RAÍZES AQUIDAUANENSES
Com raízes familiares aquidauanenses, Idjahure destaca importância da representatividade; formação acadêmica inclui experiências na França
Publicado em 07/11/2026 às 11:01
Posse do diplomata Idjahure Achkar de Mendonça Pinto, do povo Terena, filho do artista indígena Mac Suara Kadiwéu / Reprodução/Redes sociais
A entrada de indígenas nos espaços de poder e decisão do país é fundamental para que os povos originários alcancem cidadania plena. A avaliação é do diplomata Idjahure Achkar de Mendonça Pinto, do povo Terena, que tomou posse como terceiro-secretário do Ministério das Relações Exteriores na última quarta-feira (04), em uma cerimônia histórica no Palácio do Itamaraty, em Brasília (DF).
“Os povos indígenas nunca atingirão uma cidadania plena se não ocuparem plenamente os espaços de poder e decisão do país. Estar no Itamaraty é ter consciência de toda essa história pretérita de exclusão e tutela, batalhando por um futuro ancestral e por um novo presente onde a nossa diversidade étnica finalmente integre o Estado”, afirmou Idjahure.
A declaração reforça o significado da conquista, que também tem ligação com Aquidauana. Como mostrou O Pantaneiro em reportagem publicada na quinta-feira (05), o pai do diplomata, o artista indígena Mac Suara Kadiwéu, nasceu no município, em 1962. Reconhecido por sua trajetória no cinema brasileiro, ele é considerado pioneiro entre os atores indígenas do país.
A formação de Idjahure reúne graduação e licenciatura em Ciências Sociais pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), mestrado em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e doutorado em andamento na mesma área pela USP (Universidade de São Paulo).
Sua trajetória também inclui participação no Programa Guatá, iniciativa de formação e bolsas de doutorado-sanduíche voltada a pesquisadores indígenas brasileiros. Integrante da turma de 2024–2025, Idjahure realizou atividades acadêmicas na França, com passagem pela Sciences Po Paris e acolhimento no Laboratório de Antropologia Social do Collège de France. Em fevereiro de 2025, também coorganizou o colóquio “Sciences Vivantes: Perspectives autochtones dans le monde de la recherche et das artes”.
A pesquisa acadêmica de Idjahure dialoga com a própria história familiar. Sua dissertação de mestrado abordou a trajetória do pai, com o título “Do bugre ao trickster: memórias de meu pai Mac Suara Kadiwéu”, aproximando memória, identidade indígena e produção cultural.
Idjahure integra a primeira turma da formação diplomática brasileira a receber representantes indígenas. Ao lado dele, tomou posse Marcelo Kariri Meneses, do povo Kariri. A cerimônia também marcou a entrada da primeira diplomata quilombola na história da carreira, Helen Jaine Gomes Borgens.
Segundo o Ministério dos Povos Indígenas, os 60 novos terceiros-secretários formam a turma mais plural da história do Itamaraty. Ao todo, 27 integrantes pertencem a grupos historicamente sub-representados - são 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência, duas indígenas e uma quilombola.
O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, também aquidauanense, participou da solenidade e destacou a importância da presença indígena na formulação de decisões nacionais e internacionais. Para ele, a posse representa a concretização da proposta de “Aldear o Estado”, superando uma longa história de tutela e exclusão dos povos originários.
Com a chegada de Idjahure à carreira diplomática, Aquidauana ganha mais um vínculo com a representação brasileira no exterior. Ele se soma a Essi Rafael, outro nome ligado ao município que também integra a diplomacia nacional. Em conversa com O Pantaneiro, o primeiro diplomata da história de Aquidauana celebrou a posse de Idjahure e o avanço representado com a chegada de indígenas e quilombolas ao Itamaraty.
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