Não é só a classe política que tem gerado a indignação da população brasileira. Pesquisas indicam que há um descrédito muito grande em relação a outros campos, entre eles o da medicina. Em recente entrevista ao programa "Passando a Limpo", da Rádio Difusora de Aquidauana, Sofia Rondon, ao traçar um paralelo entre o ontem e o hoje, observou que "a gente conta nos dedos os médicos que são dedicados", referindo-se ao tempo presente.
Se a postura em relação aos médicos é de intolerância, conforme observam alguns analistas, algo precisa ser feito, pois a medicina enfrenta no momento uma crise sem precedentes, devido a um conjunto de fatores.
"Existem explicações lógicas para a crítica que alguns fazem", observa um profissional da medicina. Ele aponta como exemplo o fato da sociedade exigir dos médicos nada menos do que a perfeição, não aceitando sequer a derrota em fatos inexoráveis, como a existência de doenças incuráveis, a decadência pelo passar dos anos ou a morte implacável.
Contudo, algumas pessoas consultadas sobre o assunto, apontam como um dos fatores do descrédito, a tendência crescente, entre muitos médicos, da perda de compaixão para com os pacientes, especialmente os mais humildes. Tal constatação levou o Dr. Drauzio Varella a observar que "está na hora de acabar com o ritual do juramento" que os médicos fazem nas cerimônias de formatura.
Na base de muitas posturas que levam alguns profissionais a ignorarem completamente esse aspecto da ética médica estaria a ganância, o que contraria frontalmente o artigo 9º do Código de Ética Médica Brasileiro, segundo o qual "a medicina não pode, em qualquer circunstancia, ou de qualquer forma, ser exercida como comércio".
Não faltam exemplos, no cotidiano, de atitudes gananciosas de alguns indivíduos pertencentes à classe , que acabam por manchar a profissão digna e importante do médico. Entre as histórias conhecidas está a de um profissional que não atendeu um paciente, num hospital público de Mato Grosso do Sul, enquanto a família não liberou recursos para que ele comprasse vacina para seu gado.
Um caso testemunhado em Dourados, causou mal estar em muitas pessoas. Uma família depois de várias tentativas para contatar um médico, recebeu deste um parecer sobre o diagnóstico do paciente em tratamento, acrescentando o seguinte: "o quadro é grave, pergunto-lhes vocês tem dinheiro?" Falando a respeito o Rev. Antonio Balbino Martins, capelão do Hospital Evangélico, argumenta que "ainda que fosse pertinente o alerta desse profissional quanto às custas do tratamento, soou terrivelmente aos ouvidos dos familiares do paciente essa impensada ou muito bem pensada pergunta médica, que os levaram a excluir os médicos de Dourados buscando uma solução fora de nosso Estado".
Mas, afinal se muitos médicos são "gananciosos", segundo opinião popular, que limite salarial poderia ser considerado justo para os que exercem essa profissão? Num dos extremos desta discussão está a remuneração básica paga a um médico do SUS, que em janeiro estava na faixa de R$ 1.491. "Com isto é inevitável que esse profissional tenha três ou quatro empregos", observa Mighel Srougi em texto sobre o assunto editado pelo Jornal da Ciência.
Como o sistema de valores de uma sociedade capitalista acaba influenciando profissionais de todas as áreas, muitos médicos acabam seduzidos pelo desejo de obterem riquezas, nem que para isto tenham que trabalhar de forma excessiva. "Nem sempre é questão de sobrevivência. Muitas vezes é por ganância mesmo que alguns profissionais atendem pacientes até madrugada adentro, em consultórios particulares" argumenta Henrique Montserrat Fernandez, um estudioso do assunto. Neste caso o grande problema é que a qualidade do serviço nunca será a melhor.
"Já fui atendido por um médico altas horas da noite e quando deixei o consultório havia um grande número de pacientes à espera. Os ganhos desse profissional tem sido altíssimos", observa um cidadão que vamos chamar de *Marcos Oliveira. Segundo ele, essa carga poderia ser bem menor e o médico ainda assim teria ganhos significativos considerando-se a realidade do país.
Como as generalizações são perigosas, existem os bons profissionais. Alguns até ganham muito bem, mas nunca se esquecem que o humanismo é um dos pilares da medicina. Neste sentido a riqueza nunca será uma prioridade maior, mas cuidar de vidas. E muitos que carecem de cuidados, não poderão jamais pagar pelo benefício do atendimento médico. Assim, se todos doarem um pouco do tempo por essa missão, darão uma grande contribuição para que vivamos numa sociedade mais justa e fraterna, principalmente considerando-se o fato que o Estado, em nossa realidade, tem sido falho na maneira de olhar a questão da saúde pública.
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