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Raquel Anderson

É domingo....

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No canto do quarto o baú de madeira maciça abrigava o cobertor seca poço, redes e pelegos.
Abrir o baú sempre foi um ritual secularizado, baús carregam histórias, mistérios, segredos, mapas, cartas, sentimentos...
É como se, mesmo sabendo-se o que no baú contém, ao abrí-lo, pudesse, mais uma vez, encontrar nostalgias intactas, implacáveis, surpresas que vieram pelos ares...
A cama precisa do corpo, mais do que o corpo precisa da cama, a cama possui a imponência desnecessária, vive-se sem ela....a cama, estática, briga, disputa importâncias e, no conjunto de pertences do rancho, no quarto, pode-se "armar a cama", amar na cama...
Desesperançosa, esperançando, Maria Ruth, apesar de preferir a rede, o duro banco de jacarandá ou o chão, acomodou-se na cama como se lhe prestasse um favor na noite fria...encolheu-se, puxando o cobertor seca poço cinza com barrado de listras vermelhas sobre o seu corpo, sentindo o lençol branco de algodão frio, convicta de que o calor do seu corpo, naturalmente, esquentaria, brevemente, a sua pouco visitada cama, aliado aos desejos pensantes, aos assovios dos ventos uivantes e ao barulhinho bom, gotejante, da chuva mansa caindo sobre a lata de banha, na cozinha, ao lado.
Chuva afrodisíaca, redundancia, mansidão fria que pede acolhimentos, aquecimentos, Maria Ruth, sem nada dizer, desejando ardorosamente, com entranhas umidificadas, cachoeiras guardadas na inspiração, ouviu o trotar do cavalo preferido, carregando o macho
abrigado na longa capa de chuva, protegido com o chapéu...cavalo molhado, a imaginação voa, lembrança do último banhar do cavalo, na baía, quando ela, nua, orgásticamente, cavalgou...
Conforme o trotar do cavalo preferido, encharcado, aproximava-se, Maria Ruth intensificava seus desejos e imaginação...homens e cavalos caminham na noite, na chuva, à procura de guarida, do abrigo de uma égua molhada, da mulher amada, lubrificada.
A sensualidade, refém da feminilidade, implora pela criatividade, ilumina o olhar, ruboriza os grandes e os pequenos lábios, aquece as mãos e as faz bailar em carícias, desbancando bailarinas...
O trote silenciou...a respiração de Maria Ruth, ofegante, ofuscou o gostoso gotejar na lata de banha...um novo barulho surgiu, o das esporas do macho a caminhar...poucas coisas na vida são mais sensuais e tesudas do que os passos de um homem pantaneiro a tirilintar com suas indumentárias...
Esvoaçando a capa de chuva, como se manuseasse o laço, ele a acomodou no espaldar da cadeira, colocando chapéu sobre a capa, para que sua importância ficasse registrada.
Maria Ruth, ávida, gritou:
-Tire o que lhe sobra aqui, enlouqueça-me com o desafivelar do seu cinto de couro, com as suas mãos a desabotoar a sua camisa, com o seu arrancar as botas, no dobrar de meia perna, o seu tirar as esporas ,arranque as calças, porque o meu olhar, festivo, precisa ver a protuberância do seu sexo e deliciar-me...e que a chuva nos invada, é domingo...
Maria Ruth é assim...

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