dothCom Consultoria Digital
Publicado em 06/06/2011 às 04:00
Atualizado em 10/09/2026 às 14:03
Há alguns anos costumávamos ouvir de fiéis ligados a uma grande denominação evangélica brasileira que "teologia era coisa do diabo e que o crente não precisaria ir para um seminário estudar a Bíblia. O Espírito Santo o capacitaria". E muitos diziam "amém", como uma forma de concordar. Como presbiteriano fui taxado não poucas vezes de carnal, por defender as instituições teológicas (Aliás, ser presbiteriano nestes tempos de tantos modismos doutrinários não é fácil). Hoje a mesma denominação tem diversas instituições de formação teológica, alguns pensadores de peso no universo protestante do país e uma editora que tem surpreendido, ao publicar obras de autores como John Stott, C. S. Lewis, etc., e feito parcerias com instituições teológicas de vanguarda. A crítica ao ato de teologizar, que ainda vigora em alguns contextos, nada mais é do que um grande equívoco. Existem alguns pensadores que concebem a teologia como mera ciência. Outros como um mero exercício intelectual para tentar explicar os fundamentos da fé cristã. Daí, a repulsa pela matéria da parte de alguns grupos. Ao se fecharem para a reflexão teológica, contudo, deixam de conhecer muitas das riquezas do projeto de Deus.
Ora, se a teologia, num sentido literal e compreensível tem como objeto de estudo a pessoa de Deus, a partir da revelação expressa na Bíblia, rejeitá-la sob quaisquer pretextos pode resultar em interpretações, práticas e posturas perigosas. Muitas das aberrações observadas no seio do cristianismo ao longo dos tempos resulta da postura de simplesmente fugir de uma busca mais profunda de compreensão das realidades espirituais. Lutero sabiamente costumava dizer que "a fé é uma arte difícil". A teologia é um instrumento de ajuda na busca de certas respostas. E mesmo quando essas não são encontradas, as lutas, conflitos e tentações resultantes desta busca enriquecem o espírito humano. Que paradoxo encontramos na postura daqueles que transformam a ênfase no "sola fide" (sómente a fé) numa crença fácil, de respostas prontas, abstendo-se da reflexão teológica, e nas conclusões daqueles que se empenham em conhecer a Deus utilizando-se também dos instrumentos da teologia. O próprio Lutero, embora visto como teólogo e homem profundamente comprometido com a pesquisa, concluiu de si, depois de inquirir "Que é Lutero?", que nada era a não ser um "miserável fétido de larvas!". Nisto talvez esteja uma das grandes virtudes da reflexão teológica: levar homens aparentemente cultos a tremerem em face aos desígnios ocultos de Deus e ao "teatro deslumbrante"1 de Sua glória. E a reconhecerem, como o profeta Isaías, o estado de absoluta miserabilidade do ser humano sem a iluminação do Espírito Santo.
Finalmente se a reflexão teológica não faz parte da agenda de muitos que estão à frente da Igreja, como missionários, pastores ou em outras funções que envolvem a docência e a prédica cristãs, o que dizer de uma afirmação histórica de Calvino sobre o tema? Em uma de suas obras ele observa que a tarefa da teologia verdadeira é restaurar a doutrina de Cristo, "exatamente como Ele é,com todas as suas bênçãos". Quando se fala, hoje, em uma reforma como algo emergencial no seio da Igreja evangélica, talvez o que verdadeiramente falte é uma restauração da doutrina de Cristo, face a tantos modismos doutrinários que, em muitos contextos, chegam a colocá-lo num plano secundário, como lembra um pesquisador da religiosidade cristã atual. Ele esteve numa Igreja muito conhecida com o objetivo de avaliar o grau de cristocentridade no culto que ali acontecia. Sómente depois de 45 minutos o pregador citou Jesus, e muito vagamente. Assim, se o alvo maior da reflexão teológica é clarificar a doutrina de Cristo, precisamos estimulá-la. Para o bem da Igreja e para a glória de Deus!
P.S - Aquidauana está sendo agraciada com um curso teológico sério e coerente. Parabenizamos FATHEL pela iniciativa. Informações num dos anexos da Comunidade Cristã.
1 - Expressão de João Calvino
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