O noticiário internacional focaliza diariamente a fuga de mulheres, crianças, homens e velhos dos países árabes em guerra assim como países do norte da África principalmente. Levas de pessoas se aventuram a atravessar o mar Mediterrâneo para buscar refúgio em países europeus. Essa aventura também tem levado centenas de pessoas à morte depois de serem vítimas de afogamento na travessia do Mediterrâneo, em barcos improvisados.
Os que conseguem chegar, principalmente à Grécia, considerada a porta de entrada da Europa, sofrem também com as péssimas condições dos abrigos improvisados, até chegarem a algum país europeu que as acolhem. Vivem aos milhares, de maneira improvisada em campos de refugiados, em verdadeiro estado de penúria.
Condoídas, muitas pessoas do mundo inteiro, têm procurado ajudar de alguma maneira esses refugiados.
Caso exemplar é o da aquidauanense Eliana Araújo Mendes Caiazza. Ela reside em Nova Yorque, USA, no Brooklyn desde a década passada. Casada com Thimoty Caiazza, do ramo de investimentos, tem três filhos ? Olivia, Isabella e William. Eliana é a filha caçula do casal de professores Madalena e Oswaldo Maeda, residentes em nossa cidade. Sempre que pode Eliane vem visitar os familiares em nossa cidade.
Estudante da Escola Cândido Mariano, é formada em jornalismo pela UCDB e enfermagem, nos Estados Unidos.
Ela é uma das voluntárias a cuidar de refugiados no campo de Refugiados EKO, localizado no norte da Grécia. Com exclusividade, ela prestou um depoimento a este jornal contando essa experiência como voluntária nesse local efervescente na Grécia.
Estamos publicando na íntegra esse depoimento, como reconhecimento a esse trabalho de voluntário que vem sendo feito pela valorosa aquidauanense Eliana Araújo Maeda Caiazza.
Depoimento
Uma viagem para resgatar a infância no campo de refugiados no Norte da Grécia
Ao menos que você veja com os seus próprios olhos e sinta com a sua própria pele o que essas pessoas estão passando, vocês nunca vão compreender. A vida em um campo de refugiados é miserável.
Quando fui convidada a ir à Grécia em abril deste ano pela brasileira Alessandra Gabriel, professora das minhas duas meninas aqui no Brooklyn, NY, USA, eu fiquei muito feliz e lisonjeada. Fazer esse trabalho humanitário seria uma oportunidade de eu aprender a ser muito mais que mãe, esposa e amiga. Eu sabia que ia ser uma experiência intensa, triste e que eu não voltaria de lá a mesma pessoa. Por eu ser mãe de três filhos, eu tinha que fazer esse trabalho, pois o fato de ver crianças perdendo a infância e famílias sendo jogadas de um lugar para outro sem condições humanas de se viver é uma situação imensamente difícil de aceitar. Esse trabalho foi uma oportunidade de mostrar aos meus filhos sobre esse mundo de crianças tristes, famintas e sem brincar. As minhas crianças nasceram por sorte num local saudável, seguro e regado de muito amor e carinho. Acredito ser muito importante que meus filhos aprendam a ter amor ao próximo e o quão importante é ajudarmos uns aos outros, sermos solidários. É uma lembrança que eu quero deixar na memória deles.
Chegando lá no campo de refugiados, tudo foi do jeito que eu pensava, no entanto numa proporção bem maior. Esses refugiados já vinham passando por um trauma muito grande há alguns anos e, nesse contexto, crianças foram geradas em condições miseráveis, com bombas sendo detonadas à alguns metros de distância, a destruição total das suas casas e convivendo com a morte de pais e familiares.
Os refugiados foram parar no Campo de Refugiados EKO, pois foi onde o ônibus vindo de Atenas- Grécia, os deixaram, e para chegarem lá, eles tiveram de caminhar até a cidade de Idomeni, na borda com a Macedônia. No entanto, quando eles chegaram em EKO, que é um posto de gasolina na beira de uma rodovia, a borda foi fechada. Desde fevereiro deste ano esses refugiados ficaram morando em barracas. Alguns não tinham barracas quando lá chegaram e dormiram debaixo da chuva e frio. As condições de vida nesse campo eram de calamidade e sofriam muito mais quando as condições climáticas ficavam extremas. Nos dias de chuva a água entrava dentro da barraca, nos dias de vento a barraca se quebrava e nos dias de calor, impossível ficar dentro dela.
