Os grupos políticos se formam, se fortalecem, se digladiam, se revezam ou se perpetuam no poder público, muitas vezes (ou quase sempre) deixando de lado o verdadeiro motivo pelo qual detêm provisoriamente esse poder delegado pelo povo.
Dotados de sentimento hegemônico parecido com os de grupos radicais obcecados pelo poder doutrinário, como no âmbito religioso, onde o império divino é diabólico, a sanha do poder político partidário rasga facilmente a ética e quebra as regras do jogo para dominar o poder e o patrimônio públicos, chegando a consequências inimagináveis ao senso democrático.
Se o poder absoluto de seitas e igrejas está sempre próximo das inquisições, o poder popular tem se transformado em feudo pelo qual se praticam desde contraditórios juramentos eleitorais a crimes dos mais condenáveis pelas leis do céu e da terra. O que importa para os garroteadores do poder é que se acumulem força e domínio para alimentar o centralismo maniqueista de segmentos que se alternam no governo apenas pelo poder de mandar e barganhar.
Diferentemente da rotatividade de alternância viciada, na banca do jogo partidário que gera maléfica descontinuidade administrativa, a partilha de poder, pelo voto, refrigera a democracia porque descentraliza a força de mando e de decisão unilateral, cujo reacionarismo das forças antagônicas só tem sido nocivo ao bem comum.
Por esse motivo, por exemplo, é que a recente eleição do ex-prefeito de Aquidauana Felipe Orro (PDT), a deputado estadual, ao mesmo tempo em que não se nega a abalar interesses políticos do grupo adversário que o sucedeu, significa, sobretudo, para a sociedade aquidauanense, um benefício representado pelo sábio partilhamento do poder. Pouco importa ao cidadão comum se este fato provoca sentimentos banais de desforra por vitória ou derrota de grupos político-partidários.
Com a experiência adquirida no poder legislativo, como vereador e presidente da câmara e oito anos de chefia do poder executivo aquidauanense, o advogado Felipe Orro resgata para o município a mais genuina representatividade parlamentar estadual da região, que até bem pouco tempo estava nas mãos do seu genitor, agora aposentado deputado Roberto Orro, cuja probidade é tida como singular pelos arautos da lei e da justiça ao longo de seis mandatos.
A despeito do valioso trabalho de outros parlamentares que se esforçam por apoiar Aquidauana, a voz do deputado local tende, naturalmente, a soar mais alto em defesa dos interesses do município. Não para correr o risco de ser uma voz solitária, mas para catalisar essas outras vozes que se unem em coro no parlamento que representa todo o Estado.
Por isso, doravante a convivência institucional conduzirá prefeito, vereadores e o deputado eleito ao entendimento pela representatividade compartilhada, sobrepujando diferenças intestinais que só interessam às pelejas de grupos e não à sociedade, que é dona absoluta de ambos os poderes.
Assim, na mesma mesa do diálogo imperativo e inteligente estarão o prefeito Fauzi Suleiman (armado apenas das ideias que o levaram a comandar os destinos de Aquidauana) e o deputado Felipe Orro, sob a mesma fé pública, como manda a democracia, em busca do entendimento gestor a que ambos se obrigam pela força do mesmo sufrágio popular.
As urnas foram generosas com Fauzi e agora com Felipe, sinalizando que logo a caravana cívica passará com eles, em assentos diferentes, mas na mesma estrada, segura e veloz, porque o tempo urge que se tenha juízo e pressa.
E enquanto isso, certamente, dominados pela loucura endógena, muitos cães haverão de ladrar, confusos, raivosos e perdidos na poeira, querendo, em vão, morder as rodas do progresso.