dothCom Consultoria Digital
Publicado em 06/06/2011 às 04:00
Atualizado em 10/09/2026 às 14:03
Rev. Vivaldo S. Melo
A questão litúrgica tem sido alvo de intensos debates, nas últimas décadas, no seio do protestantismo. O que é permitido e o que não é permitido no culto cristão tornou-se um tema comum. Mas, difícil tem sido chegar-se a um denominador comum. De tudo que se ouve, pelo menos dois pontos de vista prevalecem. Alguns entendem que determinadas práticas, incorporadas a adoração no templo, são meramente elementos humanos que precisam ser excluídos. Outros entendem que existem múltiplas formas de se adorar a Deus e que o mais importante é a sinceridade.
No contexto desta discussão uma prática que tem gerado controvérsias é "bater palmas prá Jesus". A discussão sobre o "ser ou não ser correto", neste caso, não se restringe aos cultos de muitas Igrejas evangélicas. Os católicos carismáticos constantemente "aplaudem Jesus" em suas reuniões. A expressão dá título a um dos grandes sucessos do Padre Marcelo Rossi. No espiritismo kardecista a prática também tem ganhado espaço. Em todas essas vertentes religiosas tem havido controvérsia quanto ao estímulo para se aplaudir Jesus Cristo, principalmente depois que um cântico é entoado sob forte clima emocional. Quem poderia supor que a observação de que "Jesus não precisa nem deseja as nossas palmas e os nossos vivas, mas sim anseia que tenhamos atitudes" poderia vir de um espírita? Ou ainda que um católico mais conservador teria clamado por se resgatar a "pureza doutrinária" da Igreja depois de criticar a prática nas reuniões carismáticas?
Quando se pergunta sobre a existência de uma base mais segura para se discutir o assunto, a Bíblia logo é indicada, pelo menos entre os debatedores evangélicos. É aí, contudo, que a questão fica mais complexa. No Antigo Testamento existem de fato quatro referencias ao uso das palmas, em conexão com a celebração. Difícil é fazer alguns entenderem que em nenhum caso a prática acontece na adoração. E se o Novo Testamento deve ter um grande peso para definir a práxis cristã, é significativo que os elementos do culto nele indicados não incluem o uso das palmas. Isto, contudo, não convence a maioria e a prática avança cada vez mais, inclusive no meio das chamadas denominações históricas.
Como lidar com a questão? Simplesmente deixar prá lá, afinal os paradigmas de adoração mudaram na pós modernidade? Aceitar que realmente o principio norteador é "como" a adoração se dá, ou seja, o importante é que seja feita "em espírito e verdade?". Envolto nestes questionamentos, por conta da abordagem que alguns fiéis têm feito sobre o assunto e até por admitir, com honestidade, que tenho resistência à prática, lembrei-me da postura de Jesus diante dos milagres que fazia. Ele sempre orientava os "agraciados" no sentido de nem comentarem e olha que ele merecia aplausos nessas ocasiões. Lembrei-me também que uma análise semântica da expressão "palmas" aponta para uma ação que visa a aprovação. E me vi a perguntar se a criatura pode aprovar ou reprovar o Criador? Por fim, puxei pela memória para lembrar-me de alguns antigos e esquecidos conceitos teológicos. É sabido, por exemplo, que as obras de Deus não visam agradar-nos, pois tudo que Ele opera, segundo a Bíblia, opera para o Seu agrado (Sl. 115,3).
Respeito os irmãos que "aplaudem Jesus" nos momentos de adoração. Entendo, porém, que a iniciativa brota de uma forma equivocada de interpretar os textos bíblicos relativos. Gostaria, contudo, de ser respeitado por preferir uma forma diferente de adorar ao Salvador. Não vejo a adoração mais contemplativa como fria e não espiritual, afinal ela esteve presente na vida devocional de muitos personagens bíblicos e foi aprovada por Deus. Finalmente, não vejo a prática de "bater palmas prá Jesus", independentemente de sermos contra ou a favor, como algo fundamental e decisivo no ato de adorar. Assim entendo que as Igrejas históricas podem e devem orientar os seus ministrantes de louvor a não incluírem-na em seus cultos.
*Pastor da Igreja Presbiteriana de Aquidauana
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