dothCom Consultoria Digital
Publicado em 06/06/2011 às 04:00
Atualizado em 10/09/2026 às 14:04
Outro dia apareceu em casa
uma pessoa solicitando ajuda.
Como eu e nem a Igreja que pastoreio tínhamos condições, fiz o encaminhamento da solicitação ao Secretário de Ação Social, Abraão Izumi. Essa solução é ilustrativa para definir os limites da relação da Igreja com o Estado. É competência do Estado prover os meios para que seus cidadãos vivam em paz e tranqüilidade. Por isto a Bíbllia conclama os cristãos a intercederem pelas autoridades. Se elas trabalharem com correção e justiça, todos serão beneficiados. A Igreja, contudo, pode fazer a sua parte, desenvolvendo projetos de solidariedade que visem ajudar ao próximo. Com isto estará colocando em prática um dos maiores mandamentos bíblicos. É possível, em alguns casos, uma parceria entre um e outro? Talvez sim, desde que não haja um de compromisso de voto nos processos eletivos com o grupo que estiver no poder, seja ele qual for. A Igreja não pode se transformar num curral eleitoral, como geralmente acontece. Seus membros devem ter liberdade para escolher os governantes. Devem, contudo, ser orientados sobre como participar desses processos de uma forma coerente, segundo as Escrituras, o que anularia muitas posturas observáveis hoje, entre os evangélicos, uma delas o fisiologismo. Por isto vejo dificuldades em parcerias com o poder público.
E já que o foco aqui é o Secretário de Ação Social, o qual já pastoreei em tempos passados e sempre tive como amigo, preciso aproveitar esse espaço para deixar claro algumas coisas. No final de 2005 cheguei à Aquidauana para liderar a Igreja até então pastoreada por ele. Abraão não foi o primeiro e nem será o último a deixar um grupo organizado, para migrar ou formar outro. É questão de foro intimo. E nestas decisões sempre existem várias questões envolvidas. O triste é que essas rupturas são sempre traumáticas. Ficam feridas. Questionamentos são levantados. Mas, como cristãos, jamais deveríamos chegar ao ponto de ir além dessas tristezas momentâneas. Coisas como perdão, paz, etc., precisam ser buscadas depois que a crise passa. Não é isto que o apóstolo Paulo ensina quando diz: "no que depender de vós, tendes paz com todos os homens"? Sempre respeitei a decisão do ilustre Secretário e só não desenvolvi, até aqui, uma relação dialogal mais profunda com o mesmo, porque entendo que há um processo em curso que precisa ser respeitado. Seria uma hipocrisia alguém achar que isto não envolve um ciclo e que depois da decisão de Abraão de romper com a IPB todos estariam quietos e se abraçando por aí. Há pessoas envolvidas. E nem todos tem um grau de maturidade suficiente para ver além das rupturas. Mas, é inquestionável que a paz deve ser buscada, sempre. Até porque, no caso em apreço, não somos inimigos. Estamos na mesma luta, mesmo que com visões diferenciadas e até com discordâncias. Aliás, podemos discordar de idéias, mas temos que amar as pessoas. A Bíblia diz que devemos amar "até os nossos inimigos"?. Embora alguns entendam que esse texto careça de uma melhor tradução, é certo que devemos fazer de tudo para que tenhamos relações marcadas pelo respeito, amor e solidariedade. Em relação a função exercida hoje por Abraão Izumi, não tenho muito a declarar. Sempre achei que o mesmo tem vocação para a vida pública, embora gostaria de tê-lo simplesmente como pastor. Mas, isto é uma visão muito particular, passível de contestação. E, de minha parte, vou orar para que ele, como cristão, consiga ser diferente e fazer diferença nesta esfera. Esse é um desafio enorme que todo e qualquer cristão verdadeiro enfrenta. Porque em algum momento, quem milita na política, tem que concordar com o inconcordável, fazer o que não deve ser feito e não fazer o que deve ser feito. Nossa cultura política é assim. Poucos conseguem sair imunes às tentações oferecidas pelo poder. Então, tenho que orar muito pelo meu amigo. E gostaria que os evangélicos fizessem isto por ele e todos que estão investidos de autoridade.
É assim que desejo me relacionar com o Secretário de Promoção Social de Aquidauana. Se entender que em algum momento poderemos fazer algo, juntos, vamos conversar. Acredito, porém, que todas as Igrejas evangélicas deveriam depender o mínimo do poder público, em qualquer lugar. Que encontrem alternativas próprias para assistir aos seus congregados que mais careçam de ajuda. Muitos cristãos vinculados às Igrejas dispõem de um bom nível de vida, e poderiam ir além de determinadas obrigações. Pecam, quando são ávaros, por várias razões. Uma delas pela possibilidade de levarem seus líderes a buscarem alternativas não saudáveis ou recomendáveis, como a do vínculo com grupos políticos. Se na Igreja onde atuo como pastor, por exemplo, todos os membros entendessem isto e tão simplesmente contribuíssem com aquilo que Deus pede (e não a instituição), estaríamos ajudando os órgãos públicos, como a Secretaria de Ação Social, pois esses poderiam investir em outros projetos de solidariedade e não gastariam tantos recursos com o mero assistencialismo.
O autor é Pastor da Igreja Presbiteriana de Aquidauana
Pós graduado em Ciências da Religião
vivaldo_ms@hotmail.com
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