O café já foi consagrado como uma paixão nacional. Segundo colocado no ranking dos países que mais consomem café no mundo, o Brasil usa 16 milhões de sacas de 60 quilos por ano. Mas o hábito do cafezinho pode ser prejudicial para aqueles que sofrem de pânico, um tipo de transtorno de ansiedade que acomete de 2% a 3% da população mundial, geralmente mulheres. Embora o transtorno aconteça mais freqüentemente na faixa etária de 12 a 45 anos, a idade média de aparecimento do problema é aos 25 anos. O café - ou melhor, a cafeína - pode desencadear ataques ou crises em portadores de pânico.
Uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) investigou a relação entre o pânico e o consumo de café. "É conhecido o fato de que o café gera ansiedade. Estudos já demonstraram também que os pacientes com transtorno de pânico podem ter uma resposta exacerbada a doses altas de café", explica Antonio Egídio Nardi, psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da UFRJ. "O objetivo da pesquisa era descobrir e descrever a reação à cafeína em diferentes subtipos de transtornos de pânico", informa Nardi, que coordenou o estudo.
Segundo o psiquiatra, alguns portadores de pânico têm um subtipo respiratório. Explica-se: segundo um estudo também realizado na UFRJ, pessoas portadoras de asma ou bronquite crônica apresentam 50% mais chance de ter pânico. "Talvez exista o subtipo cafeína-sensível", diz Nardi.
A pesquisa avaliou diferentes grupos de pessoas antes e depois do consumo de 480 mg de cafeína, que equivale a mais ou menos cinco xícaras de café expresso. Essa quantidade é considerada elevada e, por isso, foi usada como parâmetro para avaliar a ação da cafeína em portadores de diferentes transtornos de ansiedade e depressão. Os grupos investigados tinham pânico, depressão maior, pânico com depressão maior ou nenhum transtorno mental. A relação entre pânico e o consumo de cafeína ficou ainda mais evidente após essa pesquisa, publicada na revista norte-americana "Comprehensive Psychiatry".
O grupo de pessoas que tinham pânico ou depressão maior associada ao pânico apresentou mais crises após o consumo de cafeína do que o grupo com depressão maior sem pânico e o grupo controle. "Esse resultado demonstra que os pacientes com pânico, com ou sem depressão, são mais sensíveis a altas doses de cafeína que a população geral ou até mesmo que portadores de depressão maior sem pânico", explica Nardi. Isso pode ser importante porque quando consumido, mesmo em pequenas doses ao longo do dia, a cafeína interfere nos sintomas de alguns pacientes.
Vale ressaltar que apesar de estar mais associado ao café, a cafeína também é encontrada no chá, em refrigerantes, bebidas energéticas, chocolate e até mesmo em alguns medicamentos. "Para os portadores de pânico que apresentarem uma maior sensibilidade à cafeína, recomenda-se evitar essa substância nas suas mais diversas apresentações", explica o psiquiatra. "É importante para esses pacientes terem conhecimento de quais produtos contêm cafeína para evitar o consumo excessivo."
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