Durante a minha estadia lá, eu presenciei esses três tipos climáticos e realmente foi muito difícil. As pessoas ficavam estressadas e as crianças chorando o dia inteiro.
Alguns dos refugiados possuem dinheiro, o que os possibilitava comprar a própria comida, outros enfrentavam as filas de 1 hora para receber café da manhã, almoço e jantar. O banho quente custa 5 euros. Muitos só tomavam banho 1 vez por semana e os que não tinham dinheiro, era água fria até mesmo no inverno.
O nosso trabalho no campo de refugiados era para ser somente com as crianças, resgatando as brincadeiras simples feitos à mão. Com o intuito de fazer artes com as crianças, a meta era em contrapartida ter sessões terapêuticas com elas. O trauma em alguns delas estava tão enraizado que no fim da minha estadia de 7 dias, infelizmente não consegui quebrar a distância entre mim e algumas crianças. Isso requer muito mais tempo.
Durante o correr de uma semana, eu e a Alessandra brincamos com as crianças o dia inteiro. Vimos a transformação em algumas delas. Conseguimos quebrar a agitação e brigas entre elas. Nos primeiros dias foram muito difíceis e intensos, sentíamos que o nosso trabalho não estava rendendo e a nossa energia toda estava voltada em acalmá-los. À noite, quando voltávamos para o nosso hotel, ficávamos refletindo sobre o nosso dia. Era evidente que estávamos muito tristes com a situação dos refugiados. Mal conseguíamos dormir pensando nas crianças o tempo inteiro.
No segundo dia ganhamos um pouco da confiança das crianças e as atividades foram fluindo num ritmo legal e percebemos que elas precisavam de 5 minutos de um pouco de calma e atenção antes de iniciarmos as brincadeiras.
Embora o foco do nosso trabalho tenham sido as crianças, ficou claro para mim que conectar com os pais delas também era necessário. Eu percebi que os pais estavam em estado lastimável. O estresse constante da vida em barraca, vendo os dias passando sem poder oferecer uma vida saudável aos filhos. Muitas das famílias tinham uma vida estável no país de origem e atravessaram o mar da ilha de Lesbos até Atenas achando que iam encontrar uma vida melhor. Quando chegaram finalmente no posto de gasolina, ficaram complemente desamparados.
Durante a minha estadia neste campo EKO (localizado ao norte da Grécia), eu fiz muitas conexões com as crianças. Elas possuem uma carência imensa. Eu fiquei muito impressionada com o carinho que aquelas pessoas tiveram comigo. Embora os homens sejam mais reservados, no entanto demonstraram uma gratidão enorme. A hospitalidade deles é uma coisa que eu jamais esperava. Eles faziam questão de fazer um chá ou café para mim. E durante essa semana, eu tive que repetir vários cafés da manhã, almoço e jantar, pois recebia convites de muitas famílias ao mesmo tempo.
Quando chegou a hora de ir embora, eu percebi que a conexão que fizemos com as crianças e suas famílias tornou-se um começo de uma grande amizade.
Desde abril até agora em julho eu mantive contato com algumas famílias via WhatsApp e facebook e pude ajudar uma das famílias a morar num apartamento depois que o pai sofreu um derrame. As condições do campo mudam muito rápido. Num dia qualquer em junho, a polícia Grega local apareceu e disse para todos arrumarem as malas, pois aquele campo ia ser evacuado.
Os refugiados confusos e com um pouco de esperança de ir para um lugar melhor entraram no ônibus a caminho do campo militar. Fiquei desolada com a maneira que a evacuação foi feita. De Nova Iorque fiquei acompanhando com atenção as notícias pela mídia social e sofri muito vendo o campo EKO sendo destruído, uma comunidade cheia de esperança, escola e cozinha. Inúmeras horas de trabalhos voluntários independentes virando uma triste memória em uma hora de evacuação.
