Eles pararam na Igreja Matriz, em Aquidauana, para agradecer a Deus por tê-los acompanhado durante tantos dias. Exatamente a mesma atitude tomada naquele já distante dia 03 de novembro, quando saíram simbolicamente do mesmo local para percorrer 14 mil quilômetros de Jeep pela América do Sul, passando por Brasil, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. A história, desta vez, começou a ser contada de trás pra frente, para que as perguntas sobre como estão os aquidauanenses Mac, Wilson, Rhobson e Leonel, aventureiros que toparam participar desse grande desafio, sejam respondidas de imediato. Os quatro já se encontram na Princesa do Sul há uma semana e meia e estão muito bem, mas a correria e as histórias que acumularam pelo caminho atrasaram um pouco a narrativa do último capítulo dessa jornada.
Na cidade universitária de Cochabamba, na Bolívia, Leonel bradava aos quatro cantos que "já sentia o cheiro de casa" e trazia um ânimo a mais para os aventureiros do Troller e do Unimog. Isso porque as dificuldades pelo caminho eram muitas, como o policiamento local, que não fazia a menor questão de tratá-los com cordialidade. Além dos documentos do veículo, as autoridades bolivianas da lei revistavam os veículos, abriam as geladeiras e até subiam em cima dos Jeeps. Totalmente diferente do tratamento dispensado aos aventureiros nos outros países, onde os policiais, ao saberem da expedição, desejavam boa viagem e até pediam para tirar fotos com eles.
Para completar, Wilson, ou Índio, como também é conhecido, ainda sentia dificuldades decorrentes de uma infecção intestinal. O jeito foi recorrer aos métodos do pseudomédico Leonel, acompanhado de sua inseparável maleta cuidadosamente preparada pelo professor farmacêutico Alexandre Nishiyama, proprietário da farmácia Princesa do Sul. O dono do Unimog lembrava que já curou muito peão no Pantanal sul-mato-grossense e que nenhum havia morrido até hoje, portanto, com Wilson não haveria de ser diferente, ainda mais na Bolívia. O jeito foi confiar na receita de Leonel, com dois comprimidos que eles dizia que era "pa quera". O fotógrafo oficial da expedição, Rhobson, garante que os métodos funcionam.
"Foi o que me curou, em um dia que tive infecção intestinal na cidade de Arequipa e Leonel me deu um comprimido de sulfametazol. Fiquei no hotel, eles foram em busca de uma peça do Unimog e, quando voltaram foram preparar os carros para subir a cordilheira. Leonel, com a mão toda suja de graxa, entrou no quarto e foi direto em sua maleta médica inseparável pegar um comprimido. Pensei que era para ele tomar, fiquei até assustado, mas ele me perguntou /e aí guri, como está?/ Respondi que não me sentia bem, ao que ele me pediu para tomar mais um comprimido que era pa quera", lembra Rhobson. O fotógrafo olhou para as mãos sujas de graxa do amigo e os comprimidos que ele segurava, pensou mil vezes, mas resolveu tomá-los. "Acho que a sujeira da mão, mais os comprimidos de dose dupla, foram o que me curou", completa.
Laços maternos
Uma das coisas que mais impressionou os aventureiros, na Bolívia, foi a relação entre as mulheres e os filhos. Era comum vê-las carregando as crianças nas costas, com aquele saco típico que, segundo eles, cria um afeto muito grande com a mãe. E os pequenos ficavam todos quietinhos, com chapeuzinho e traços bem marcantes do povo boliviano. Daquele jeito, além da parte afetiva, a mãe consegue trabalhar nos serviços de casa, ao mesmo tempo em que a criança acompanha tudo, sem precisar ficar longe dela, como é comum.
Os menonitas e a pacata cidade de Roboré
Ao saírem de Santa Cruz, os aquidauanenses fizeram uma parada para o almoço na pacata cidade de Roboré, interior da Bolívia, onde almoçaram no restaurante Cassino Militar. No estabelecimento, uma mesa de menonitas se destacava em meio aos semblantes bem peculiares dos bolivianos. Numa região próxima, existe uma grande colônia de menonitas, grupo de denominações cristãs que descende diretamente do movimento anabatista que surgiu na Europa no século XVI.
Outro fato que chamou a atenção foi a falta de um posto de combustível em Roboré, onde havia somente um grande tanque, após o rio, com uma grande fila para abastecer. A cidade estava quieta, pois é costume do povo boliviano fechar o comércio para a sesta e retornar apenas às 15 horas.
Churrasco
Deixando Roboré, os aquidauanenses foram para El Carmem, uma cidade próxima da fronteira do Brasil com a Bolívia, onde tiveram uma ajuda fundamental para o trecho final da jornada. Lá, quem os aguardava eram os amigos aquidauanenses Toco, Abelardinho Leal e Celso Monteiro, que hoje moram em El Carmem. Para saudar os aventureiros, eles ofereceram um churrasco tipicamente pantaneiro.
"Abelardinho nos esperou com uma cerveja gelada e preparou um churrasco, parece que até sabia que estávamos com vontade de comer uma carne, com uma boa prosa e direito até a música ao vivo, interpretada pelas vozes de Toco e Mac. Sônia, esposa de Abelardinho, se responsabilizou de fazer um delicioso arroz, feijão e mandioca, para acompanhar o churrasco preparado por Toco. Depois, trazendo mais cerveja de Porto Quijarro, chegou o também aquidauanense Nivaldo, o Bugre, outro que mora na Bolívia e completou a festa", conta Rhobson.
Com a água mineral de sua fazenda, Abelardinho é responsável por abastecer os municípios de Porto Quijarro e Porto Soares, na Bolívia. Nivaldo é o encarregado do transporte dessa água, chegando a fazer de duas a três viagens por dia.
Chegada
Em 10 de dezembro, 37 dias após saírem de Aquidauana, os aventureiros deixaram a Bolívia e fizeram o trajeto de volta até a Princesa do Sul. Na metade do caminho, entre Corumbá e Miranda, foram recebidos por outro amigo, o policial rodoviário federal Válter Rodrigues Lopes, que deu as primeiras boas-vindas ao final da expedição.
Após os agradecimentos na Igreja Matriz, a recepção a eles
(veja galeria completa de fotos aqui), organizada pelo amigo Iberê Delmar Gondim Lins, foi na Panificadora Viana, com direito a abraços emocionados dos familiares, charanga da Banda do Barril, fogos e discursos sobre a aventura. Afinal, 14 mil quilômetros e seis países depois, o que não faltava era história para eles contarem.
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