X
Aquidauana

Criador do projeto Adote 1 Atleta, Claudio Alviço diz que ?a ficha ainda não caiu?

Projeto se tornou conhecido nacionalmente através do quadro Um Por Todos e Todos por Um, do Caldeirão do Huck

Compartilhe:

A-

A+

"Eu não vejo como um ato heroico, o basquete é algo que sempre gostei de fazer. Eu considero como um programa social que veio para unir o útil ao agradável". A frase ganha forma assim, de forma simples, unida a um olhar firme e confiante, embora ele próprio diga que a ficha ainda não tenha caído. Compreensível, afinal, foram muitos acontecimentos em um curto período de tempo. Além disso, a análise define perfeitamente a grande paixão que nutre pelo esporte.
 
Em menos de 20 dias, um reconhecimento por um trabalho de seis anos. Claudio dos Reis Alviço, 37 anos, natural de Aquidauana, criador do projeto "Adote 1 Atleta", diz que o programa social tem o nascimento datado de setembro de 2009, antes dos Jogos da Primavera daquele ano. Agente penitenciário, ele precisava revistar todas as crianças que iam visitar os pais ou outros parentes no presídio. Ao perceber o medo que elas demonstravam no olhar, por conta de seu trabalho, decidiu que aquilo deveria mudar. Foi assim que surgiu o "Adote 1 Atleta", para ele se aproximar dos filhos dos detentos e incentivar a prática do basquete.
 
Os treinos sempre aconteceram na antiga quadra da Escola Modelo, no Centro da cidade, além de jogos todas às sextas-feiras na Avenida Pantaneta, onde o agente penitenciário sempre se encarregou de levar os equipamentos de som, as tabelas de basquetes, as bolas e demais artigos necessários para a realização dos jogos. 
 
A história se tornou conhecida nacionalmente no sábado, 22 de novembro, ao ser exibida no programa Caldeirão do Huck, da Rede Globo. Luciano Huck ficou sabendo do projeto por meio do casal Eduardo e Iara, os "Caçadores de Bons Exemplos", que conheceram Claudio no dia 08 de fevereiro deste ano. Eles já haviam participado de um quadro e, encantados com a ação desenvolvida em Aquidauana, entraram em contato com o apresentador.
 
Na manhã do dia 17 de outubro, uma sexta-feira típica de calor na cidade pantaneira, distante 138 quilômetros de Campo Grande, o apresentador anunciou que o "Adote 1 Atleta" foi selecionado para o quadro "Um Por Todos e Todos Por Um". Desde então, a rotina mudou. Enquanto a equipe de produção do programa se encarregava dos detalhes, o agente penitenciário foi mantido longe da cidade, sem ter a mínima ideia de tudo o que estava acontecendo na terra natal. Viagens pelo Rio de Janeiro, Estados Unidos, uma partida ao vivo da NBA, contato com artistas e atletas. O grande presente veio em 06 de novembro, dia em que Claudio voltou para a cidade e recebeu de Luciano Huck a sede própria do projeto.
 
Em entrevista exclusiva ao O Pantaneiro, o aquidauanense fala um pouco sobre o que viveu ao longo desses dias. Entre outros assuntos, ele conta que não critica as pessoas que não conheciam o seu trabalho, pois ele mesmo demorou a entender o que estava acontecendo na cidade. A rotina também mudou, tanto que ele iria deu o primeiro treino na nova quadra apenas na semana passada, no dia em que conversou com a reportagem.
 
O Pantaneiro: Claudio, a ficha de tudo o que está acontecendo já caiu?
Claudio dos Reis Alviço: Ainda não caiu, não dá para ter a dimensão do que é a televisão, a comunicação, é um alcance gigante. Não é apenas aqui no Brasil, eu tenho recebido contato de muita gente de outros países, do Uruguai, da Argentina.
 
Como foi a primeira vez que você viu o Luciano Huck pessoalmente e soube da escolha para o quadro?
Não tem nem como descrever com palavras, pois conhecer o Luciano era uma coisa que eu achava tão difícil de acontecer. Meus familiares, as pessoas próximas, todos também demoraram a entender o que estava acontecendo.
 
Foi tudo muito rápido, não?
Sim, pois os meus sonhos foram realizados em menos de 20 dias. Meu sonho de criança não era ir para a Disneylândia, era assistir um jogo de basquete da NBA e ter um lugar para treinar com os meus alunos.
 
O Luciano ficou sabendo de sua história por meio dos Caçadores de Bons Exemplos. Como foi a participação deles em tudo isso?
Eles são incríveis, me visitaram no dia 08 de fevereiro e gravaram um vídeo na minha casa. Disseram que era para uma empresa de energéticos, uma mentira saudável (risos). Como o Eduardo e a Yara já haviam participado de um quadro no Caldeirão, enviaram o vídeo para o Luciano Huck, que há muito tempo queria gravar algo em Mato Grosso do Sul. Ele logo se identificou com a história.
 
