No saguão do Hotel Portal Pantaneiro, logo cedo, as duas surgem animadas, com sorrisos no rosto e expressões de quem tem muita história pra contar. "Bom dia, tudo bem?", dizem, quase em uníssono. A primeira pergunta já estava respondida, embora nem as entrevistadas tivessem se dado conta. A conversa seria em português, e por vontade delas, demonstrando que o aprendizado se mantinha vivo e firme, após mais de quatro décadas.
As amigas Leslie Thorkelson e Nancy Sullivan viveram no Brasil durante dois anos, de 1966 a 1968, como membros de um programa americano denominado ?Peace Corps? (Corpo da Paz). A primeira morou em Aquidauana, enquanto a segunda residiu em Bela Vista, na época do antigo Mato Grosso uno.
O trabalho voluntário consistia em trazer universitários norte-americanos para levar orientações para a população de países em desenvolvimento. Após um período de treinamento na Universidade do Texas, Leslie e Nancy vieram juntamente com mais 12 pessoas para o antigo Mato Grosso.
Segundo Leslie, tanto ela, quanto a amiga atuavam na área da saúde, transmitindo ensinamentos sobre higiene pessoal e nutrição, por exemplo. "Tive a oportunidade de ajudar várias famílias aquidauanenses. Eu morei junto com a família Godoy, era uma casa que ficava naquela rua da entrada da cidade (Teodoro Rondon)", recorda. Durante dois anos, Leslie trabalhou em um antigo posto de saúde, que ficava localizado perto do Museu Pantaneiro.
Nancy destaca que, no período em que trabalhou voluntariamente em Bela Vista, teve a oportunidade de ensinar e aprender, no que define como troca de experiências. "O nosso trabalho era visitar as casas e ensinar, em especial às mães, sobre cuidados básicos de limpeza e higiene. Foi uma época em que também aprendemos muito, e falar português é um exemplo".
Matando a saudade
Há dois anos, Nancy conversou com Leslie e perguntou se a amiga não estava interessada em visitar as cidades onde trabalharam como voluntárias. Se houve um segundo de diferença entre o convite e a resposta, foi muito.
"Sempre que ouvimos músicas de samba, bossa nova, lembramos do Brasil. Nada melhor do que voltar e matar a saudade, afinal, consideramos este o nosso segundo país", garante Leslie, que, em pouco tempo em Aquidauana, destaca as mudanças que percebeu na cidade. "A cidade está maior e mais bonita, agora são duas pontes de entrada e tem mais postos de saúde".
Ela segue firme em busca de informações sobre as pessoas com quem trabalhou em Aquidauana. Até o momento, não teve a chance de conversar com ninguém daquela época, mas nem pensa em desistir. ?No posto de saúde, trabalhei com uma mulher chamada Edna Gomes e fiquei sabendo que ela atualmente é professora, em Campo Grande. Seria muito importante falar com ela, que me ajudou tanto?, emociona-se Leslie.
Mato Grosso...do Sul
A esperança de encontrar Edna segue viva. Após deixarem Aquidauana, as amigas seguem viagem para Bela Vista, onde será a vez de Nancy matar as saudades, e depois Campo Grande. Elas disseram que ficam até sábado (20) em Mato Grosso do Sul. Por sua vez, o nome do estado é o momento em que as entrevistadas assumem o papel de jornalistas, questionando quando houve a divisão, os motivos e se há rivalidade entre o ?norte e o sul?.
Tudo era devidamente anotado em uma agenda. Inclusive a informação de que, no próprio Brasil, muitos ignoram a divisão e economizam cinco letras na hora de se referir a Mato Grosso do Sul. ?Nossa, mas isso realmente acontece por aqui? Bom saber, para podermos ajudar a divulgar o nome certo?, surpreende-se Nancy.
E divulgar não será problema, já que a dupla demonstra jeito cativante, olhar firme e uma facilidade incrível para conversar sobre qualquer assunto. ?Não sei até quando vamos ficar no Brasil, mas queremos conhecer mais esse povo, fazer amigos e treinar o nosso português. Afinal, vivemos dois anos aqui e gostamos muito do povo de Mato Grosso do Sul?, completa Nancy, mostrando que o nome correto do estado já está na ponta da língua.