O último 20 de fevereiro, marcou o Dia Mundial da Justiça Social. Um dos assuntos lembrados em vários textos midiáticos foi a falta de acesso a moradia, drama crescente em todo o mundo. Milhões de pessoas, hoje, segundo estatísticas da ONU, vivem nas ruas. Isto fez com que a relatora especial do órgão para o direito de moradia, Leilani Farha, pedisse aos governos de todo o mundo que reconheçam o problema dos sem-teto como uma crise de direitos humanos.
Os chamados ?moradores de rua? podem ser encontrados por aqui, em Aquidauana, do outro lado da ponte, em Anastácio e qualquer município do país, enfim, no mundo todo. São a prova mais concreta da persistente desigualdade, distribuição de terra e a pobreza em escala global.
Em Aquidauana, o ponto de maior convergência deles é a região da Rodoviária. Por ali circula, todos os dias, por fazer parte de um itinerário diário de trabalho, o Seo Gerson Francisco de Lima, 50, buscando papelões, atividade que lhe rende uns trocados. ?Ganho, em média, de R$ 20 a 30 reais por dia. Parte reservo para a pensão de uma filha que tenho, de 9 anos, que reside em Campo Grande?, diz. Ele não quer ser visto como um estorvo para a sociedade, mas como alguém que luta para sobreviver.
Ao chegar a Aquidauana, há cerca de seis meses, o falante filho de Antônio João, terra que deixou assim que os pais morreram, lembra que construiu um barraco improvisado para morar. Depois de ser despejado deste espaço, construído com restos de material encontrado nas ruas, começou a usar o próprio carro de transporte dos papelões, cobrindo-o de lona, para dormir. E isto depois da uma hora da madrugada, quando termina uma jornada que começa, todos os dias, às 13 horas.
Seo Gerson é realista em relação aos seus limites. Não usa drogas, mas confessa que bebe uma ?cachacinha? de vez em quando. Também observa que não irá tão longe quanto Mário Batista da Cruz Júnior, 34, o morador de rua que surpreendeu a todos, recentemente, ao conseguir o segundo lugar no curso de administração da UFRN, Universidade Federal do Rio Grande do Norte. ?Quero uma vida melhor?, acentua. E para isto, precisa de ajuda. Uma empreendedora de Aquidauana, a empresária Rutinha, está fazendo sua parte, concedendo um espaço para ele se abrigar durante a noite e fornecendo o almoço diário. A água do dia a dia vem de uma mina, que passa por dentro da Energisa, cujo acesso é facilitado pela direção da empresa. Seu banho, ainda é feito por ali mesmo. Ainda, porque sua realidade deve mudar. ?Eu acredito!?, conclui.