Mesmo quem foi vacinado ou pegou coqueluche perde a imunidade com o passar dos anos. Como em crianças em idade escolar, adolescentes e adultos a doença em geral se apresenta de forma leve, a pessoa não sabe que está doente e pode contaminar seus familiares. As principais vítimas são as crianças não-vacinadas (ou com vacinação incompleta) e os idosos. Apenas a dose de reforço da vacina pode prolongar a imunidade à doença.
Estudo publicado este ano no The Pediatric Infectious Disease Journal, publicação oficial das sociedades européia e norte-americana de Doenças Infecciosas Pediátricas, demonstrou que até 83% dos responsáveis pela contaminação de bebês menores de seis meses por coqueluche são seus próprios familiares, principalmente irmãos, pais e tios. Realizado por oito hospitais e centros de pesquisas dos Estados Unidos, Canadá e França, o trabalho envolveu 95 crianças e 404 parentes, amigos e babás. Os testes em laboratório revelaram que as fontes de contaminação foram os pais (55%), irmãos (16%), tios (10%), amigos e primos (10%), avós (6%) e babás (2%).
A contaminação ocorre porque a popular tosse comprida, ao contrário do sarampo e da varicela, pode incidir mesmo em que já teve a doença. Quem foi vacinado também perde a imunidade com o passar dos anos. A partir da idade escolar, a coqueluche geralmente se manifesta de forma leve, podendo ser confundida com outras doenças respiratórias mais leves. O doente muitas vezes não apresenta os sintomas clássicos como acessos prolongados de tosse, guinchos e falta de ar. Os resultados de exames laboratoriais também demoram até três semanas e nem sempre são precisos, especialmente se a pessoa estiver tomando antibiótico.
"Como não sabe que tem a doença, essa pessoa acaba levando a coqueluche para casa e pode infectar seus familiares. O impacto é maior sobre crianças pequenas, que podem se infectar quando o esquema vacinal primário está incompleto, o que ocorre especialmente nos lactentes antes dos seis meses de vida. Normalmente a criança é infectada por seus irmãos mais velhos, pais e avós", afirma o médico Renato Kfouri, da direção da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Quando atinge menores de dois anos, a coqueluche pode provocar paradas respiratórias, capazes de deixar seqüelas mentais e motoras por causa da falta de oxigenação do cérebro.
A cada ano, ocorrem entre 20 a 40 milhões de casos de coqueluche no mundo, causando até 400 mil mortes, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde. Mesmo em países desenvolvidos, a doença apresenta reincidência, principalmente após a adolescência. "Estudo realizado com 4.395 pessoas na Áustria, entre 2000 a 2005, registrou aumento de 6,4 para 11,1 de casos por grupo de 100 mil habitantes. Entre os pacientes internados, 86% tinham até seis meses", salientou o médico Aroldo Prohmann de Carvalho, professor-adjunto de Pediatria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), membro do Conselho Científico do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
Intervalos entre as vacinações
As vacinas contra coqueluche, tétano, difteria e poliomielite devem ser dadas em três doses nos primeiros dois, quatro e seis meses de vida do bebê. O primeiro reforço é indicado aos 15 meses. Para prolongar a duração da imunidade contra coqueluche, tétano, difteria e poliomielite, o Ministério da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) recomendam o segundo reforço entre os 4 e 6 anos.
Até pouco tempo no Brasil, os médicos tinham de improvisar alternativas para conferir o segundo reforço por falta de uma vacina adequada. Entre essas opções estava a aplicação de duas vacinas diferentes - a tríplice bacteriana (contra difteria, tétano e coqueluche) e a antipólio oral (Sabin). A vacina pentavalente (contra cinco doenças) era a outra alternativa, mesmo com custos adicionais e o fato de a criança só precisar se proteger contra quatro doenças.
"Quando a criança começa a freqüentar a escola, muitos pais tendem a se descuidar da vacinação. Alguns perdem o segundo reforço que na rede pública é dado até os sete anos de idade.
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