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Ciência

Dente de preguiça gigante encontrado em Miranda revela vivência da megafauna

Pesquisa com fragmento de estudo da UFMS indica vivência de grandes mamíferos antes da 'Era do Gelo'

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Fragmento de mandíbula e do dente de preguiça gigante encontrados no rio Miranda revelam uma descoberta revolucionária sobre as teorias da extinção da megafauna no continente. Um grupo de pesquisadores, incluindo Edna Maria Facincani, da Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo e Geografia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), indica que contrário do que foi estabelecido há décadas, mamíferos da megafauna viveram no país muito além da “Era do Gelo”.

O achado em fósseis das coleções paleontológicas do Laboratório de Zoologia do Instituto de Biociências da UFMS e do Museu de Pré-História de Itapipoca, do Ceará, revoluciona teorias sobre a extinção abrupta desses animais. Ou seja, a pesquisa abre oportunidade para a modernização dos estudos e novas pesquisas.

Intitulado 3.500 anos AP: A última sobrevivência da megafauna de mamíferos nas Américas, o artigo foi publicado na Revista Sul-Americana de Ciências da Terra (Journal of South American Earth Sciences). Os autores são os pesquisadores: Fábio Henrique Cortes Faria e Ismar de Souza Carvalho, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro); Hermínio Ismael de Araújo-Júnior, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro); Celso Lira Ximenes, do Muphi (Museu de Pré-História de Itapipoca); e Edna Maria Facincani.

Histórico

A data do achado foi identificada por estudos no Laboratório de Radiocarbono da UFF (Universidade Federal Fluminense) no Câmpus Gragoatá, em Niterói. Além disso, o estudo teve o apoio da Fundação de Amparo à Faperj (Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

As datações cronológicas são estudadas pelo pesquisador Fábio Faria desde 2021, no período da graduação, mestrado, doutorado. Em 2020, parcerias facilitaram o acesso às coleções paleontológicas, por exemplo, fósseis das coleções da UFMS e o Muphi, que resultaram neste artigo.

O método utilizado foi a datação do Carbono 14 por Espectrometria de Massa com Aceleradores (14C-AMS). “Esse método permite que você date pequenos fragmentos, que tenham entre três e quatro gramas. O laboratório utilizado é o único da América Latina certificado por instituições internacionais para essa análise e decidir por utilizá-lo também foi para valorizar e fortalecer as instituições nacionais de pesquisa e ciência”, explica.

Os resultados obtidos foram os seguintes: do rio Miranda, Mato Grosso do Sul – Preguiça gigante (5.942 ± 294 anos); de Itapipoca, Ceará – Preguiça gigante (6.161 ± 364 anos e 7.415 ± 167 anos), Tigre dentes-de-sabre (7.803 ± 179 anos), Toxodon platensis (7.804 ± 226 anos), Xenorhinotherium bahiense (3.587 ± 112), Mastodonte (7.940 ± 502 anos) e Palaeolama major (3.492 ± 165 anos).

Megafauna

Megafauna é termo é associado a animais pré-históricos que viveram durante o Pleistoceno, época geológica do período Quaternário estabelecida entre 2 milhões e 12 mil anos atrás. A época é conhecida por "Era do Gelo", pela característica das glaciações e é anterior à época atual, chamada Holoceno.

“Quando falamos de megafauna quaternária falamos dos grandes mamíferos que viveram naquele período. Os animais caracteristicamente mais emblemáticos são os com mais de uma tonelada de peso, que são o toxodon, o mastodonte e a preguiça gigante, mas existem também os de porte menor, que podem ter acima de 40 quilos, que são a Palaeolama major e o tigre dentes-de-sabre, entre outros”, aponta Fábio.

Professora EdnaPontos de estudo

“Costumo dizer que ‘megafauna’ está para os mamíferos gigantes, assim como ‘dinossauro’ está para os répteis gigantes”, complementa Celso Ximenes, que explica também que ainda existe megafauna vivente no mundo, especialmente no continente africano.

O pesquisador ressalta que em outros lugares, como Europa, Ásia e Américas, ela foi extinta em uma época até então aceita como sendo no final do Pleistoceno e início do Holoceno, há cerca de 12 mil anos.

“E por que a América do Sul ganha tanto destaque quando falamos em ‘megafauna’? Porque foi o continente mais afetado. 80% das espécies de megafauna foram extintas, por isso esse estudo é tão emblemático”, ressalta Fábio.

Fragmentos podem alterar datações

A pesquisa destaca que a extinção da megafauna é datada há cerca de 12 mil anos, entretanto, os objetos da pesquisa revelam que as espécies há cerca de 3.500 anos.

Da UFMS foi selecionada uma amostra de uma preguiça gigante (Eremotherium laurillardi), encontrada no rio Miranda, e do Muphi foram selecionadas amostras vindas do sítio paleontológico do Jirau, de uma preguiça gigante, de um tigre dentes-de-sabre (Smilodon populator), um Toxodon platensis, um Xenorhinotherium bahiense, um mastodonte (Notiomastodon platensis) e um Palaeolama major.

"Nosso trabalho é justamente esse, guardar, organizar, proteger, pesquisar e divulgar a coleção de fósseis, subsidiando os pesquisadores. Inclusive o próprio Hermínio Araújo, parceiro nesta pesquisa, realizou o trabalho de doutorado junto ao acervo do museu. Então quando o Fábio nos procurou em seu pós-doutorado para obter fósseis da megafauna, separamos essas amostras que foram coletadas em uma escavação científica em 2006, a qual coordenei. Mandamos 14 amostras representativas de sete espécies e duas delas foram as que resultaram nas idades mais recentes, cerca de 3.500 anos, que dão título ao artigo”, diz Celso Ximenes.

Sobre a extinção da megafauna 

Agora, a pesquisa revela a idade mais recente de preguiça gigante da América do Sul, o que propicia inserir o Mato Grosso do Sul em uma das três regiões zoogeográficas que se destacam quanto à quantidade e diversidade de espécies desta fauna mamífera, a Região Intertropical Brasileira. As outras duas já conhecidas e estudadas há tempos são as regiões do Chaco no Paraguai e dos Pampas ao sul do país e no Uruguai.

“A Região Intertropical Brasileira era composta principalmente pelos estados do Nordeste, com exceção do Maranhão, alguns do Centro-Oeste e do Sudeste. Com o avanço das pesquisas podemos enquadrar esses nossos achados e outros que vêm sendo encontrados por pesquisadores no MS, nos rios Apa e Formoso, expandindo essa área não só para o estado, mas para o Paraguai também. Então sempre comento com a professora Edna que o estado pode vir a ser considerado até um importante corredor biogeográfico, tendo feito a ligação entre estas três importantes regiões”, comenta Fábio.

Resultados

A perspectiva aberta permite entender as relações de extinção de uma outra maneira e afirmar então que não foi um evento catastrófico ao final do Pleistoceno, mas um evento de extinção contínua ao longo do tempo.

O Pantanal, por exemplo, até sete mil anos era um vazio, não tinha essa exuberância, essa quantidade de água. Então essa mudança climática e ambiental causaria o desaparecimento desses ambientes que eram favoráveis à sobrevivência da megafauna na América do Sul.

“Se num tempo onde você tinha pouca expressão humana, não tínhamos modificado de forma considerável a superfície da Terra, se as mudanças ambientais causaram a extinção dessa fauna magnífica, imagina as mudanças ambientais que acontecem hoje somadas às nossas atividades antrópicas. Então, serve como parâmetro para a gente pensar na conservação da biota atual também”, comenta.

*Com informações da UFMS.

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