INÉDITO
Idjahure Kadiwel está entre os primeiros indígenas a ingressar na carreira diplomática; com Essi Rafael, município passa a ter dois representantes no Itamaraty
Quarta-feira foi histórica com a posse dos dois primeiros indígenas a ingressar na formação da carreira diplomática no Brasil / Reprodução/Redes sociais
A presença indígena na diplomacia brasileira ganhou um capítulo inédito nesta quarta-feira (04), com a posse de Idjahure Achkar de Mendonça Pinto Kadiwel, conhecido como Idjahure Terena, no Ministério das Relações Exteriores. Integrante do povo Terena, ele está entre os dois primeiros indígenas a ingressar na formação da carreira diplomática no Brasil. Sua conquista também tem um significado especial para Aquidauana, cidade onde nasceu seu pai, o artista indígena Mac Suara Kadiwéu.
Idjahure tem 36 anos, é natural do Rio de Janeiro e construiu uma trajetória ligada à pesquisa, à literatura e à cultura indígena. É graduado em Ciências Sociais pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Também cursava doutorado na USP (Universidade de São Paulo) quando foi aprovado no concurso para diplomata.
A aproximação com suas origens Terena aconteceu de maneira mais profunda na adolescência. Aos 18 anos, ele viajou a Mato Grosso do Sul para conhecer familiares e reencontrar parte de sua história. Em entrevista à Agência Brasil, em 2024, contou que, ao conhecer a avó, Margarida Terena, foi recebido por um canto improvisado, emocionada pelo encontro com o neto.
A história familiar também passa por Aquidauana. Seu pai, Mac Suara Kadiwéu, nasceu no município em 1962 e construiu uma trajetória marcante no cinema e na produção cultural indígena. Considerado um dos pioneiros indígenas do cinema brasileiro, participou de produções como Quilombo (1984) e A Floresta de Esmeraldas (1985), mas ganhou projeção nacional ao protagonizar Avaeté – Semente da Vingança, lançado em 1985. Décadas depois, voltou à televisão no remake da novela Renascer, da TV Globo, em 2024, interpretando Chico das Mortes. Além da carreira artística, participou da fundação do Núcleo de Cultura da União das Nações Indígenas e da Aliança dos Povos da Floresta. A trajetória do pai também foi tema da dissertação de mestrado de Idjahure, intitulada "Do bugre ao trickster: memórias de meu pai Mac Suara Kadiwéu".
A posse ocorreu em uma turma de 60 novos diplomatas, no Palácio Itamaraty, em Brasília. Pela primeira vez, o concurso de admissão à carreira diplomática reservou vagas específicas para candidatos indígenas e quilombolas. Além de Idjahure, também tomou posse o indígena Marcelo Kariri Meneses, do povo Kariri, e a quilombola Helen Jaine Gomes Borgens. Entre as autoridades presentes estava o ministro dos Povos Indígenas, o aquidauanense Eloy Terena.
Ao todo, 27 integrantes da turma pertencem a grupos historicamente sub-representados na diplomacia - 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência, duas indígenas e uma quilombola. A mudança representa uma abertura inédita em uma carreira tradicionalmente marcada pela baixa presença desses grupos.
Mas, afinal, o que faz um diplomata? É o profissional que representa o Brasil em outros países e em organismos internacionais, participa de negociações, acompanha relações políticas e econômicas e atua na defesa dos interesses brasileiros no exterior. Também pode trabalhar em embaixadas e consulados, inclusive prestando assistência a brasileiros que vivem ou viajam para outros países.
Os novos integrantes começam como terceiros-secretários e passam por formação no Instituto Rio Branco, em Brasília, antes de assumir as diferentes funções da carreira. A partir daí, podem construir uma trajetória que envolve missões no exterior e atuação em áreas estratégicas das relações internacionais.
Com a posse, Aquidauana passa a ter dois nomes ligados à diplomacia brasileira - Idjahure e Essi Rafael.
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