E, depois disso, decidi que era hora de voltar novamente à Grécia para rever as crianças e as condições do novo campo militar. Chegando no novo campo, a primeira impressão foi que pelo menos os refugiados estão protegidos contra o sol, frio e chuva; mas, o resto continua o mesmo, senão pior. Atualmente, são 10 galpões com 20 barracas em cada um deles. A Comunidade Kurda e Árabe foram separadas. Neste novo acampamento não há cozinha e nem escola. Fiquei imensamente triste. Se já não bastassem seis anos de Guerra, sem escola formal e sem segurança de onde eles vieram, aqui estão eles, mais uma vez, sendo jogados à mercê de voluntários independentes. Fui sozinha desta vez, então, para me infiltrar e me estabelecer dentro do campo foi uma tarefa difícil. Não pude fazer muito com as crianças, pois quando se faz qualquer atividade com elas, precisa-se de um pouco de infra-estrutura, caso contrário há muitas brigas entre as próprias crianças, tornando a brincadeira um pesadelo rodeado de choros e frustrações. Assim, resolvi visitar a escola não oficial que um voluntário da Espanha montou. A escola tem como teto um tecido de poliéster preto pendurado por um pedaço de madeira com a grade que cerca o campo. O chão é de lona. Quando eu me introduzi, imediatamente me convidaram para dar aula de Inglês 3 horas por dia. Eu aceitei a proposta com o intuito de cativar a atenção de algumas crianças e adultos. Fiquei tão feliz, pois eu conheci várias crianças com muita vontade de aprender, algum mal conseguiam escrever, outras se sentiam tão orgulhosas de poder ter copiado a lição da lousa. Com os adultos cujo Inglês é um pouco mais avançado, eu pude enfim conversar normalmente e foi uma oportunidade de conhecer sobre a cultura deles e as suas perspectivas da Guerra. Embora a sofrida fuga, eles sempre estão com sorriso no rosto e nutrem o sonho de um dia poder retornar à terra natal.
Embora eu não tenha brincado com as crianças do jeito que eu queria e havia planejado, porém, eu pude conhecê-las mais a fundo junto com os pais. Pude passar muito tempo nas barracas deles. Tirei fotos em câmera Polaroid que eu levei e fiquei comovida em ver a alegria deles em poderem segurar a própria imagem. Todos queriam uma foto e o brilho nos seus olhos vendo a própria imagem aparecer no papel foi muito bom.
Um dia presenciamos uns aviões militares voando ao redor do campo, e a reação das crianças foi assustadora, apontaram para o avião e disseram ?bomba?. Foi uma cena aterrorizante para eles, mas tentei consolá-los dizendo positivamente que tudo estava bem.
No último dia eu levei cinco crianças até um parquinho e restaurante. As cinco meninas ficaram muito felizes em poder sair do campo militar, que fica muito afastado da cidade. As meninas comeram pizza, tomaram limonada e depois picolé. No fim, foram muitos abraços, beijos e palavras de muito amor. As meninas estavam muito felizes em poderem sair do campo cercado de arame, como se vivessem numa jaula e poderem por uma hora brincarem soltas e sorrirem livremente.
Na hora de ir embora é sempre triste, mas agora eu percebo que daqui para frente o futuro deles está prestes a ser selado, pois em breve receberão o asilo que tanto procuram. A maioria deles quer ir para a Alemanha; mas, isso não é algo que será tão fácil de ser realizado.
O resgate da infância dessas crianças é muito importante para mim. Ficou muito claro que muito delas sabem ser crianças, embora haja o trauma. Muito delas querem brincar com o que acham pela frente. Outras precisam de um pouco mais de carinho e assistência, pois a camada de tristeza ainda está cravada na pele e olhar delas.
O objetivo agora é voltar em setembro e construir uma escola e um parquinho. Com fundos gerados por voluntários independentes desde abril, estamos confiantes que podemos ajudar uma criança por vez.
É muito importante frisar que com os recentes eventos de violência no mundo entre diferentes etnias, torna-se muito mais séria a questão de abordar a igualdade do ser humano. No entanto, é preciso que pensemos que, independentemente de cor, religião e costumes todos são seres humanos. Temos que ensinar às nossas crianças que somos todos iguais e que temos que cuidar um dos outros. E, através da brincadeira, isso é muito mais possível.
Eliana Araujo Maeda Caiazza
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