a casa devastada, tudo moído e triturado pelo ódio e ressentimento. Nosso prazo era de 15 dias.
Sentada no chão da copa interna de paredes cobertas por armários amarelos, entre caixas de papelão, jornais, fitas crepe e louças, tento enfrentar a realidade com pragmatismo e sem emoção. Foi assim que todos nós, família e funcionários, atravessamos os 15 dias para mudar 30 anos.
Assim ficamos concentrados no trabalho que havia a fazer. É insano pensar em mudar e desmobilizar duas fazendas produtivas em apenas 15 dias, como se fosse um passeio, uma diversão.
Numa fazenda, qualquer pote usado de margarina é uma preciosidade e tem sua função. Guardamos de tudo: garrafas pet guardam água pro tereré e pro feijão, e servem também de armadilhas pras moscas das frutas. Imagine, então, apenas como exercício de pensamento, na enormidade de itens de uma oficina de fazenda, a quantidade de parafusos, ferrinhos, pecinhas, encaixes que são guardados, caso seja preciso usá-los numa emergência. É de enlouquecer.
Minha irmã riscou com carvão na parede da sala e na área externa dois calendários, lembretes vivos do tempo que passava e, assim, diante dos calendários de carvão, fomos dia a dia eliminando o prazo e planejando as futuras ações junto com a equipe. A esperança é que nos mantinham vivos.
Odeio mudanças, sou canceriana e acumuladora. Como os gatos, detesto deixar meus velhos hábitos e rotinas. Detesto me desfazer principalmente dos escritos de meus amores, sejam eles rascunhos, bilhetes, assinaturas, cartas ou cadernos infantis. Tempos atrás achei uma serpentina bege desbotada, cuidadosamente enrolada e guardada naquela caixa de pequenos objetos, lembrança do gesto de um amor de adolescência num fim de baile de um carnaval qualquer.
Portanto não selecionei nada, embalei tudo com paciência e resignação, mas mesmo assim ainda tive que ver ir ao fogo velhos escritos de meu pai, planejamento feito em folhinhas, tabelas com projeções de parição da vacada e pagamentos de arrendamento. Só quem o conheceu entende mesmo do que falo e do tempo e cuidado que dispendia ao fazer aquele planejamento.
Nos 15 dias, das quatro da manhã às oito da noite, nossos funcionários, bravos guerreiros terena de famílias tradicionais como o Eloy, Flores, Botelho, Lipu, Gomes, entre outros, se desdobraram para reunir o rebanho. Amanheciam e anoiteciam no campo, muitas vezes lá mesmo almoçavam encostados nas cercas, apoiados nas árvores e enfrentando o frio atípico que se abateu sobre a região nestes dias; isto tudo para dar conta de reunir um rebanho apavorado e arisco pela ação dos invasores.
Enquanto isso nossos invasores percorriam armados o território da fazenda para caçar, promovendo encontros e reuniões no pátio, estendiam roupas no arame da cerca, não se preocupando com o lixo e a desordem, gerados por aquela nova população ocasional, recém-chegada não se sabe donde. Tudo era deplorável.
Assim duas propriedades produtivas foram desmobilizadas. Presenciamos cenas de destruição e abusos que não combinam com a índole sempre afetiva e amigável dos terenas.
Constatamos abates indiscriminados de gado e perda no rebanho de carneiros, filhotes com cabeças arrancadas por cachorros raivosos, madeira retirada no campo sem nenhum controle ambiental, gado encontrado amarrado na invernada, pata dianteira com a traseira, impedindo sua locomoção e ferindo o couro e carne a cada movimento na tentativa de escapar e se ver livre. Urubus e mais urubus nos céus da Esperança nos levando de carcaça em carcaça a presenciar uma barbárie e vandalismo sem precedentes. Chorei.
Com a nossa mudança, enfim, liberamos a área. Sabemos que agora advirá o caos. Não há mais limites para o desumano demasiadamente desumano. Não há mais espaço para a racionalidade e a lei. Haverá ainda espaço para a Esperança? A quem agora devemos recorrer?
*Produtora rural