X
Paulo Corrêa de Oliveira

OS DEDOS DO CRISTO DE MEU AVÔ

Compartilhe:

A-

A+

O Cemitério Municipal de Aquidauana lembra um plano surreal de organização. Somente os familiares conseguem localizar os túmulos dos seus entes queridos. Não há um arruamento ou uma orientação numérica. Os jazigos, capelas e túmulos, se amontoam em todos os sentidos, com distâncias praticamente impossíveis de existir.

O túmulo do meu avô possui uma imagem de Cristo, em mármore branco, quase em tamanho natural. Ele segura suas vestes com a mão esquerda e, com a direita, estendida, parece abençoar o local. Pois bem, um fato deplorável aconteceu com esta escultura, justamente na mão que abençoa: Há já alguns anos, um vândalo ou talvez um fanático religioso, não sei, golpeou a imagem, decepando dois de seus dedos. Constatei esse fato, visitando o cemitério, e fiquei indignado com a ocorrência. Entretanto, olhando para o chão, verifiquei que os dois dedos, agrupados e decepados, estavam ali mesmo, junto ao túmulo.

Pensei que poderia resolver esse caso, colando os dedos com uma cola “Super Bond”. Assim o fiz. E o Cristo voltou a abençoar, com os dedos completos.

Alguns meses depois, fui ao cemitério e constatei que, talvez o mesmo vândalo, havia atentado novamente contra a imagem do Cristo. Só, que desta vez, decepou todos os dedos que abençoavam. Não encontrei, em volta do túmulo, nenhum vestígio dos pedaços de mármore. Nova indignação! Mas, desta vez, sem nenhuma possível solução.

Mais um tempo decorreu, não sei se meses ou anos, quando, numa ida ao Cemitério Municipal e visitando o túmulo do meu amigo e ex-colega de magistério, Arnaldo Begossi, chamou-me a atenção, ali perto do seu túmulo, o brilho de uma pedrinha branca meio enterrada na grama. Pois bem, para provocar em mim um espanto do acaso, ou um mistério do além, eram os dois dedos do Cristo do meu avô que eu havia anteriormente colado. Longe, talvez uns sessenta metros da estátua decepada.

O ambiente introspectivo do cemitério provocou em mim um imaginário telúrico: A imagem do Cristo, sem os dedos, nos transportou para novas indagações imateriais e, a lembrança do meu amigo, que, em vida, era obcecado pela figura de Jesus de Nazaré, tumultuou minha cabeça. Haveria uma lógica em tudo isso? O fantástico, o extraordinário, teria acontecido ali? Não sei!... Talvez nem a nossa vã filosofia decifre esse relato acontecido entre o céu e a terra...

Colei novamente os dois dedos na imagem, e fiquei esperando que um milagre    pudesse desvendar o mistério, com o achado dos outros três dedos faltosos.

Muitos anos se passaram. Eu, sempre visitando o cemitério, com muita atenção, olhando para o solo, com cuidado, e perguntando: Os dedos do Cristo algum dia serão encontrados, talvez próximo a algum túmulo que os abrigue e revele?

Hoje, depois de anos de espera e de esperança de encontrar um final feliz para esse mistério, tomei uma decisão intempestiva: reproduzir e colar os três dedos faltosos, moldando-os com uma massa de “Durepoxi”.

Pronto!  Acabou o mistério!

O Cristo do meu avô, Estêvão Alves Corrêa, um dos fundadores da cidade de Aquidauana, conta agora com os dedos completos na sua mão que abençoa.

VEJA TAMBÉM

ÚLTIMAS

Odilon Ribeiro reúne jovens e lideranças em agenda em Aquidauana

Eleições 2026

Odilon Ribeiro reúne jovens e lideranças em agenda em Aquidauana

Candidato a deputado estadual pelo PL participou de encontros nesta quarta-feira; ele apresentou propostas voltadas à geração de emprego e renda, investimentos e ampliação das oportunidades para a população da região

Viviane Luiza defende saúde, educação e infraestrutura na fronteira

Eleições 2026

Viviane Luiza defende saúde, educação e infraestrutura na fronteira

Candidata a deputada federal pelo PSDB destacou demandas de Bela Vista; saúde, educação, infraestrutura e desenvolvimento estão entre as prioridades

Voltar ao topo

Logo O Pantaneiro Rodapé

Rua XV de Agosto, 339 - Bairro Alto - Aquidauana/MS

©2026 O Pantaneiro. Todos os Direitos Reservados.

Layout

Software

2
Entre em nosso grupo