Amizade
Retrato foi registrado na Escola Estadual Cândido Mariano
Mais de 40 anos depois, grupo de amigas que estudaram juntas na Escola Estadual Cândido Mariano, em Aquidauana, repetiram recentemente foto tirada em dezembro de 1976, quando ainda estudavam a oitava série. A imagem, que fez parte de uma série de fotos tiradas com os colegas da época, trazia boas lembranças sobre uma amizade que transcendeu o tempo e momentos marcantes que não voltam mais.
Mônica Figueiredo Gehre Anderson, de 56 anos, conta como foi o reencontro para que a foto fosse possível. Segundo ela, duas fotos mexiam com as amigas mesmo depois de tantos anos. Uma era da turma da Rose Bruno, em que todos os alunos estão juntos, e outra era de Mônica com as amigas Rose, Egínia, Mayra e Maria.
"A gente sempre tentou reunir a turma. Aí no ano passado foi criado com um grupo de WhatsApp no ano passado e, a partir dele, conseguimos reunir 30 pessoas, sendo que dois dos colegas estavam falecidos. Fizemos um encontro em uma pizzaria de Campo Grande, depois um jantar aqui em Aquidauana, no Clube dos Médicos. A partir daí sempre tentávamos nos reunir", conta.
No início deste mês de julho, as amigas se reencontraram na Escola Estadual Cândido Mariano, onde reproduziram a foto, diante de diversas risadas e recordações inesquecíveis. "A gente se sente praticamente adolescente de novo, só vem coisa boa". A história do encontro inspirou até mesmo a escritora Raquel Anderson, que fez questão de registrar o momento com belas palavras no texto a seguir.
8ª SÉRIE – A
Autor: Raquel Anderson
Tudo permanece aqui, no escaninho da alma da gente. Cravados em nós, de olhos abertos ou fechados, nos lembramos do papel almaço pautado, com margem, dos cabeçalhos caprichados, dos cadernos lindos, encapados. Dos trabalhos minuciosos, feitos de cartolina, com canetinhas coloridas e recortes de revistas, lembramos, como se fosse hoje, das nossas carteiras, de quem sentava-se ao nosso lado.
Ainda reconhecemos o timbre da voz dos professores e, o “Cabra” da professora Zuma, ecoa rouco e fino, até hoje.
Provas mimeografadas cheirando álcool, com letras roxas, inebriam-nos ainda. O tempo em que a única preocupação era ser feliz, cultivar amizades, estudar e namorar. O mundo todo estava dentro de nós e em Aquidauana.
Éramos trinta, falando e rindo ao mesmo tempo, projetando os nossos sonhos inusitados, romanceando a vida.
A inocência que pairou na nossa geração nos fez assim, capazes de voltarmos, de nos reencontrarmos, são as memórias das nossas alegrias, de quando nos entregávamos de peito aberto para a vida, quando acreditávamos em tudo, talvez, porque desconhecíamos as crueldades, as mazelas humanas.
Nas enciclopédias, só acessávamos bondades e bem querer, o melhor de nós, que nos fez perpetuar o carinho, a emoção de estarmos reunidos novamente.
Tínhamos todas as portas abertas: a do coração, da solidariedade, do acolhimento das nossas famílias que nos recebiam, nas tardes adoráveis, para fazermos os nossos trabalhos escolares, com bolos, sucos, biscoitinhos e com o olhar maternal das mulheres mais lindas do mundo que nos recebiam, a todos, como se fôssemos filhos delas, muitas, não estão mais aqui, entre nós, mas se fazem presentes nas nossas mais doces lembranças, responsáveis pelo o que nos tornamos.
Essas mulheres maravilhosas, acordavam cedo para nos agradar, para preparar o nosso dia, muitas nos acompanhavam, ou no mínimo, ficavam no portão apreciando o nosso caminhar para a escola, para a vida.
Os pais, um pouco mais contidos, pela cultura do patriarcado, muitas vezes demonstravam amor e carinho com um aceno, quando nos autorizavam as idas ao cinema, um sábado um pouquinho mais esticado nas brincadeiras, a participação numa serenata, um dinheirinho a mais para um disco de vinil, uma sandália nova, uma calça da Gladson ou calça Lee, quando, muitas vezes, faziam vistas grossas para as nossas paixões arrebatadoras, em que passávamos horas trancadas no quarto, quando os meninos voltavam tarde demais, ou quando sumiam e os pais sabiam onde eles estavam...