O que aconteceu após aquele primeiro dia em que você encontrou o Luciano?
A primeira providência da produção foi me levar para um cartório, para definir os assuntos de viagem. Eu não deveria conceder entrevistas e nem contar o que estava acontecendo, até peço desculpas para a imprensa. Recebi ligações de todo o Estado, mas não podia falar nada. A produção justificou, eles me falavam "esperamos que você entenda que é para ser uma surpresa". Não olhei nada, nem na internet, minha família também não contava nada sobre o projeto, pois queríamos respeitar o trabalho da produção.
 
Durante o período em que você ficou fora, os alunos do "Adote 1 Atleta" receberam a visita de ninguém menos que Oscar Schmidt, na quadra da Modelo. Durante a viagem, nem chegou a ficar sabendo disso, então?
Fiquei sabendo da visita do Oscar quando eu estava viajando para os Estados Unidos, foi simplesmente emocionante. Eu chorei, como sempre (risos). Foi tudo muito espontâneo, o Oscar estava preocupado se ele seria reconhecido, entrou na quadra, e todos os alunos vieram batendo palmas em direção a ele.
 
Ele é um dos seus ídolos?
Tenho o Oscar como uma das grandes referências do basquete, assim como a Hortência, que também participou do quadro com o projeto. Entre os estrangeiros, cito o Magic Johson, por toda a sua história, por ser portador do vírus HIV.
 
Falar em Magic Johson é falar em NBA. Como foi realizar o seu sonho de criança de assistir a uma partida ao vivo do Cleveland, de LeBron James e Varejão?
Os jogos são um espetáculo, shows de luzes, espetáculos, mascotes. Sem contar as teamleaders (animadoras de torcida), que eu quero trazer para o projeto também. O mais legal foi que o jogo caiu em uma véspera de feriado, o Dia dos Veteranos, que lembra os combatentes de guerra. Não foi apenas um jogo de basquete, foi uma lição de cidadania. Os norte-americanos têm todo o cuidado de reverenciar todos que, de alguma forma, fizeram parte da história. As crianças, desde cedo, aprendem lições como não jogar lixo na rua, atravessar na faixa, mesmo que tenham que dar uma volta na quadra para isso. São outros exemplos que também trago para os alunos do "Adote 1 Atleta".
 
Quanto tempo você ficou nos Estados Unidos?
Foram três dias em que fui muito bem tratado pela equipe do programa - Alexsander Akira, Amadeu (Biba) e Rafael.
 
E o encontro com o Anderson Varejão?
Em minha cabeça, eu iria encontrá-lo depois do jogo. Mas começou a demorar muito, fui ficando frustrado, até que a produção fez uma brincadeira comigo. O Amadeu me pediu para esperar em uma loja onde não havia ninguém, de repente foram chegando uns seguranças e eu tive que arranhar frases em inglês que nem sei se falei certo "I'm lost, my friend", "I do not speak English" (risos). Pouco tempo depois o Amadeu chegou rindo de mim, não falou nada do Varejão, apenas que eu visitaria todas as instalações do ginásio no dia seguinte. Pela manhã, conheci todos os setores, saí da quadra como se eu tivesse jogado, fui aos vestiários e vi os tênis usados pelo LeBron James e pelo Varejão, que chegou de surpresa, como vocês puderam ver.
 
Sobre o que vocês conversaram?
Ele disse que gostou de mim pra caramba e me convidou para conhecer o CT do Cleveland Cavaliers, que fica a uns 30 minutos da cidade. No outro dia, quando eu cheguei, o Varejão já estava treinando, mas ele teve o cuidado de ir até a casa dele antes e tinha deixado no CT 30 camisetas, bonés, tudo autografado. Depois, agradeceu minha amizade e disse que virá para Aquidauana em breve, para conhecer o projeto pessoalmente. Ainda brinquei que aqui não haveria camas do tamanho dele (risos). Eu já conhecia o João Marcelo, técnico que descobriu o Varejão, de um curso que participei em Campo Grande. Falei, inclusive, para o Varejão vir junto com o João Marcelo.
 
Como foi o dia do retorno para Aquidauana?
Um dia antes, eu fiquei hospedado em um hotel de Campo Grande. No dia da entrega me deixaram no Fênix Plaza Hotel, em Anastácio, e de lá viemos de van para a sede do projeto. Ficamos quase duas horas esperando dentro do carro, mas valeu à pena.
 
