Sorriso fácil e expressão firme, sem sinais aparentes de cansaço. O olhar e a voz revelam bastante disposição e uma paixão incrível pelo esporte. Assim é o cicloturista José Nilton Brito, de 54 anos, que chegou a Aquidauana, neste domingo (30), e ficou encantado com a receptividade da população pantaneira.
Para quem não conhece, cicloturismo é uma modalidade que consiste em viajar utilizando uma bicicleta como meio de transporte.
Nascido em Cupira, no Pernambuco, José mora em Xinguara, no Pará, há 23 anos. Ele diz que a paixão pelo esporte o acompanha desde os tempos de criança. Porém, o interesse pelo cicloturismo começou no fim dos anos 80, quando, durante uma conversa com a mulher, revelou o interesse em viajar de bicicleta pelo Brasil. Desde então, José começou a pedalar, de forma amadora, e não parou mais. No entanto, conciliava o esporte com o trabalho de supervisor de qualidade no setor de metalurgia.
A partir de 2009, começou a se dedicar, exclusivamente, ao cicloturismo. Naquele ano, nasceu o objetivo de pedalar 40 mil quilômetros pelo país inteiro. "A cultura brasileira é rica demais, sou apaixonado pelas belezas naturais do nosso país. Por isso, não me preocupei em visitar outros países, o nosso vale por um continente", explica.
A trajetória começou após uma viagem de ônibus de Xinguara até Palmas, no Tocantins, no dia 16 de junho de 2009. Com R$ 9.000,00 no bolso, ele pensou que estava preparado para sua aventura de bicicleta. Não estava.
Resumindo, o dinheiro acabou logo no começo, mas a solidariedade das pessoas fez com que José mantivesse vivo seu objetivo. "Fico impressionado com a solidariedade do povo brasileiro, recebo ajuda em todos os lugares que visito, seja com moedinhas, comida, garrafas de água".
Com essa ajuda, o trajeto percorrido por José aumenta cada vez mais e inclui diversos estados brasileiros: Pará, Amapá, Amazonas, Roraima, Rondônia, Acre, Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, além do Distrito Federal. Em janeiro de 2011, José chegou a Mato Grosso do Sul, onde já passou por Três Lagoas, Águas Claras, Ribas do Rio Pardo, Campo Grande e Aquidauana.
Atualmente, o medidor de quilometragem acoplado na bicicleta já registra quase 15 mil quilômetros percorridos. Entre ferramentas, livros, acessórios pessoais e até um rádio e uma bandeira do Brasil, o cicloturista carrega mais de 35 quilos na bicicleta. Porém, ressalta que, para quem deseja aderir à prática, mais do que o preparo físico, é preciso ter controle mental.
Em um ano e seis meses pedalando, são muitos "causos" para contar. Casado e pai de três filhos, José foi informado, em plena viagem, sobre o nascimento do neto dele. "Ele nasceu em Xinguara, onde moro com minha mulher e meus filhos. Lembro que estava na estrada, tranquilo, quando minha mãe ligou no celular e falou que meu netinho tinha nascido. Sorte que o celular estava com sinal, foi uma emoção muito grande".
O cicloturista ainda não conheceu o neto, hoje com um ano e dois meses, mas diz que não vê a hora de encontrá-lo.
Enquanto esse momento não chega, ele segue pedalando e conhecendo mais histórias do nosso país. "Posso citar o dia em que visitei a Ilha de Marajó, fiquei impressionado com os meninos que habitam o local, são crianças muito desnutridas. Até hoje, lembro da felicidade delas quando o navio com alimentos chegava".
Outra dessas histórias, inclusive, envolve o município de Aquidauana, como ele faz questão de ressaltar. "Fiquei sabendo que o Batalhão Carlos Camisão foi um dos que enviou soldados para a Segunda Guerra Mundial, esse é um fato muito importante para a nossa história. Não vejo a hora de conhecê-lo", entusiasma-se.
Por sinal, são todas essas histórias, somadas à paixão pela natureza, que motivam José a continuar praticando cicloturismo. "O cicloturismo me enriquece muito intelectualmente. Conheço pessoas e culturas diferentes, tenho contato com a natureza".
Todas as aventuras são anotadas numa espécie de diário, onde já é possível constatar várias páginas sobre Aquidauana. "Gostei muito do pessoal daqui e aproveito para agradecer a todos. Espero voltar um dia", finaliza. Até lá, é claro, José espera já ter conhecido o seu neto, que também deve estar muito ansioso para conhecer o avô aventureiro.