Você controla a alimentação o dia todo. Come alimentos saudáveis e pouco calóricos para manter o organismo funcionando normalmente. No fim da tarde, você se sente desanimado, vai para casa e engole tudo que estiver na frente: chocolate, biscoitos, sorvetes, bolos, pães. Chega a consumir bem mais de mil calorias em muito pouco tempo e sente-se mal depois do episódio. Se isso acontece esporadicamente, o problema não é tão grande, mas se ocorre com freqüência é melhor ficar atento. Você pode sofrer de compulsão alimentar.
A compulsão alimentar é caracterizada pelo desejo incontrolável de comer. Quem sofre do problema não consegue perceber que está ingerindo tantos alimentos por compulsão e diz que não consegue controlar a vontade. O problema é considerado pelos psiquiatras um transtorno alimentar. David Shannahoff-Khalsa, autor do livro Kundalini Yoga Meditations -Techniquies Specific for Psychiatric Disorders, compara os distúrbios alimentares com qualquer outro vício. "Os distúrbios alimentares podem ser agrupados junto com comportamentos de vícios e com transtornos impulsivos e, assim, ser considerados problemas de ordem psiquiátrica", disse David.
Ataque e culpa
A compulsão alimentar é muito relatada em consultórios de médicos por pessoas que querem emagrecer. "Me sinto muito culpada depois desses episódios de gula. Parece que eu não tenho controle sobre mim mesmo, que sou fraca", diz a estudante Juliana Soares.
Assim como Juliana, quem sofre de compulsão alimentar costuma se sentir diminuído quando isso ocorre e acaba entrando em um ciclo vicioso: quanto pior se sente, menos força a pessoa tem de lutar contra o problema. "Geralmente, essas compulsões estão ligadas a doenças psiquiátricas como a bulemia e a ansiedade. É uma tentativa do organismo de acalmar a psique. As pessoas relatam que perdem o controle, como se tivessem perdido a consciência delas mesmas", disse Priscila Wacker, psiquiatra e terapeuta Jungiana, de São Paulo.
O tratamento para compulsão alimentar inclui várias abordagens. Normalmente, as pessoas precisam de terapia para conseguir resolver o problema com a comida. Alguns médicos também receitam antidepressivos ou ansiolíticos para estabilizar os níveis de neurotransmissores no cérebro, um das causas físicas da compulsão. "Para tratar é necessário fazer terapia, pois o remédio é apenas um redutor do sintoma", alertou Priscila. Fazer exercícios e realizar uma reeducação alimentar também faz parte da superação do problema. "Os exercícios liberam hormônios que acalmam a ansiedade e geram bem-estar", explicou Priscila. A alimentação também precisa ser acompanhada por um nutricionista para que o paciente aprenda a maneira certa de comer. Quem come direito supre melhor a falta de nutrientes, o que evita um pouco a vontade descontrolada de comer. A nutricionista Fernanda Pisciolaro, coordenadora do Grupo de Estudo do Comer Compulsivo e Obesidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, diz que alguns alimentos estimulam a compulsão. "Alimentos como muito açúcar, especialmente no final do dia, aumentam a secreção de insulina e da glicose sangüínea, favorecendo a fome compulsiva após algumas horas", explicou. Segundo Fernanda, os compulsivos não conseguem distinguir fome e saciedade. Os pacientes do HC possuem um diário alimentar onde relatam tudo o que comem, a que horas comem e os sentimentos ligados aos alimentos.
Tratamento alternativo
O Yoga também faz parte desse tratamento contra os distúrbios alimentares. David diz que os yogis, geralmente, não comem demais e conhecem os limites do corpo. "Uma forma de definir um yogi é a pessoa capaz de controlar o que entra pelos diversos orifícios. No caso em questão, pela boca", comentou. Mas para chegar neste nível de sabedoria, é preciso muita prática, dedicação e estudo. Mas mesmo para quem está começando, o Yoga pode ajudar a controlar as ingestões alimentares e compulsões. "Algumas técnicas de meditações podem ajudar nesses casos. Elas são propostas para ajudar as pessoas que sofrem de transtornos alimentares e vícios", explicou David.
Atualmente, os médicos estão receitando tratamentos alternativos aos pacientes psiquiátricos. "Quando a paciente aceita, eu encaminho para acupuntura e Yoga, pois são muito eficazes no controle da ansiedade. O Yoga, principalmente, vai ensinar a pessoa a lidar com os sentimentos", comentou a psiquiatra. Além disso, o Yoga vai ajudar a pessoa a se conhecer para não mais ficar insatisfeita com ela mesma. "A maioria das pessoas que tem esses ataques sente um vazio interno e tenta encontrar conforto na comida", disse Priscila. Quando você sentir vontade de comer, respire várias vezes, faça pranayamas e medite. Provavelmente, a vontade vai diminuir e você vai conseguir se controlar. Juliana começou a usar o Yoga para tentar diminuir seu problema. "Depois que comecei fazer um trabalho de Yoga específico para isso, junto com o tratamento, eu melhorei muito. Quase já não tenho mais ataques", comentou.
Diagnóstico
Se você sofre com compulsão por pouco tempo ou apenas uma vez, não é um sintoma de doença Só é necessário se preocupar se os ataques forem freqüentes. "Para que seja diagnóstico psiquiátrico é necessário durar pelo menos três meses, duas vezes por semana. Se ocorrer apenas esporadicamente, é mais provável que seja uma fase e logo tudo volta ao normal sem precisar de tratamento", comentou Priscila. Algumas outras características também diferenciam o comer compulsivo de um simples exagero alimentar. "A compulsão alimentar é quando a pessoa come rápido, em um curto espaço de tempo, sem sentir o gosto, sozinho e escondido, e tem um sentimento de nojo e repulsa de si mesmo depois do episódio", finalizou Fernanda. Se você sofre de compulsão alimentar, procure ajuda, pois o tratamento costuma dar bons resultados.
A nutricionista Fernanda Pisciolaro, do GRECCO, deu algumas dicas para acalmar a gula.
- Não faça restrições alimentares (não pule refeições e não proíba alimentos)
- Siga um padrão nas refeições com três refeições principais e lanches
- Identifique sentimentos, alimentos e situações que desencadeiam os episódios
- Coma carboidratos, inclusive doces, em quantidades adequadas
- Inclua alimentos ricos em fibras e ricos em proteínas
- Não faça compras com fome; leve uma lista e compre apenas o que planejou
- Não tenha guloseimas em casa; guarde os alimentos que são gatilhos da compulsão em recipientes opacos e em lugares de difícil acesso
- Quando tiver uma vontade de comer, tome três copos de água gelada e faça algo que dê prazer; desviar a mente ajuda a esquecer a compulsão
- Coma devagar, saboreando e sentindo o gosto dos alimentos e pare de comer ao primeiro sinal de saciedade
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