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Rev. Vivaldo Melo

Eleições: escolhendo espinheiros...

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Tem sido comum encontrarmos pessoas que se dizem decepcionadas
com "a política" diante dos escândalos que vem à tona periodicamente em nosso país. Algumas coisas precisam ser observadas diante desta constatação. Primeiro, o problema não é "a política", pois ela é o espaço onde os problemas maiores da vida em sociedade são discutidos e onde deveriam ser solucionados de forma justa. Seria a mesma coisa de um cristão dizer que está decepcionado com "a Igreja", diante de tanta coisa que nela se faz, "em nome de Jesus", e que distoa daquilo que deve caracterizar a sua missão como legítima representante de Deus, na terra. Ouvi alguém dizer outro dia que o grande problema que gera esse desencanto em muitos, em ambos os casos, são os homens. Ou seja, "os políticos" e os "fiéis", que burlam constantemente princípios essenciais para o bom cumprimento de seus papéis. Mas, a questão é mais séria ainda. Porque existem políticos e fiéis que, embora não totalmente bons, se empenham para manter determinados valores fundamentais das relações humanas incorporados às suas vidas. O grande problema então é a corrupção do gênero humano. Todo homem nasce propenso a pecar, porque é pecador. O apóstolo João de uma maneira muito clara argumenta que a impecabilidade é impossível. É mentiroso quem ousa dizer que não peca. Até o papa peca. Alguns homens, contudo, lutam prá manter o pecado longe de suas vidas. E mesmo assim, em algum momento, haverão de pecar. Por isto se diz que o pecado é um acidente na vida de um homem piedoso.

Feitas essas colocações de caráter teológico, é possível dizer que devemos sim, como brasileiros, estar desencantados com grande parte dos políticos que escrevem as páginas atuais de nossa história. Mas, não apenas com os políticos. Com a nossa cultura política, como um todo. Por isto a necessidade de reformas urgentes. O povo também tem sua parcela de culpa. O exemplo mais pertinente talvez seja a constatação infeliz de que cada vez mais o eleitor brasileiro, ao escolher um candidato, não leva tanto em conta as suas qualificações morais e éticas. O bordão que corre de boca em boca é de produzir arrepios nos já raros homens "do bem". Quem não ouviu "o importante é que o indivíduo faça" ou "não importa se fulano rouba, o importante é que ele faz". O "ser" aos poucos é um elemento secundário nas relações humanas. E aí a pergunta da cantora Simone começa a nos inquietar: "Como será o amanhã?". A corrupção tende a aumentar, se determinados referenciais de escolha não forem questionados pela sociedade organizada. Nos tempos dos juízes, um homem lançou um alerta que pode ser dado ao eleitor de nossos dias. O povo de Deus estava propenso a escolher o maquiavélico Abimeleque para governar Siquem. Foi quando Jotão, seu irmão, único sobrevivente de um massacre arquitetado pelo próprio Abimeleque para exterminar seus 70 irmãos, apelando para elementos da paisagem rural da época, observa que eles poderiam estar escolhendo um "espinheiro" para governá-los, quando poderiam escolher, por exemplo, uma figueira. Essa árvore é rara, pois produz o fruto antes das folhas. Com isto o profeta demonstrava, solitariamente, que sabia distinguir homens realmente comprometidos com a justiça e outras bandeiras que devem caracterizar a práxis de um verdadeiro homem público (os frutos) de homens com aparente compromisso (as folhas). Trazendo as lições deste episódio bíblico para os nossos dias, em muitos momentos esse modelo se reproduz. Em todos os processos eleitorais está nas mãos do povo a possibilidade de optar por espinheiros ou figueiras (o recado de Jotão inclui outras árvores com qualidades apreciáveis). Lamentavelmente as escolhas nem sempre têm sido as melhores. Logo, a culpa pelo quadro que aí está não é apenas dos "maus políticos". Antes, do próprio povo, que não vê problemas em escolher "espinheiros" para governá-los.

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