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Guaranis-caiovás vivem em confinamento em Mato Grosso do Sul

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"A tristeza nossa não é barata. A tristeza nossa é cara." O desabafo do cacique Getúlio Juca, 60, da aldeia Jaguapiru, em Dourados, resume o drama vivido pelos 43 mil índios da etnia guarani-caiová, na região do cone sul do Estado de Mato Grosso do Sul, próximo à fronteira com o Paraguai.
 
A segunda maior população indígena do país, segundo dados do IBGE, vive espremida em reservas ou em acampamentos improvisados em fazendas e às margens de rodovias.
 
Eles dizem querer voltar para o local de onde foram expulsos, seus "tekohás", terras sagradas onde afirmam que seus antepassados viveram e hoje estão enterrados.
 
Mas a terra agora está nas mãos dos fazendeiros, que produzem soja, cana, milho e gado em áreas adquiridas do governo federal desde o fim da Guerra do Paraguai (1864-70), quando o Império começou a colonizar a região.
 
A partir da década de 1950, a expulsão dos índios e a concessão de títulos de propriedade a fazendeiros se intensificou. Nativos eram retirados das terras pelo SPI (Serviço de Proteção ao Índio) --órgão federal que mais tarde daria lugar à Funai (Fundação Nacional do Índio)-- e levados para reservas.
 
Os índios relatam ataques e enfrentam disputas judiciais. Aqueles que não resistem ao clima tenso ajudam a colocar o Estado no topo do ranking de suicídios. Também há registro de homicídios em enfrentamentos relacionados à luta pela terra.
 
A maioria dos guaranis-caiovás vive em terras indígenas: segundo a Funai, eles têm hoje 15 territórios regularizados, que ocupam uma área de 20 mil campos de futebol. O primeiro é de 1915.
 
Mesmo nas terras oficialmente indígenas, como a Reserva de Dourados (a 229 km de Campo Grande), os guaranis-caiovás vivem em situação de confinamento, que a Folha testemunhou no fim de outubro durante viagem de uma semana pela região.
 
Em Dourados, num espaço de 3.470 hectares, cortados pela rodovia MS-156, vivem 14 mil índios.
 
É como se quatro índios fossem obrigados a viver, plantar e rezar no espaço de um campo de futebol.
 
De acordo com a antropóloga Lucia Helena Rangel, o espaço é pequeno se levado em conta que eles sobrevivem da agricultura. "Assentamentos de reforma agrária na região Sul chegam a ter 50 hectares por família", compara.
 
A vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat, já definiu a reserva como "a maior tragédia conhecida na questão indígena em todo o mundo".
 
"Estamos vivendo com muitas comunidades, tudo espremido aqui na aldeia. A terra está muito pouca para nós. Se a gente for colocar certo as coisas, não dá meio hectare para cada um", disse o cacique Getúlio Juca.
 
Na reserva, há casas de alvenaria e as tradicionais moradias de sapê. É possível ver mercearias e igrejas evangélicas pela área. "Em cinco, dez anos, não vamos mais ter espaço para viver, para plantar", disse o índio.
 
Chorando, Alda Silva, 66, mulher do cacique, interrompe a entrevista: "Morremos e derramamos sangue por causa da nossa terra e não vemos resultado. Perdemos nossa família. Nós queremos só a nossa terra. Não queremos a fazenda do fazendeiro."
 
MORTE
 
Levantamento do Ministério da Saúde mostra que, de 2000 a 2011, 555 índios se suicidaram, em geral por enforcamento. Só neste ano, até julho, 32 casos foram confirmados pela pasta. Praticamente todos eram da etnia guarani-caiová.
 
Enquanto na média nacional a taxa de suicídio em 2007 foi de 4,7 por 100 mil habitantes, nas áreas indígenas do sul de Mato Grosso do Sul, chegou a 65,68 por 100 mil.
 
Em média, um índio se suicida a cada seis dias no Estado. A maioria é do sexo masculino e tem entre 15 e 29 anos.
 
Os índios consideram o suicídio previsível: dizem que o céu fica vermelho quando alguém vai tirar a própria vida. "A doença fica no corpo durante sete dias. Ela procura os mais jovens. [O suicida] quer gritar, fica com raiva. Aqui já teve muito suicídio", afirma o cacique Getúlio.
 
