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Aquidauana

Após suicídio do pai, mulher acusa médico de descaso

Roseli diz que faltou reconhecimento por parte dos Correios com o funcionário mais antigo da agência em Aquidauana

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Após sofrer com a notícia da morte do pai, Anatázio Machado, Roseli Serpa Machado diz que a forma como o pai dela foi tratado pelo médico do trabalho dos Correios foi o principal motivo para a depressão do carteiro. Funcionário mais antigo dos Correios de Aquidauana, ele tinha 70 anos e cometeu suicídio na manhã da última segunda-feira, 18, com um disparo de arma calibre 38 na cabeça.
 
Roseli mora em Miranda, a 65 quilômetros de Aquidauana, e disse que recebeu a notícia alguns minutos após o trágico acontecimento, pela mãe dela, que ouviu o barulho do disparo e correu até o quarto para socorrer Atanázio. Ela acredita que o afastamento do trabalho foi o principal motivo para agravar a tristeza do pai, esclarecendo que ele não tinha nenhum câncer na cabeça, como alguns comentários que surgiram na cidade deixaram a entender.
 
Em novembro do ano passado, o carteiro precisou ser submetido a um cateterismo, em Campo Grande, razão pela qual precisou ser afastado. Depois de três meses, em fevereiro deste ano, ele foi considerado apto a trabalhar em 'serviços leves', conforme laudo assinado por um médico especialista da Capital. Porém, segundo Roseli, o médico do trabalho dos Correios contestou o laudo e disse que o pai dela deveria 'parar definitivamente de trabalhar'.
 
"Logo que meu pai conseguiu o laudo do especialista, nós viemos até a agência dos Correios de Aquidauana, mas recebemos a informação de era preciso a autorização do médico trabalhista, em Campo Grande. Lá, esse médico nos disse que não há serviço leve dentro dos Correios e disse que era melhor ele se afastar do trabalho", conta ela.
Atanázio tinha mais de 44 anos de serviços prestados na agência de Aquidauana. Roseli diz que ela e o pai, com base no laudo, contestaram a decisão do médico e justificaram dizendo que o carteiro não queria ficar parado. A resposta do médico, diz ela, veio cheia de ironia.
 
?Ele simplesmente respondeu que, como meu pai não queria ficar parado, deveria comprar uma esteira e que deveria procurar o que fazer em casa e não na empresa. O que esse médico não entendeu é que [Atanázio] gostava muito do que fazia, tudo que queria era simplesmente se sentir útil e fazer aquilo que mais lhe satisfazia?.

"Quando colocamos para o médico que o meu pai faria serviços leves no trabalho, como carimbar cartas, ele me respondeu que meu pai era carteiro e o serviço de um carteiro era em cima de uma bicicleta entregando cartas na rua", relata Roseli.
 
Depressão
 
Para Roseli, faltou reconhecimento por parte da empresa justamente com o funcionário mais antigo da agência em Aquidauana. O carteiro passou a ter problemas de pressão alta e de visão, vindo a sofrer, posteriormente, com depressão.
 
?Tenho bom senso, não vou ficar falando o nome do médico, apenas quero que as famílias de outros funcionários não sofram com atitudes como essa. Se os Correios tivessem tratado ele com carinho, como se espera que façam com alguém que trabalhou lá por tanto tempo, tudo isso poderia ser evitado?, lamenta ela.
 
No total, o carteiro tinha oito filhos.  Estava próximo de completar 71 anos e tinha planos de pintar a sua casa, no Bairro Alto, nas cores amarelo e azul, justamente para homenagear a empresa onde trabalhava. Sem motivação, a depressão dele se agravou e culminou com a decisão de tirar a própria vida.
 
Na manhã de segunda-feira, logo após o café, a esposa de Atanázio avisou que iria preparar os remédios dele e apenas teve tempo de ouvir um ?chega de ser inútil?. Não houve tempo para mais nada, e o próximo barulho foi o do disparo que atravessou o ouvido direito do carteiro e o fez ter grande perda de massa encefálica. Atanázio chegou a ser internado no Hospital Regional de Aquidauana, mas morreu por volta das 11 horas da manhã.
 
A notícia da homenagem feita pela Sintect-MS (Sindicato dos Trabalhadores nos Correios, Telégrafos e Similares), segundo Roseli, é irrelevante, diante da maneira como o pai dela foi tratado pelos Correios. Ela diz que, no dia da morte do pai, a empresa se disponibilizou a oferecer um psicólogo para a família, mas, até o momento, não foi mais procurada por ninguém. ?Acho que tudo o que eles [Correios] queriam era que o meu pai pedisse afastamento e saísse sem receber nada. Se era isso, conseguiram?, acusa.
 
Ela diz que entrou em contato com a empresa, para contar toda a situação, mas foi informada que de nada mais poderia ser feito, pois era a palavra dela contra a do médico. ?Tenho todos os papéis da ressonância, eu tenho, sim, como posso provar a veracidade de tudo o que estou dizendo".

Outro lado

A reportagem do site O Pantaneiro conseguiu retorno da assessoria dos Correios, que enviou a versão da empresa para o caso. Confira, na íntegra, a nota oficial.

Os Correios em Mato Grosso do Sul informam que receberam com pesar as notícias sobre o ocorrido com o Sr. Atanázio Machado, empregado desta empresa desde 1º de agosto de 1968, e têm a esclarecer que:
 
- O Sr. Atanázio Machado encontrava-se aposentado pelo Instituto Nacional do Seguro Social desde 2003,  mas como outros empregados dos Correios, continuou em atividade, conforme amparo legal. Recentemente fez uma cirurgia delicada, devido a qual  recebeu atestado médico para afastamento de suas atividades profissionais, com o fim de lhe garantir a saúde e tranquila recuperação.
 
 - Os Correios atendem ainda ao que prevê a legislação correlata Lei 10.7441/2003 ? Estatuto do Idoso, em seu Capítulo VI - Da Profissionalização e do Trabalho - "O idoso tem direito ao exercício de atividade profissional, respeitadas suas condições físicas, intelectuais e psíquicas". A empresa mantém profissional habilitado para assegurar que o empregado afastado por motivos de saúde retorne ao trabalho de forma que possa desempenhar suas funções sem, no entanto, causar prejuízos à sua saúde e bem estar.  No caso do senhor Atanázio, segundo avaliação do médico do trabalho da empresa, mesmo realizando atividades mais leves e compatíveis com sua idade, suas atuais condições de saúde não permitiam que cumprisse sua jornada diária de 8h de serviço. 
  
 - Os Correios oferecem plano de saúde próprio com ampla cobertura para seus empregados, e as despesas médicas são custeadas por este plano.

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