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É tudo verdade

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Quem cunhou o ditado que diz que "de médico e de louco, todo mundo tem um pouco" certamente não tinha o Dr. House em mente. O protagonista da série "House M.D", exibida às quintas-feiras no canal pago Universal Channel, tem essas características em excesso. O especialista em diagnósticos é tão brilhante que já fez uma paciente cubana tentar chegar aos Estados Unidos em um pequeno barco a motor porque acreditava que ele era sua última esperança. E estava certa.


Quanto ao quesito loucura... bem, basta dizer que o chefe do setor de diagnósticos de um hospital-escola interpretado pelo ator britânico Hugh Laurie - duas vezes vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator pelo papel - já enfiou um canivete na tomada para provocar uma parada cardíaca e, assim, ter argumentos concretos para provar a um paciente que teve uma experiência de quase morte que não existe nada "do outro lado".


O programa, que ocupou o posto de série mais vista na TV paga brasileira no primeiro trimestre deste ano, com uma média de 100 mil telespectadores por semana, tem seu principal charme na personalidade arrogante e controversa de House e nos casos bizarros que ele desvenda. Mas, exatamente por suas qualidades extraordinárias, muito do que acontece na série é posto em xeque pelos fãs. Será que existem mesmo diagnósticos tão inesperados?


Movido por essa pergunta, Andrew Holtz, ex-repórter da CNN e mestre em Saúde Pública, saiu a campo e pesquisou, durante cerca de um ano, as doenças raras e os tratamentos nada ortodoxos mostrados na série. O resultado do mergulho nesse universo está no livro "A Ciência Médica de House - A Verdade por Trás dos Diagnósticos da Série de TV", lançado no Brasil pela editora BestSeller. Holtz conclui: tudo é bastante plausível. "Os médicos em 'House' enfrentam uma combinação de casos bem peculiar e as doenças que descobrem são, muitas vezes, raríssimas, mas isso não significa que sejam totalmente impossíveis", atesta o autor. "Se você destilar a experiência de milhares de médicos e milhões de pacientes ao longo de muitos anos, bem, tudo que pode acontecer provavelmente já aconteceu."


Fonte


E a inspiração para os misteriosos casos solucionados por House não é outra senão a vida real. Uma das fontes de pesquisa da equipe de roteiristas, no início do programa, era a Coluna de Diagnósticos da "New York Times Magazine", que trazia notícias sobre quadros médicos incomuns.


Com tanta informação, a série torna-se um jogo de adivinhação para profissionais da saúde, que tentam acompanhar a linha de raciocínio da equipe do Princeton-Plainsboro Teaching Hospital. "Vou assistindo e tentando fazer o diagnóstico. Sei, por exemplo, quais as conseqüências de taxas de linfócito altas, dispnéia, sudorese e outros sintomas", diz a enfermeira e professora universitária Priscilla Ferreira e Silva, 27 anos, referindo-se às cenas em que os médicos de especialidades distintas se reúnem para fazer um "diagnóstico diferencial", peça-chave de qualquer episódio da série.


"'Diagnóstico diferencial' é o exercício lógico durante o qual os sinais e sintomas clínicos são comparados com possíveis diagnósticos", explica Holtz. "Quase sempre existe mais de uma possível explicação para a queixa principal do paciente."


Essa busca por retratar da forma mais próxima possível o cotidiano de uma junta de brilhantes médicos, sem dúvida, garante muitos pontos entre os fãs. "O mais legal de 'House' é que os casos clínicos, as teorias e as seqüências de medicamentos são reais", comenta Priscila. "Se fosse para ver o básico, a gente veria outras séries médicas como 'ER' ou 'Grey's Anatomy'".


Mas se nem em reality show pode-se afirmar que tudo é verdade, é óbvio que os roteiristas de "House" abrem concessões em nome de uma boa história. Os resultados dos exames mais intrincados saem em tempo recorde e os quadros clínicos evoluem vertiginosamente, por exemplo, para a trama "caber" no episódio. Além disso, os mesmos médicos que atendem aos pacientes realizam procedimentos como ressonância magnética e exames laboratoriais, o que não corresponde à realidade.


"Eles copiaram esquemas como o de 'CSI' (série sobre investigação forense exibida pelo AXN e pelo SBT), em que os próprios policiais fazem testes de balística, análises químicas e outras pesquisas que, na verdade, são feitas por técnicos", avalia o estudante de Administração Felipe Boaventura, 19 anos. "Mas é uma licença poética que não tira o mérito da série. Na minha opinião, o foco de 'House' é muito mais as relações humanas e os conflitos éticos do que os casos médicos."


Alguns casos bizarros


Piloto. Uma professora de jardim de infância tem convulsões na sala de aula. Os sintomas progridem para dificuldade de respiração e cegueira. A suspeita de vasculite (inflamação e necrose das paredes dos vasos sanguíneos) cai por terra, e House prova o improvável: a paciente tem um verme (tênia) no cérebro.


A Top Model . Uma modelo, viciada em heroína, desmaia na passarela. House suspeita de câncer, mas os testes não comprovam. É quando o Dr. Wilson diz que, a não ser que tenham inventado um novo órgão, ela não teria câncer. Instigado, House descobre o que a modelo tem câncer nos testículos. A paciente possui pseudo-hermafroditismo masculino, por isso, é um homem imune à testosterona produzida pelo seu corpo. Assim, o hormônio dominante é o estrogênio, que lhe atribuiu características superfemininas.


Segurança . Uma jovem com um coração transplantado vive isolada em seu quarto, em que tudo é esterilizado para que ela não seja infectada. Sem explicação evidente, ela tem uma reação alérgica. A doença progride até a paralisia. House luta para provar que todos os sintomas são causados por um carrapato.


Falha na Comunicação. Após um desmaio, um homem começa a emitir frases sem sentido, uma condição chamada de afasia. Ele mesmo não percebia, o que indica problema com o processamento das informações no cérebro. As primeiras suspeitas recaem sobre psicose ou disfunção neurológica, mas House acaba descobrindo que se trata de um caso raro de malária no cérebro.


Abdução. Garoto que alega ter um rastreador alienígena em seu pescoço sofre de convulsões e hemorragia. Desacreditado até pelos pais, que desconfiam que ele é louco, o menino recebe a ajuda de House, que resolve o mistério: durante a fertilização in vitro que a mãe fez pra ter o garoto, dois óvulos fecundados se fundiram em um só. Partes do corpo dele, inclusive no cérebro, continham DNA do "irmão", em uma anomalia genética rara chamada de quimerismo.


Confira


Andrew Holtz - A Ciência Médica de House
BestSeller - 288 páginas
Tradução: Adriana Rieche
Quanto: R$ 29, em média

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