Geralmente quando se trata as questões correlatas ao Golpe Militar de 1964 apenas os episódios de maior alcance são lembrados. A repressão política, contudo, teve desdobramentos em grande parte dos municípios brasileiros. No livro "Aquidauana, a baioneta, a toga e a utopia nos entremeios de uma pretensa revolução", o mestre Eudes Fernando Leite relata fatos ocorridos nesta cidade do interior de Mato Grosso do Sul, conhecida pela influência ao longo de décadas de uma forte oligarquia comandada por coronéis.
Eudes já lecionou na cadeira de história da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul do campus de Aquidauana e conseguiu reunir, a partir da história oral, documentos interessantes que comprovam que na unidade militar do municípío, em 1964, alguns presos soferam torturas de diversas formas (p. 80). Entre esses presos ele dedica especial atenção na obra de 105 páginas, ao professor Ênio Cabral, citado como único comunista assumido de um movimento de oposição formado por ferroviários, pescadores e professores.
A propósito da recente morte do ex-governador e ex-senador José Fragelli, a leitura ganha valor histórico relevante. Embora sendo um político que "facilmente poderia receber o rótulo de conservador e até reacionário, o advogado José Manoel Fontanillas Fragelli, paradoxalmente, fez a defesa de Ênio Cabral. Segundo o autor, Fragelli, "com certa sutileza, mas com segurança, avançou sobre a arbitrariedade. Ênio Cabral foi absolvido em janeiro de 1965.