Em Iguatemi, no extremo sul do Estado, Marilene Benites Romeiro, 23, disse que já pensou em acabar com a própria vida. "Da minha parte, tenho vontade de desistir. Às vezes tenho vontade de me matar. O que me segura são meus filhos".
 
Marilene contou que cinco dias antes havia sido atacada por pistoleiros enquanto caminhava na estrada, em direção ao centro da cidade. A Polícia Civil investiga o caso.
 
Agora ela usa uma espécie de tchaco (corrente com uma haste usada em artes marciais) a tiracolo. Além disso, dois jovens da aldeia passaram a escoltá-la.
 
A índia diz que tragédia na vida dela não é novidade. No ano passado, afirma, seu irmão foi degolado e teve os olhos perfurados. A Delegacia de Iguatemi informou desconhecer o caso.
 
Relatório do Ministério da Saúde publicado em abril considera "inquietantes" os números de violência.
 
Nos últimos dez anos, foram 317 homicídios, alguns cometidos pelos próprios índios. Em 70% dos casos, foram usadas armas brancas. Em 2007, enquanto a taxa de homicídios no Brasil era de 25,5 por 100 mil habitantes, nas áreas indígenas de MS esse índice chegou a 67,37.
 
A proteção dos índios fica a cargo da Polícia Federal e da Força Nacional de Segurança Pública. Procurado pela Folha, o Ministério da Justiça não divulgou o efetivo que está na área.
 
PARA O MUNDO
 
Foi a localidade de Pyelito Kue --mistura de português, espanhol e guarani que significa algo como "o lugar onde ficava o pequeno povoado"-- a responsável por expor para o mundo, em outubro, o drama dos guaranis-caiovás.
 
No texto divulgado pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e reproduzido massivamente nas redes sociais, os índios afirmaram que resistiriam até a morte à tentativa de desocupação do local em que vivem há um ano, numa área de dois hectares na fazenda Cambará, em Iguatemi, extremo sul do Estado.
 
"Pedimos ao Governo e [à] Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva", diz a carta interpretada equivocadamente por ativistas como um anúncio de suicídio coletivo.
 
Em janeiro, o proprietário da fazenda pediu a remoção dos índios à Justiça Federal em Naviraí (MS), que acatou o pedido em setembro.
 
Em meio à repercussão do caso, o TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região), em São Paulo, garantiu a permanência dos índios.
 
A discussão, porém, está longe do fim. O caso deve parar no STF (Supremo Tribunal Federal), onde esse tipo de questão costuma demorar para ser resolvida.
 
A Folha não conseguiu falar com o dono da fazenda.
 
O acesso ao acampamento é difícil. Primeiro é preciso percorrer de carro as estradas de terra da reserva Sassoró. Depois, caminha-se por cerca de um quilômetro numa trilha aberta pelos índios, até chegar a uma das margens do rio Jogui (ou Hovy).
 
Para atravessar o rio, que tem cerca de dois metros de profundidade e 100 metros de largura, é preciso ir por dentro d'água, tendo como apoio um fio de arame estendido de uma margem à outra, para vencer a correnteza. Próximo à margem, crianças brincam na água.
 
A reportagem encontrou poucos adultos em Pyelito Kue. Ademir Riquelme Lopes, 22, se apresenta como "escrivão indígena" e diz que foi o responsável pela carta que fez ecoar o lamento dos 170 acampados.
 
"A gente está numa guerra. Estamos prontos para enfrentar o que vier. A gente sabe como foi nosso passado e precisamos recuperá-lo. Tem que reconhecer o que é nosso. [Na terra], a gente planta, a gente caça, dela a gente tira as plantas medicinais, nela a gente se diverte, nela a gente vive. A terra é sagrada", afirma Ademir.
 
Ele disse que a interpretação equivocada da carta que tomou conta das redes sociais acabou sendo positiva para eles, mas deixa claro: "Jamais a gente vai pensar [em suicídio]. Se os pistoleiros ou outros órgãos [polícia e Justiça] vierem nos atacar, vão ter que nos matar aqui, porque os nossos antepassados morreram aqui".
 
Os acampamentos visitados pela Folha são simples e quentes, mas limpos. Há poucas ocas e a maioria das moradias improvisadas são tendas de lona preta, semelhantes às dos acampamentos de militantes sem-terra pelo país.
 
Em Pyelito Kue, os barracos ocupam uma clareira no meio da mata.

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