São essas referências que fizeram com que o Cândido Mariano fosse uma extensão da casa da gente, levávamos as simplicidades para a sala de aula e, sem que soubéssemos, o jeito da família, o aconchego todo, o cuidado da mãe, a preocupação do pai, estavam ali, alojados no nosso dia a dia.
Os professores conheciam a nossa família, uma tia, um tio, uma avó, um primo, ou eram nossos vizinhos, eram parentes, compadres e comadres dos nossos pais.
Essa grande família nos impulsionou para os deliciosos improvisos e a cumplicidade ente nós ganhava proporções gigantescas para namorarmos escondido, para marcarmos um encontro, beijarmos no escuro, dançarmos de rosto colado e, no outro dia, conjecturarmos mudanças no mundo, gastando o nosso tempo pensando naquele “pão” de homem ou naquela “gata” sensacional.
Quantas lembranças e emoções cabem em nós e quão importante foi descobrimos, com elas, que bastou acionarmos o comando das nossas delicadezas, dos bons tempos, bastou um backup em nossas memórias para darmos mais um sentido delicado às nossas vidas.
Viva a tecnologia do século XXI que nos proporciona tudo isso.
Mas, foi no Trancão, no Arataca, no Beira Rio, no Feminino, no carnaval, no cinema, no Tereré, na prainha, no futebol, nos jogos da Primavera, nas quermesses, nas festas juninas, na boutique, nas costureiras, nos magazines, no salão, na sorveteria, nos lugares todos, que nos fizeram sonhar, onde dávamos risadas, onde os nosso frisson pela vida gritava e os nossos segredos eram, semanalmente, contados no Cândido Mariano, palco das nossas conquistas, nos dos nossos sofrimentos, das nossas lágrimas e das mais gostosas gargalhadas.
O tempo passou, atravessamos montanhas, atravessamos o rio Aquidauana, a serra de Maracaju, ou ficamos aqui, o fato é que todos nós estávamos com o escaninho empoeirado e as lembranças adormecidas, tocando as nossas vidas.
Nos casamos, criamos os filhos, tivemos as nossas perdas, os nosso ganhos, amadurecemos, conhecemos a vida de perto e, como no álbum de recordação que escrevíamos pensamentos e mensagens, escrevemos, cada um de nós, a nossa própria história.
Um dia, no jogo de bete, na quadra de vôlei, no futebol de salão, no basquete, no ensaio da quadrilha, na aula de educação artística, nos bailinhos, no correio elegante recebido ou enviado, no ponche cheio de uvas e maçãs, nesse chão pantaneiro, onde andamos com os pés descalços, onde a vida era acompanhada pelo valor da amizade e o mundo todo estava aqui, nessa cidade, onde não tínhamos medo, com a bocaiúva na boca, laranjas em abudância para treinarmos beijar, guaviras nos trilheiros, siriguelas e águas pombas no caminho, tudo era perto, conhecíamos cada paralelepípedo, de olhos fechados, nossas bicicletas nos levavam aos destinos, as casas dos nossos amigos, ao Norusca e ao Gressa.
Um dia que não trancávamos as bicicletas, que deixávamos bolsas e mochilas abertas, o dia que a confiança reinava, que tínhamos marcas de vacina e catapora, que rodávamos a cidade de carro, a tarde e a noite inteira, sem nos preocuparmos com o preço da gasolina, um dia que catávamos flores no jardim, que chupávamos picolé de groselha no recreio, que ganhávamos piruá do pipoqueiro é o dia de hoje, é o nosso dia, pra sempre.
Hoje não somos mais trinta...perdemos amigos, contatos, abraços, ganhamos mais essa oportunidade da vida, a oportunidade do reencontro, da superação, da capacidade de reviver emoção, de reexperimentarmos sentimentos, de entendermos a belezura dos nossos encantamentos, ganhamos a oportunidade de, juntos, celebramos a vida, com saúde, com a paz que nos acometeu nos anos dourados do oitavão do Cândido Mariano.
Que essa alegria, tão viva em nós, sejam para as próximas gerações tudo o que recebemos um dia, no tempo da delicadeza, onde o amor, a inocência, as ingenuidades se faziam presentes com tanta beleza e harmonia.
Que o amor, a cumplicidade e a amizade e a união perpetue-se em cada um de nós!!
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