Conquista
Alexsandro da Silva Souza é morador da Aldeia Brejão; na França, pesquisador atuará junto ao Laboratório LETG, da Université Rennes 2, sob orientação do professor Damien Arvor
Publicado em 18/06/2026 às 08:02
O pesquisador indígena Terena Alexsandro da Silva Souza, morador da Aldeia Brejão, em Nioaque, foi selecionado para realizar um intercâmbio acadêmico na França. Em solo europeu, desenvolverá parte de sua pesquisa de doutorado em um dos mais importantes centros científicos do mundo. A oportunidade permitirá que o pesquisador leve para o cenário internacional estudos voltados à preservação ambiental da Terra Indígena de Nioaque.
Doutorando do PGTA (Programa de Pós-Graduação em Tecnologias Ambientais) da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Alexsandro realizará atividades no Laboratório LETG (Littoral, Environnement, Télédétection, Géomatique), vinculado ao CNRS (Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica), considerado uma das principais instituições de pesquisa do mundo.
Com uma trajetória marcada pela atuação em educação, pesquisa científica e fortalecimento das comunidades indígenas, Alexsandro é mestre em Recursos Naturais pela UFMS, graduado em Agroecologia pela UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e, atualmente, coordena o Curso Técnico Profissionalizante em Agroecologia da Escola Estadual Indígena Angelina Vicente, localizada na Terra Indígena de Nioaque.
Ao longo de sua carreira, também desenvolveu projetos voltados ao etnodesenvolvimento, à economia solidária, ao extrativismo sustentável do Cerrado e à gestão de iniciativas realizadas em parceria com instituições nacionais e internacionais voltadas ao fortalecimento dos povos indígenas.
Na França, o pesquisador atuará junto ao Laboratório LETG, da Université Rennes 2, sob orientação do professor Damien Arvor. O trabalho faz parte da tese intitulada “Estudo Multitemporal do Uso e Cobertura do Bioma Cerrado da Terra Indígena de Nioaque/MS”.
A pesquisa utilizará ferramentas avançadas de sensoriamento remoto, geotecnologias e análise espacial para acompanhar as transformações ambientais ocorridas na Terra Indígena de Nioaque. O objetivo é produzir informações estratégicas que contribuam para a proteção territorial, o fortalecimento da gestão ambiental e a elaboração de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável.
Reconhecido internacionalmente, o LETG reúne pesquisadores de diversas universidades francesas e desenvolve estudos relacionados à geografia ambiental, mudanças climáticas, dinâmica dos ecossistemas e relações entre sociedade e natureza. As pesquisas conduzidas pelo laboratório estão alinhadas às prioridades do Instituto de Ecologia e Meio Ambiente do CNRS, contribuindo para a compreensão dos impactos ambientais e das transformações territoriais em diferentes regiões do planeta.

Para Alexsandro, a experiência representa muito mais do que uma conquista pessoal.
“Como pesquisador e indígena Terena da Aldeia Brejão, levar minha trajetória acadêmica e minha experiência para um centro de pesquisa de referência mundial não é apenas uma conquista individual. É um passo estratégico para o nosso povo, pois abre caminhos para as futuras gerações. É a oportunidade de demonstrar que os povos indígenas são protagonistas da própria história e também da produção científica, unindo o conhecimento tradicional ao rigor da ciência para fortalecer a proteção dos nossos territórios e da biodiversidade”, afirmou.
O pesquisador destaca, ainda, a importância da presença indígena nos espaços de ciência e tecnologia.
“A pesquisa indígena permite que sejamos sujeitos ativos na construção do conhecimento. Ela fortalece a defesa dos territórios, amplia a visibilidade das nossas pautas e contribui para que as decisões sobre o nosso futuro sejam tomadas com base na nossa realidade, nos nossos saberes e nas nossas necessidades”, ressaltou.
Entre as expectativas para o período de intercâmbio estão o aprimoramento de metodologias científicas, a ampliação das redes de cooperação entre Brasil e França e a troca de conhecimentos entre diferentes culturas. Ao retornar ao país, Alexsandro pretende aplicar os conhecimentos adquiridos em ações voltadas ao etnodesenvolvimento, à gestão territorial e à conservação ambiental na Terra Indígena de Nioaque.
A conquista também reforça o papel da educação pública e da pesquisa científica como ferramentas de transformação social. Ao levar para um ambiente acadêmico internacional uma pesquisa construída a partir da realidade local, Alexsandro contribui para ampliar a visibilidade dos povos indígenas de Mato Grosso do Sul e das questões ambientais do Cerrado em espaços globais de produção de conhecimento.
Aos jovens que sonham em ingressar na universidade e seguir carreira na pesquisa, ele deixa uma mensagem de incentivo. “Acreditem na força do conhecimento que carregamos de nossas comunidades. A educação é uma ferramenta de transformação e de luta. Ocupem as universidades, produzam ciência e sejam protagonistas da própria história. O sonho de estudar não afasta vocês das suas raízes, pelo contrário, fortalece a capacidade de defender aquilo que é nosso e construir um futuro melhor para as próximas gerações”.
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