A produção pensou em cada detalhe da quadra, e isso te emocionou bastante.
São, realmente, muitos detalhes. Com a quadra, os adesivos, os equipamentos, o nome do time, por isso a emoção. Minha filha sempre diz "pai, você não vai chorar de novo, né?". O carinho das pessoas também é emocionante, eu tento responder a todo mundo através do facebook, mas são muitas mensagens, muitas solicitações. Não costumo ser muito plugado com a internet, mas, com tudo o que vem acontecendo, eu tenho que estar mais conectado. Nunca imaginei tudo isso. 
 
O que dizer sobre o trabalho da produção do programa?
A produção do Luciano é sensacional, ele também é um cara fantástico. Me tornei amigo de toda a equipe, nosso projeto foi o primeiro em que a produção do programa ficou mais um dia na cidade e confraternizou conosco. Eles querem voltar para a cidade, e isso aumenta minha responsabilidade. Quero ajudar para que Aquidauana cresça não apenas em tamanho, mas de um jeito que os olhos não veem.
 
E a escolha do Bairro Nova Aquidauana para a construção da sede?
Desde o começo, sempre acreditei que tem que ser lá. Depois daquele episódio que aconteceu com o filho do detento no presídio, falei para mim mesmo que precisava ir até o Bairro Nova Aquidauana para saber como essas crianças vivem. Fui lá e vi que muitas não comiam direito, não estavam indo para a escola. Por isso, não critico os comentários de que só conheceram o projeto "Adote 1 Atleta" depois da visita do Luciano. Essa situação do Bairro Nova Aquidauana estava acontecendo diante dos meus olhos e eu mesmo demorei pra entender.
 
Agora, com a construção da sede própria, como está a sua expectativa para o futuro do projeto? Já recebeu contato de pessoas interessadas em ajudar?
Continuamos precisando de ajuda financeira. Antes eu tinha uma bicicleta, agora tenho uma Ferrari. Mas é preciso lembrar que também há muitos custos para que uma Ferrari ande. Ainda não recebi contato de ninguém, nós teremos de ir ao comércio para pedir ajuda. Queremos atender 250 crianças, muitas pessoas querem se inscrever, mas precisamos organizar uma estrutura para proporcionar isso.
 
Já retornou ao trabalho no presídio de Aquidauana?
Minha rotina de trabalho está normal, eu vou precisar repor alguns dias em dezembro, mas isso é o de menos.
 
Durante a exibição do quadro, chamou a atenção o relato de alguns detentos sobre você. Eles disseram te respeitar bastante.
Tive uma grande surpresa no domingo à noite, quando um rapaz foi até o presídio. Ele estava meio alcoolizado e parecia ter uma grande certeza de que eu estaria lá. Ele me cumprimentou, chamou por 'Seu Claudio' e disse que os detentos precisam muito da minha ajuda, pois agora todo mundo quer ouvir o que eu tenho a dizer. Falou para eu pedir um olhar mais atento do poder público com relação a eles.
 
Quase final da entrevista. Você gostaria de fazer algum agradecimento?
Sim, eu gostaria de agradecer ao Oziel (Papel) e ao Tony, que sempre me ajudaram muito com o projeto. Agradeço ao Gil, ao Kanu, às pessoas da Associação de Basquete de Mato Grosso do Sul e a todos os envolvidos com a modalidade no Estado, por se manifestarem e também por estarem muito felizes com o que vem acontecendo. Também agradeço pelo apoio da Agepen-MS (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário), da Prefeitura de Aquidauana e do comércio local.
 
Já encontrou um tempinho para curtir esse momento ao lado da família?
Sempre tive três prioridades na minha vida: a família, o trabalho de agente penitenciário e o "Adote 1 Atleta". Meus familiares também estão muito felizes com tudo isso, minha filha ainda não entende bem, mas a minha esposa me ajuda muito para continuar com o projeto. Não apenas com o que nos foi dado, mas com o que a gente pode conseguir. Eu sou o reflexo da minha família, isso que fazemos, ensinar o basquete, vem muito antes do "Adote 1 Atleta". Se eu for a sombra do que meu pai e minha mãe são, eu sou um homem feliz.

VEJA TAMBÉM

ÚLTIMAS

Viviane Luiza defende saúde, educação e infraestrutura na fronteira

Eleições 2026

Viviane Luiza defende saúde, educação e infraestrutura na fronteira

Candidata a deputada federal pelo PSDB destacou demandas de Bela Vista; saúde, educação, infraestrutura e desenvolvimento estão entre as prioridades

Escola de Anastácio promove aula temática sobre cultura pantaneira

Educação

Escola de Anastácio promove aula temática sobre cultura pantaneira

Atividade reuniu estudantes em uma experiência de valorização dos costumes e saberes regionais; proposta aproximou educação, cultura e comunidade dentro da escola

Voltar ao topo

Logo O Pantaneiro Rodapé

Rua XV de Agosto, 339 - Bairro Alto - Aquidauana/MS

©2026 O Pantaneiro. Todos os Direitos Reservados.

Layout

Software

2
Entre em nosso grupo