Estão nos sites de todos os grandes jornais de circulação nacional de ontem (26 de Maio de 2014) manchetes sobre as manifestações e protestos com os quais pequenos grupos (em torno de 200 pessoas cada) liderados pelos professores grevistas das redes municipal e estadual do Rio de Janeiro (leiam Sindicato Estadual dos Professores do Rio) ?brindaram? a seleção brasileira de futebol em frente ao Hotel Linx e a Granja Comary. Para um professor por profissão e de coração que sou, demonstrações de miopia moral e pequeneza profissional como essas desencantam. Quero crer que tais grupos não representam o pensamento da maioria dos meus colegas professores. A meu ver tratam-se de grupos minoritários de baderneiros desqualificados que tentam tirar proveito de qualquer situação que lhes dê visibilidade pública para vomitar seus slogans ultrapassados, desacreditados, baseados em uma ideologia que insiste em colocar-nos, professores, como vitimas de um sistema do qual na verdade somos protagonistas. Ainda não acordaram para o fato de que a roda da história já andou, e que a ideologização baseada na anacrônica luta de classes ficou no passado. A única coisa que me conforta é que, conforme noticia a Folha de São Paulo, o próprio sindicato informou que a adesão dos professores do estado do Rio ao movimento foi de 30%.
Alguns slogans materializados nas faixas me chamaram a atenção. O primeiro foi algo assim: ?Brasil vamos acordar, professor ganha menos do que o Neymar?. Claro que ganha! E vai continuar ganhando, sempre, menos do que o Neymar e de quem vier depois dele. As duas coisas não se comparam! Só existe um Neymar. Ademais, se for comparar a produtividade do Neymar (desempenho em campo e número de gols, por exemplo), com a produtividade de certo tipo de professores (medida pelo efetivo aprendizado dos seus alunos, traduzido nos índices nacionais e internacionais de qualidade da educação), muitos deles na verdade deveriam pagar para trabalhar. É a mesma coisa de um comentário que circula no facebook que diz o seguinte: ?Professor, eu te desejo o salario de um deputado e o prestígio de um jogador de futebol.? Outro chavão piegas, completamente inapropriado na minha opinião. Eu desejo que todo professor aprenda a conquistar seu próprio prestígio, com o resultado de seu trabalho e, por consequência, tenha uma remuneração condizente com sua importância social, que o permita viver uma vida digna de bom padrão e ter uma aposentadoria sem preocupações financeiras. Professor não pode esperar ter o prestígio de um jogador de futebol nem o salario de um deputado; é preciso construir seu próprio prestígio e conquistar o salario correspondente.
Outro slogan escrito em uma faixa que me chamou a atenção: ?Tem dinheiro para a copa, mas não tem para a educação.? Desculpem-me pelo termo agressivo, mas isso é uma mentira deslavada! Pouca gente ainda acredita que o problema da educação no Brasil é falta de dinheiro. Tem tido dinheiro mais que suficiente para a educação nos últimos 10 anos. Façam uma pesquisa nas estatísticas da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que reúne os países mais ricos do mundo) e comparem com os dados divulgados pelo IBGE. Vai ser uma surpresa! O Brasil tem investido em educação nos últimos 10 anos, em termos de porcentagem do PIB, praticamente o mesmo que os países da OCDE. E continuamos na rabeira em todos os índices comparativos internacionais. O problema é como e onde esse dinheiro tem sido gasto. Colocar dinheiro em salario de professor, sem maiores critérios, não melhora a educação; existem centenas de pesquisa sobre isso. Uma boa dose de meritocracia é necessária, queiram ou não.
Finalmente, um outro slogan estampado nas fotos dos grandes jornais online de hoje que eu não posso deixar de comentar. Tinha uma frase assim (em Português e em Inglês): ?Professor graduado/RJ. Salário Base R$1,081.00. Isso é padrão FIFA? ... Graduatedteacher/RJ. Base salaryof $487.00. Isthis standard FIFA?? Primeiramente, Srs. Professores, vão aprender a escrever inglês. Como mestres, vocês não têm o direito de escrever errado (meu Deus, o que será que não fazem em sala de aula?!). Ademais, vocês correm o risco de alguém lhes perguntar: Como você explica o fato de o Brasil ter ficado em 58o lugar no exame PISA em 2012, em um total de 65 países? Isso é padrão FIFA? Justiça seja feita: nem a FIFA é o demônio, nem os governos brasileiros tiraram dinheiro da educação para fazer a copa. E olha que eu não tenho nenhuma simpatia pelo atual governo brasileiro.
Meus colegas professores e professoras. Virem o jogo. Parem de se deixar serem apresentados por entidades ?representativas? como as vítimas, os explorados, os eternamente injustiçados. Assumam o papel social que nos é reservado: o de protagonistas. Afinal, somos a única profissão que a sociedade chama para mudar a própria sociedade. Façamos jus a isso. Como? C-o-n-q-u-i-s-t-a-n-d-o o respeito dos pais, alunos, comunidade, e da nação, como resultado do nosso trabalho, consubstanciado no aprendizado dos nossos alunos que se reflete na substancial melhora dos índices de qualidade de educação medidos por entidades sérias mundialmente reconhecidas. Será o possível que não somos capazes de assumir, enfrentar, e vencer esse desafio? Ou vamos continuar passivamente permitindo que entidades ?representativas? continuem fazendo de nós piada para o país e para o mundo?
Francisco C. Trindade Leite, PhD em Educação, residindo atualmente nos EUA