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Despedida

Além do talento na "barba, cabelo e bigode", seu Alves foi mesmo um professor na escola da vida

Tradicional barbeiro e cabeleireiro de Aquidauana agora deixa legado ao filho

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Foram 42 anos de "barba, cabelo e bigode". O fino trato do cearense e aquidauanense de coração João Alves de Oliveira – mais conhecido como o seu Alves da barbearia – não se estendia apenas ao salão que um dia trabalhou e foi dono. Muito além disso, seu Alves foi um professor na escola da vida.

Aos 71 anos de idade, João Alves de Oliveira – o seu Alves da barbearia – se despediu da tesoura e máquina zero.

Bom de papo, conhecia todos os seus clientes e amigos por nome e sobrenome. Sem ser jornalista, era também o dono da "notícia": sabia das pessoas, dos rumores e humores da cidade. Quando solicitado, dava conselhos. E como dava. Na sua simplicidade de ser, tinha um jeitinho "orientador", naturalmente acolhedor e atencioso. Principalmente, um cara de grande coração.

Assim, é fácil entender porque ganhou o título popular de barbeiro mais querido e tradicional da cidade. Pois pegou de surpresa ao descobrir que, com apenas 71 anos, foi obrigado a se despedir da tesoura e abandonar a máquina zero tão cedo. Agora, as ferramentas de trabalho – que um dia foram não somente seu ganha-pão, mas o sonho realizado em vida – estão a descansar por sobre a bancada.

Pai e avô carinhoso, ele deixou para trás esposa, filhos e netos; ainda, o legado da profissão e o carinho de Aquidauana.

Na saudade do pai, o legado de seu Alves é perpetuado nas mãos do filho Henrique Gonçalves Oliveira, 40 anos. Por incentivo do seu "velho", em 1996 fez um curso e até hoje continua no segmento do patriarca.

"Meu pai simboliza um exemplo de fé, garra, dedicação e amor. Além da profissão, é claro, o legado que sem dúvida ele deixou a mim – e que serve de inspiração para todos – foi nunca abandonar seu maior sonho, de ter um salão próprio onde prestaria seu talento na tesoura da melhor forma possível, sempre com muita dedicação e afinco", afirma Henrique.

O filho conta que desde jovem seu Alves já cortava o cabelo do pai, dos irmãos e até dos vizinhos – isso lá no Ceará. Em 1970, quando serviu o exército, até para soldados e colegas do batalhão fazia o mesmo. Por força do destino, veio parar no Mato Grosso uno e, após abandonar a carreira militar, teve que se virar como pôde: de segurança bancário a vendedor de loja, até mesmo trabalhando na rede ferroviária.

Incentivado pelo pai, Henrique seguiu a mesma carreira; na saudade, fica marcado o respeito e eterno agradecimento.

Mas foi em 1978 que um antigo sonho veio à tona. Ao usar o acerto do emprego anterior, finalmente conseguiu realizá-lo. Nascia assim, em fevereiro do ano seguinte, o Salão Alves.

"Originalmente na rua Sete de Setembro, número 1144. Ficou ali por dois anos seguidos. Na sequência, mudou para uma quadra à frente, permanecendo por mais 10 anos. Já em 1991, comprou o estabelecimento próprio e atualmente conhecido, o da rua Duque de Caxias, 777", detalha o filho. Ainda na década de 90, alguns anos mais tarde, Henrique viria a ser colega de profissão do pai.

"Desde pequeno eu ia com ele para o salão. Via a forma como ele trabalhava, conversava, interagia e ainda fazia o atendimento. Aquilo me deixava fascinado. Ele tinha uma atenção, precisão no corte, e uma naturalidade para aquilo que eram invejáveis", descreve.

Na fachada simples, porta sempre aberta; comunidade aquidauanense traz no peito o carinho por esse cearense.

Fiel clientela – Em 42 anos de profissão, foram incontáveis cortes de cabelo. Alguns passageiros, outros fixos, mas sempre "à disposição". Assim recorda Marcelo Santos do Amaral, 48 anos, tenente coronel da Polícia Militar, sobre seu Alves.

Natural do RJ, criado em Aquidauana e hoje morador da Capital, desde 1987 Amaral frequenta o salão desse cearense. "Ia junto dos meus irmãos e meu saudoso pai. Lembro da maneira  atenciosa e acolhedora que seu Alves nos recebia, percebendo – assim como  o dele – nosso sotaque diferente", conta.

Foram vários e vários anos indo ao Salão Alves. Entre laços afetivos e memórias jamais esquecidas, uma pra lá de especial: foi o próprio barbeiro quem deixou Amaral "nos trinques" para a noiva em breve esposa, às vésperas do dia do seu casamento.

"Recordar os vários cortes de cabelo nos reporta a tardes felizes, de muito aprendizado e saberes que não se adquirem nos bancos acadêmicos, mas resultado da vivência prática. Simplesmente, Aquidauana se despede de um grande homem, retidão ímpar e uma consciência cidadã inabalável", opina o tenente coronel.

Henrique (à esquerda) ao lado do tenente coronel Amaral; desde que era pequeno, o PM frequenta o Salão Alves.

Seu Alves já tinha lutando desde outubro do ano passado contra problemas no pâncreas. Mesmo após duas cirurgias e ligeiro estado de melhora, o problema principal não teve solução e no último sábado (10) acabou falecendo.

"Palavras não são capazes de descrever qual a maior saudade. Posso afirmar, porém, que já sinto falta das suas conversas, sempre orientadoras. Algo que jamais vou esquecer é a sua vida dedicada à família. Por tudo isso, meu eterno agradecimento", termina o filho.

João Alves de Oliveira deixa a esposa Genilce, os filhos Henrique e Ricardo, duas noras e seis netos.

Além de ser um homem pautado na fé evangélica, com amor ao canto, Alves tinha sua família em alta consideração.

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