Num ano de eleições municipais, precisamos fazer uma reflexão honesta sobre o ofício de prefeito. Talvez muitos que postulem o cobiçado cargo pensariam duas vezes antes de fazê-lo.
Ser prefeito não é padecer no paraíso, a não ser o fiscal, como acontece com aqueles que metem a mão no erário público. Certamente não vale a pena, pois quando a justiça humana não pune, deve ser horrível conviver com os verdugos da alma, lembrando-os, sempre, das ilicitudes praticadas.
Ser prefeito é sofrer sempre. A não ser que a intenção de administrar não seja a única que deve permear sua práxis, que é a de ser instrumento para o bem público.
Prefeito que é prefeito deve sofrer com os limites que são impostos para a arte do bem governar. Nossa cultura política impõe necessidades perversas, como a de fazer acordos e alianças - muitas das quais espúrias ? e de conviver permanentemente com um dilema: nunca conseguir agradar, até por isto, a todos.
Prefeito que é prefeito, especialmente em cidades onde há muito que se fazer, como a nossa, deve sofrer ? e muito - com as permanentes cobranças de coisas que nenhum deles conseguirá fazer satisfatoriamente. Pode, por exemplo, um gestor público resolver ?todos? os problemas de áreas como saúde, moradia, saneamento básico, etc? Infelizmente, não. No futuro, quando o próprio país avançar nessas áreas, sim. Mas, prevalece mesmo diante de um contexto global complexo, no imaginário popular, a sensação de que surgirá alguém, de repente, que poderá fazê-lo, ainda no tempo que se chama hoje.
Como nenhum personagem deste cenário é super homem, quase todos acabam sendo vítimas deste equívoco perverso. Vistos erroneamente como salvadores da Pátria, alguns até por conta dos discursos ufanistas que fazem em tempos eleitorais (é ?preciso? que seja assim), são facilmente descartáveis quando não correspondem a esse ideal. Assim, só prevalecem aqueles que entendem e aceitam a malignidade deste jogo cruel e reprovável e um ou outro iluminado, algo raro, que consegue se impor sem se expor.
Difícil, neste cenário da vida política, saber quem é mais responsável por seus devaneios. Mas, os que escolhem seus munícipes certamente tem parcela de responsabilidade, pela irresponsabilidade tanto no ato de escolher como nos julgamentos que fazem, fruto de leituras inconsistentes da história.
Os formadores de opinião também têm sua parcela de responsabilidade. Em parte são eles que fomentam essas leituras. Movidos por interesses reprováveis, muitos esquecem o sagrado dever de não extrapolarem os limites da verdade. Assim, abusam da liberdade de opinião, conquistada com extremo sacrifício.
É neste cenário que um prefeito tem suas piores dores, principalmente se for honesto. Sobreviver é sinônimo de negociar com eleitores instáveis (fisiologismo) e com ?formadores de opinião?, alguns conhecidos como ?jabazeiros?.
Mas, há um consolo para os que resolvem não ceder a esses ritos malditos. A massa de eleitores instáveis tem memória curta. Existem aqueles que se arrependem de seus maus caminhos. No caso dos ?formadores de opinião? existe o próprio fato de alguns deles não terem o crédito necessário para influenciar mesmo aqueles que são massa de manobra.