Giovani José da Silva
Não, não nos enganemos!
Giovani José da Silva
Publicado em 05/10/2026 às 10:48
Atualizado em 07/10/2026 às 16:26
Não, não nos enganemos: somos filhos e filhas de um passado tenebroso, em que africanos e seus descendentes, além de indígenas, não eram considerados humanos. Juridicamente, a pessoa escravizada era uma “coisa” (res, no direito de origem romana) ou um “bem semovente” (uma propriedade com movimento próprio, comparável a um animal). Isso há pouco mais de um século! Ainda contra indígenas eram realizadas “guerras justas”, que nada tinham de “justas”, uma vez que apenas objetivavam destruir e pilhar essas populações, esbulhando-as. E o que dizer do modo como mulheres eram tratadas? E pobres livres? E tantas e tantas gentes que estariam fora de certo “padrão”? Ocorre que nessa longa e triste história de colonização e, depois, de dominação por elites predatórias (intelectuais, inclusive) não há “mocinhos” e “vilões”, há pessoas (más e boas, ao mesmo tempo). Como isso se tornou possível? Corre em nossas veias o sangue do capitão-do-mato, do senhor de engenho, do bandeirante preador de “índios” (outrora também chamados de “gentios”, “negros da terra” e “pagãos”), da Escrava Anastácia, do Zumbi dos Palmares e do Cacique Tibiriçá, também. Somos, independentemente de quaisquer polêmicas, “puras misturas” de gentes dominadas e dominadoras – devido à miscigenação – e é isso que nos torna uma sociedade extremamente heterogênea e desigual, além de complexa. O que fazer com essa metade de nós (sociedade) que insiste em clamar por justiça e igualdade, enquanto a outra metade quer vingança e a “lei de Gerson”? Como lidar com nossas mazelas, como a corrupção enraizada em nosso meio desde os primeiros anos de colonização? Como lidar com o fato de que muitos de nós só faz (ou finge que faz) a coisa certa diante de plateias, enquanto há outros que despudoradamente fazem o malfeito e o negam com veemência? O que fazer com 8,4 milhões de analfabetos, com 15 anos ou mais, e com as taxas de abandono/evasão escolar registradas país afora atualmente? Por que entra governo e sai governo e nossos índices de quem entra e sai da Educação Básica sabendo ler, escrever e contar, além de interpretar (textos/realidades) adequadamente, são tão risíveis? Temos muito a melhorar como coletividade, especialmente em um país que mantém um dos cenários mais concentrados do mundo, em distribuição de riqueza e patrimônio, onde os 10% mais ricos detêm cerca de 70% de todo o patrimônio nacional! É justo? É digno? Não, não é e nunca foi! Contudo, temos a TV a domesticar nossos sonhos, a anestesiar nossos ímpetos de mudança e, além dela, a internet a nos iludir de que há espaço para todos no pódio, que basta empreender, ter força de vontade e se esforçar que você consegue (SQN)! Há um longo caminho diante de nós a percorrer, cheio de obstáculos, repleto de dissabores e cercado por armadilhas. A maior delas talvez seja a incompreensão sobre o barro de que fomos/somos feitos, da mistura feita de estupro e de consentimento, da mescla dolorosa de dor e de amor, de violência e benevolência. E para não cairmos em binarismos vazios, lembremos que, além do cru (que representa o estado natural de um alimento, sem nenhuma intervenção humana ou cozimento e está associado ao polo da natureza) e do cozido (que representa o alimento transformado pela cultura, por meio do fogo e da técnica, simbolizando o domínio humano sobre o caos natural), há o podre (ou apodrecido): a transformação espontânea de um alimento pela própria natureza (em nosso caso, a humana). A questão a ser refletida e transformada em ações sociais por todos nós, gentes brasileiras, é: o que fazer com o apodrecido em nossas estranhas, depois de séculos de (des)mandos de quem ocupou a casa-grande, de subserviência de uns e anuência de outros, de cooptação e entreguismo de tantos, preocupados com o próprio pirão ao verificarem que há pouca farinha? Não, não nos enganemos!
Giovani José da Silva
Fronteira Oeste
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