Não é preciso dizer quem são. Ainda assim vou dar uma dica: integram a turma da Papuda. Sim, eles mesmos. Aqueles que não fizeram nada, discípulos daquele que nunca soube de nada. Aqueles que se dizem condenados sem provas, que vão para a cadeia com o braço erguido e o punho cerrado. Qual será a guerra que eles lutaram (ou lutam) em nome do povo brasileiro?
Reconheço que essas figuras participaram ativamente na luta contra a vergonhosa ditadura militar que usurpou o poder político no Brasil nas décadas de 60 a 80. A luta, a guerra de guerrilha até podia ser válida naquela época, como tentativa de reverter o regime de exceção instaurado no país. Mas desde a segunda metade da década de 80 o Brasil é uma democracia plena. Portanto, aquela guerra dos anos 60 não tem mais razão de ser. O problema é que a velha e anacrônica esquerda pretendia substituir uma ditadura por outra, e parece que ainda pensam assim a julgar pela proximidade com os ?maravilhosos? irmãos Castro, ?bastiões da liberdade? na América Latina, verdadeiros modelos para qualquer governo que queira implantar um padrão eficaz de despotismo, supressão de liberdades, e socialização da miséria. Não pensem que estou fazendo campanha contra a esquerda. Estou fazendo campanha contra qualquer tentação de nos metermos em uma nova aventura totalitária, seja de esquerda ou de direita, por acreditar que ambas são nocivas na medida em que suprimem as liberdades e violam os direitos individuais.
A queda da Bastilha em 1789 marcou o início do que poderíamos chamar de era da modernidade revolucionária; a partir daquele ano, e por longos 200 anos, muitos povos impuseram sua ideologia e sistemas de governo baseados em revoluções e contrarrevoluções, as quais terminavam geralmente da mesma forma (não importa se de direita ou de esquerda): opressão e supressão da liberdade, sempre em nome de um futuro melhor que justificava o sacrifício (e o morticínio) do presente. A queda do muro de Berlim iniciada em 1989, exatos 200 anos após a queda da Bastilha, parece ter colocado fim nessa era de modernidade revolucionária e contrarrevolucionária, redefinindo os conceitos de direita e esquerda e quebrando a tradição das revoluções e contrarrevoluções armadas baseadas no conflito de classes. Tudo leva a crer que nossos ilustres hóspedes da Papuda (os ?guerreiros do povo brasileiro?) e seus seguidores ainda não se deram conta disso.
É claro que precisamos muito de verdadeiros guerreiros municiados com as mais poderosas armas morais, que sejam capazes de estabelecer uma cruzada contra a corrupção endêmica que assola o país. É claro que precisamos muito de guerreiros com a solidez moral necessária para dizimar o vergonhoso Congresso Nacional que protege criminosos condenados em todas as instâncias. Tais guerreiros podem ser cada um de nós e o conjunto de todos nós. A mais poderosa arma moral pode ser o voto colocado na urna. Lembrem-se: o melhor remédio para os males da democracia está na própria democracia ? o exercício responsável e consciente do voto. Para esses guerreiros, eu orgulhosamente estaria na primeira fila gritando de peito aberto: ?Guerreiros do Povo Brasileiro?.
Quanto aos ilustres hóspedes da Papuda... Bem, estes foram legitimamente condenados por um tribunal legítimo, num processo legítimo, com provas legítimas e amplo direito de defesa. Acontece que eles próprios e muitos de seus seguidores não acreditavam que isso pudesse acontecer, pois julgavam-se acima das leis e maiores que o país. Tentar desqualificar o tribunal que os condenou e seus juízes, como alguns tentam fazer, é reação típica daqueles que não possuindo solidez de argumentos para a contraprova, preferem desviar a atenção do mérito e tentar fazer parecer que quem os condenou é tão ruim quanto eles próprios. Miopia de caráter, falta de bom senso, como se os fins justificassem os meios. Quero crer que qualquer pessoa que tenha um mínimo de respeito por valores como honestidade, sinceridade e transparência vai concordar comigo que aos ilustres hóspedes da Papuda caberia melhor o título de ?Corruptos do Povo Brasileiro? ao invés de ?Guerreiros do Povo Brasileiro?. Por favor, parem de insultar nossa inteligência.
No final, sabe qual a guerra que eles lutaram (ou lutam) em nome do povo brasileiro? A guerra pela perpetuação no poder a qualquer preço e por qualquer meio. A guerra dos meios justificados pelos fins. A guerra da inversão de valores. Triste verdade para quem um dia foi idealista.
Francisco C. Trindade Leite, PhD em Educação, residindo atualmente nos EUA