Levada por Justina a rever uma filha, com a qual havia perdido contato há quase 12 anos, Dona Margarida foi recebida com festa em sua casa, num bairro popular de Fortaleza, no Ceará. Depois de beijos, abraços e uma boa soneca para refazer o cansaço da viagem, começaram a colocar a prosa em dia. Em meio a tantas perguntas, uma foi inevitável: ?E como está Aquidauana, mamãe??
A anciã se ajeitou na cadeira de fios e começou a falar da cidade que Alzira deixou, na mesma época que deixara a mãe, por conta de um problema familiar. Com a voz embargada, parando algumas vezes por conta de um problema de garganta, não poupou críticas ao novo prefeito, referindo-se a Fauzi como ?o turco?: ?Olha, a cidade está abandonada. Desde que esse turco assumiu a prefeitura só ouço reclamações. Dizem até que ele vai entrar para a história como um dos piores prefeito da cidade. Penso que seus dias na prefeitura estão contados, pois certamente não vai se reeleger. Nem para vereador, segundo o locutor da Rádio?.
Depois de um breve silêncio, Alzira indagou por Justina: ?Mas, é isto mesmo?? Justina, depois de balançar a cabeça como quem não concorda com o que acabou de ouvir, abriu um leve sorriso e perguntou? ?Você está com tempo?? Diante da resposta afirmativa, e de uma Alzira surpresa, fez o seu relato.
Na verdade conheci Dona Margarida há pouco tempo, ao participar de uma ação comunitária no Bairro em que ela está morando. Fiquei estarrecida ao descobrir que ela se manteve praticamente reclusa, nos últimos anos, primeiro num quarto cedido por uma senhora. E hoje onde mora. Neste período sua saúde mental complicou-se e ela praticamente desistiu de viver. Não fosse a bondade e paciência desta bondosa senhora, ela praticamente não estaria mais viva. Por isto resolvi descobrir aonde se encontraria a filha que ela teria expulsado de casa, quando soube que estava grávida. Nos seus momentos de lucidez costumava a dizer que desejava reencontrá-la, até para pedir perdão.
Enquanto terminava seu relato, Justina percebeu que uma lágrima rolava pelo rosto de Alzira. Principalmente quando soube que neste período sua mãe também perdera a visão. Durante todo este tempo teve como única companhia um radinho de pilha, que nos últimos anos só pegava uma emissora de Rádio da cidade. Curiosa com a revelação perguntou ?que emissora?. Alzira esquivou-se em dizer, mas foi taxativa: ?pena que sua mãe não possa ver o que hoje está sendo feito em Aquidauana. Ela inclusive mora numa das mais de quinhentas residências construídas nos últimos meses no município. Continua sendo cuidada pela ex-vizinha que fez um propósito para preservar a amizade: não discutir política com Dona Margarida.
Até por sua aversão ao turco e amor ao tal locutor de Rádio, Alzira deixou de levá-la na Estação de Trem, hoje totalmente remodelada, quando outro dia foi indagada se o projeto do Trem do Pantanal foi em frente. Embora não possa mais ver ? e ficaria surpresa se pudesse ? pensou em atender ao seu pedido, num dos festivos sábados em que o veículo chegou em Aquidauana. Ela ouviria, certamente, seu apito, o barulho do movimento e se surpreenderia com o que poderia comer por lá mesmo. Mas, resolveu ?deixar prá lá?.
Em tempo: dona Margarida está caducando. Outro dia Justina a flagrou-a com o rosário na mão repetindo uma única frase, durante minutos: O Fauzi não vai ser candidato. O Fauzi não vai ser candidato! Essa Dona Margarida....