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Rev. Vivaldo Melo

Os filhos de Dona Maria...

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O chamado movimento de crescimento das Igrejas é uma das grandes obsessões do meio evangélico do país. Conquistar pessoas para as hostes de uma ou outra denominação, tendo como referencial megas Igrejas e inverter as estatísticas da religiosidade brasileira, referendando o protestantismo como maior grupo religioso são conteúdos obrigatórios em muitos encontros de liderança, da maioria das denominações. O desejo em si não é errado, afinal isto pressupõe ações evangelísticas diversas. E a evangelização, seguida de discipulado, prioriza o ensino do conteúdo bíblico. Esse, por sua vez, tem o poder de transformar o coração humano. E quanto mais pessoas forem transformadas, mais possibilidades teremos de vivermos numa sociedade melhor. Essa é a lógica de qualquer análise, no campo religioso.

A questão, contudo, não é tão simples. É inegável o crescimento número dos evangélicos em nosso país. Mas, a despeito disto, o peso da presença evangélica nunca foi tão irrelevante no que diz respeito a contribuir para que os ideais bíblicos de justiça, ética e moral sejam efetivados na sociedade organizada. Escândalos e mais escândalos são constantemente divulgados na mídia, partindo de evangélicos. Importante salientar que a mídia gosta de singularizar "nossos escândalos". Ninguém ouve dizer que fulano que matou cicrano, estuprou beltrano, etc., é "católico, espírita, etc" com todo respeito que essas referências merecem. Cobra-se muito dos evangélicos e isto de certa forma é muito bom, afinal, parafraseando Camões, "testemunhar é preciso". Todo cristão, independente de ser evangélico ou católico, deve demonstrar, com a vida, a diferença que o evangelho faz. Deve ser um discípulo, de fato, de Jesus Cristo. E um discípulo verdadeiro é aquele que procura conhecer e viver todas as demandas da lei de Deus. A Bíblia é muito clara quanto a isto. O texto de Mateus 5, 20 diz, por exemplo, que a justiça de um cristão deve exceder em muito a dos escribas e fariseus. Ora, escribas e fariseus fizeram história pelo zelo que tinham em relação a observância da lei, obviamente com motivações erradas. O cristão, portanto, deve ir além desse modelo comportamental.

Exatamente esse ponto que preocupa. Não poucos profetas atuais insistem em chamar a atenção para a grande incidência de conversões vazias, em nossos dias. Philip Yancey, renomado escritor, com mais de 15 milhões de livros vendidos, observa que muitas pessoas, hoje, estão em busca de entretenimento, nos grandes movimentos, e não em uma vida de compromisso com Deus. Lógico que isto não pode ser normatizado. Mas, se é pelos frutos que conhecemos os verdadeiros cristãos, algo está errado no universo evangélico. Na busca de um diagnóstico um fator inquestionável é a falta de ensino. E isto não é de surpreender, pois o apóstolo Paulo ao falar dos "últimos tempos" observa que as pessoas não gostarão de aprender. Daí a procedência da crítica de Yancey, Ricardo Gondim, Robinson Cavalcante, e outros. Um mero discipulado, que objetive apenas a inclusão de pessoas no corpo (Igreja), não contribui para a formação de uma Igreja que realmente faça diferença. Enquanto esse modelo preponderar vamos continuar convivendo com o envolvimento de evangélicos com a corrupção, com práticas políticas espúrias (como o clientelismo) e até com a violência urbana. Não tem sido incomum, hoje, ouvirmos relatos cada vez mais freqüentes de envolvimento de evangélicos nominais com práticas abomináveis, muitas vezes "em nome de Jesus". No momento em que escrevo esse artigo, por exemplo, leio que o pastor de uma grande Igreja no Rio de Janeiro, foi preso por roubo de carro. É mole? E lá no Rio, também, dois dos envolvidos na recente barbárie que vitimou o garoto João Hélio Fernandes, cresceram em uma Igreja evangélica. Os filhos de Dona Maria, como foi divulgado pela imprensa, certamente eram contados entre os evangélicos até pouco tempo. Num país onde grande parte dos cristãos veneram Maria, que não sigamos o exemplo dos filhos de Dona Maria.

O autor é pastor da Igreja Presbiteriana de Aquidauana
Especialista em Ciências da Religião pela UMESP
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www.ipbaq.com

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